Nelson Teich alega 'falta de autonomia' e diz que pediu para sair do Ministério da Saúde após declarações de Bolsonaro em defesa da cloroquina

José Matheus Santos
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José Matheus Santos
Publicado em 05/05/2021 às 11:56
Foto: Reprodução
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O ex-ministro da Saúde Nelson Teich já faz sua explanação à CPI da Covid sobre sua curta gestão à frente da pasta, onde ficou por apenas 29 dias. A sessão teve início às 10h20 com questões de ordem para pedir uma homenagem ao ator e humorista Paulo Gustavo, que morreu ontem em razão de complicações da Covid-19. O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), pediu um minuto de silêncio.

Em sua fala inicial na CPI, o ex-ministro Nelson Teich disse que optou por deixar o cargo por perceber que não teria autonomia e liberdade para atuar no combate à pandemia. Ele citou divergências sobre o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19 por considerar que não havia base científica para isso. O medicamento, que foi reiteradamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, é comprovadamente ineficaz.

"Essa falta de autonomia ficou mais evidente em razão das divergências com o governo quanto à eficácia e extensão da cloroquina no tratamento de Covid-19. Enquanto minha convicção pessoal, baseada em estudos, era de que naquele momento não existe eficácia para liberar, existia um entendimento diferente do presidente, que era amparado por outros profissionais, até pelo Conselho Federal de Medicina. Isso foi o que motivou minha saída. Sem liberdade de conduzir o ministério conforme minhas convicções, decidi deixar o cargo", disse Teich.

ASSISTA À SESSÃO DA CPI DA COVID ABAIXO:

'Conduta inadequada'

Durante a oitiva, Teich disse em resposta ao relator Renan Calheiros (MDB-AL) que não participou de decisões, nem foi consultado sobre a produção de cloroquina pelo Exército na sua gestão.

"Eu não participei disso, se aconteceu alguma coisa foi fora do meu conhecimento", declarou.

Renan, que inicia os questionamentos, perguntou então se a adoção da cloroquina macula a imagem do Ministério da Saúde, Teich respondeu:

"É uma conduta que para mim era inadequada".

O ex-ministro disse que havia uma preocupação do "uso indevido" de medicamentos, não apenas da cloroquina.

"[A cloroquina] é um medicamento que tem efeitos colaterais. Essencialmente era a preocupação do uso indevido. Isso vale nao para a cloroquina, mas para qualquer medicamento", afirmou.

Teich disse, ainda, que a única questão que gerava discussão era a cloroquina. De acordo com ele, o seu pedido de demissão ocorreu justamente pelo pedido de ampliação do uso do medicamento contra a Covid-19. O ex-ministro avalia que, embora tenha sido um ponto específico, "isso refletia uma falta de autonomia" no Ministério da Saúde.

Teich comentou a decisão do governo de ampliar o rol de atividades essenciais sem consultá-lo. Ele, que era ministro à epoca, estava no meio da entrevista quando foi informado pela imprensa, sendo surpreendido.

"Aquilo foi uma situação ruim. Até conversei com eles depois em relação a isso. Eles até pediram desculpa em relação a isso. Aquela condução foi ruim, trouxe uma percepção ruim para todo mundo", disse Nelson Teich.

Indicação de Pazuello

Teich disse que Eduardo Pazuello, que foi seu secretário executivo na pasta antes de se tornar ministro, foi indicado por Bolsonaro, e não por ele. Mas também disse que, apesar da inexperiência na área da saúde, Pazuello atuaria sob sua supervisão e, caso não tivesse um bom desempenho, não permaneceria no cargo.

"Naquele momento, uma coisa em que me preocupei foi de manter o que vinha sendo feito, para não parar o que era importante. Quando conversei com Pazuello, tinha referência dele no Projeto Acolhida [que atende imigrantes venezuelanos em Roraima], nos Jogos Olímpicos. Eu tinha ali um problema de execução, uma malha disponível do Exército. Ele trabalharia sob minha orientação", afirmou Teich.

Renan questionou se Pazuello sabotou o trabalho de Teich. O ministro respondeu que o então secretário executivo fez o papel dele.

Renan perguntou se Teich teve autonomia para formar sua equipe de trabalho.

"Sim. Pazuello entrou na Secretaria Executiva, mas as outras secretarias foram mantidas em nível técnico", respondeu o ex-ministro.

Questionado sobre suas ações para aquisição de vacinas, Teich disse: "No mesmo período não tinha uma vacina sendo comercializada. Ainda era o começo do processo da vacina. Foi quando trouxe a da AstraZeneca para o estudo ser feito no Brasil, na expectativa de que, trazendo o estudo, a gente tivesse uma facilidade para compra futura".

Participação feminina gera bate-boca

Os senadores discutiram sobre a possibilidade de a bancada feminina se manifestar na CPI, mesmo não tendo integrantes da comissão. Senadores governistas, como Ciro Nogueira (PP-PI), Marcos Rogério (DEM-RO) e Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), se manifestaram contra.

As senadoras Eliziane Gama (Cidadania-MA) e Simone Tebet (MDB-MS) defenderam a possibilidade de falar, argumentando que isso teria sido decidido pela própria CPI. 

Houve bate-boca, como no momento em que Rogério sugeriu que a participação feminina seria usada para atacar Bolsonaro. O presidente da CPI, Omar Aziz, suspendeu a sessão em razão da confusão, dizendo que eles poderiam brigar à vontade. Na retomada, foi assegurada a palavra à senadora Eliziane Gama.

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