O processo desenfreado de mercantilização dos espaços urbanos do Recife. Por Felipe Cury

José Matheus Santos
José Matheus Santos
Publicado em 31/03/2021 às 7:32
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Por Felipe Cury, em artigo enviado ao Blog

Fomos, atores do direito à cidade e a população do Recife, mais uma vez surpreendido com matéria no Blog do Jamildo que o grupo imobiliário Moura Dubeux está em processo de aquisição de terrenos pertencentes ao Marista localizado no bairro de Apipucos, para mais um empreendimento na cidade como denunciou o conseleiro Fernando Holanda. 

Uma cidade como Recife, que figura na lista das mais desiguais do Brasil, não pode ter seu processo de urbanização desenfreado e mercantilizado por interesses apenas de uma parcela da sociedade  economicamente privilegiada. 

É lógico que nenhum gestor público ou cidadão pode preceder de uma das atividades econômicas que mais geram empregos e renda para o município como a construção civil. O que devemos observar antes de tudo é: que tipo de cidade queremos? 

É imperativo discutir o modelo de urbanização que melhor se adequa a cidade. Recife tem um dos piores índices de mobilidade urbana das capitais brasileiras, um déficit habitacional de mais de 70 mil famílias sem moradia, um dos maiores adensamentos populacionais urbanos do país. 

Felipe Cury. Foto: Divulgação

Portanto, é imprescindível se debater, consultar, pensar e utilizar todos os organismos institucionais existentes para avaliar esses empreendimentos antes de sua aprovação. Temos o Conselho da Cidade, Câmaras Temáticas,  o CDU (Conselho de Desenvolvimento Urbano), Audiências Públicas, aplicação do Plano Diretor da Cidade, a Lei de Uso, Parcelamento e Ocupação do Solo (que ainda está em revisão) e fundamentalmente, ouvir e chamar a população para participar. 

É dever construir e aprovar planos de intervenção urbana nesses territórios, pensando prioritariamente no cidadão e cidadã que vive no seu entorno. E quais os impactos na região e na cidade como um todo eles irão gerar.

Não basta medidas metigadoras, temos que pensar no futuro da cidade! Eu desejo uma cidade urbanamente, socialmente e economicamente justa e ambientalmente sustentável. 

Por exemplo: por que o mercado imobiliário só quer construir prédios de luxo e para um setor de alto padrão e poder aquisitivo? Por que não construir empreendimentos de uso misto e para o setor produtivo e trabalhador da cidade? 

Não precisamos de mais um “Novo Recife” em construção no Cais José Estelita. Outro exemplo: o caso da Vila Naval. Fomos contra ao projeto apresentado para construção de 12 torres no local. Porém, nunca fomos contra a construir um projeto urbanístico que contemplassem à todos. Em especial a população de Santo Amaro que residem naquele território há décadas. 

Não somos contra ao crescimento econômico, somos contra a mercantilização dos espaços urbanos  para usufruto apenas de uma elite econômica.

No caso em questão, ainda é possível  repensar. A prefeitura é responsável por aprovar qualquer projeto na cidade e tem os instrumentos necessários para fazê-lo assegurando tudo que descrevemos neste artigo e no melhor para o Recife. Vamos esperar e mais do que isso, acompanhar, participar e cobrar que assim seja feito.

*Felipe Cury é ativista, ex-diretor de Habitação e da Gerência de Planejamento e Monitoramento da Secretaria de Saneamento do Recife e Dirigente do PT em Pernambuco.

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