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Pelo fim da ditadura. Considerações sobre o levante popular em Cuba

Não há saída fora da democracia, das liberdades amplas, da autonomia pessoal, do pluralismo político e cultural, das garantias fundamentais e dos direitos humanos.

JAMILDO MELO
JAMILDO MELO
Publicado em 27/07/2021 às 17:00
Notícia
YAMIL LAGE / AFP
Protesto em Havana, Cuba - FOTO: YAMIL LAGE / AFP
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Por Josias de Paula Jr

No domingo 11 de julho, milhares de pessoas - crianças, jovens, idosos - foram às ruas clamar por comida, saúde, liberdade e dignidade na maior ilha caribenha: Cuba.

Sob uma ditadura militarizada e uma tirania há 62 anos, os cubanos venceram o medo do terror imposto ao País desde a ascensão ao poder de Fidel Castro, rompendo o véu do silêncio (como vários dentre eles disseram), mesmo que pondo em risco sua integridade física e mesmo a vida.

A resposta do tirano do momento, Miguel Diaz-Canel, foi repressão e mais censura, sem alusão a qualquer mudança no sistema.

Qual foi a atitude dos políticos, partidos e intelectuais de esquerda no Brasil ante aquela magnífica e desesperada manifestação?

Entre um cinismo aqui, uma retumbante ignorância da realidade de Cuba ali e o fanatismo ideológico espraiado, a reação da esquerda brasileira é de envergonhar o mais descarado dos mortais.

Nenhuma compaixão à dor dos cubanos, nenhuma empatia. Nenhum esforço, mínimo que fosse, em escutar e testemunhar o sofrimento concreto daqueles seres humanos exasperados. Não, não.

Preferiu-se tratá-los como "agentes da CIA", negar por completo suas subjetividades, reduzi-los a uma enfadonha figura abstrata do moribundo discurso totalitário castrista.

Ou então escolheu-se atribuir a situação ao "bloqueio norte-americano". O que, novamente, ressalta o cinismo e a ignorância de nossa esquerda.

Primeiro: não existe uma bloqueio à Cuba (seus portos, costa, espaço aéreo estão abertos).

Cuba tem relações com centenas de países, inclusive é membro da OMC desde 1995.

Os Estados Unidos da América (EUA), contudo, aplicam um embargo econômico desde que foram ameaçados de extermínio por Fidel Castro, quando este cedeu ao imperialismo soviético (o mundo sempre teve mais de um imperialismo…), uma base de lançamento de mísseis em 1962.

Porém, como o nome já diz, se o embargo põe obstáculos e dificulta o comércio de cidadãos americanos com Cuba, isso não impede os EUA de ocuparem em 2018 o oitavo lugar na procedência de produtos importados pela ilha.

A lista de produtos exportados pelos EUA é vasta: alimentos, vestuário, remédios, equipamentos médicos e laboratoriais, materiais ligados a construção civil, insulina, penicilina, máquinas agrícolas, fertilizantes, suplementos veterinários, cerveja, uísque, pasta de dente etc. etc. etc.

O que falta a Cuba são divisas, dinheiro para prover sua população do mínimo necessário.

É isso que explica a emigração constante dos cubanos: a miséria. Miséria que é ampla: alimentar, cultural, política, de liberdade e de esperança.

A iniciativa aflita de cento e vinte e cinco mil pessoas, fugindo do totalitarismo comunista em 1980, o grande "êxodo de Mariel" (um dos maiores movimentos migratórios do século XX), escancarou tal realidade.

Não havia sido a primeira onda migratória, nem foi a última. Fidel, com sua bazófia de déspota, discursou dizendo que aqueles que partiam não tinham sangue, mente e coração revolucionários, logo, Cuba não precisava deles.

Em outros termos, é a consigna "Cuba: amea-a ou deixe-a", tão apreciada por ditadores brasileiros… O desrespeito sistemático aos direitos fundamentais da pessoa humana, a inexistência da observação aos direitos humanos, a perseguição, encarceramento, tortura de morte de dissidentes continuou.

Toda a opressão espiritual, emocional, subjetiva, soma-se à aniquilação das perspectivas e sonhos (Para que formar-se engenheiro ou arquiteto na ilha, se nada se constrói? Para que formar-se jornalista, se não existe jornalismo, apenas propaganda e manipulação oficialista?

E advogado, se não existe Estado de direito? E não se pode ter nada e sua vontade tem que ser a vontade totalitária) e a pobreza rotineira do dia a dia: sem comida, sem energia elétrica, sem remédios, sem papel higiênico…

Com tudo isso dito acima, documentado por diversas organizações, testemunhado e dito por centenas de milhares de cubanos obrigados a deixar sua terra, relatado pungentemente por tantos como Reinaldo Arenas, Carlos Franqui, Oswaldo Payá, Luis Losada-Miguel Gil, a esquerda brasileira prefere transformar os cubanos ou em imbecis e tolos manipulados, ou em inimigos do grande sonho do burguês médio das sociedades capitalistas, a angelical humanidade comunista!

Mais uma vez comprovam seu desprezo democrático, se abraçam com a barbárie, relativizam os direitos humanos, logo relativizam os seres humanos.

Mais uma vez trocam o enfrentamento da realidade pelo idílio do sonho ideológico.

Não há saída fora da democracia, das liberdades amplas, da autonomia pessoal, do pluralismo político e cultural, das garantias fundamentais e dos direitos humanos. O povo cubano vencerá e será livre, mesmo contra a vontade de nossa esquerda. Abaixo à ditadura! Abaixo às ditaduras!

Josias de Paula Jr é doutor em sociologia, professor da UFRPE e associado do Livres

 

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