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Opinião

Tentando salvar Bolsonaro. Por Ricardo Leitão

Com a tensão crescente e opções ainda reduzidas, a direita senta à mesa para distribuir as cartas. Bolsonaro também está sentado, sem direito a opinar e ordenar o jogo, diz articulista

JAMILDO MELO
JAMILDO MELO
Publicado em 16/09/2021 às 10:18
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JEFFERSON NASCIMENTO/JC IMAGEM
MICROFONE Presidente aproveitou para atacar a esquerda política no Brasil, em ato ocorrido na manhã de ontem - FOTO: JEFFERSON NASCIMENTO/JC IMAGEM
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Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao blog

Terça-feira, 14 de setembro, foi mais um dia ruim para o presidente da República. Pela manhã, o jurista Miguel Reale Jr. divulgou um relatório com cerca de 200 páginas, no qual acusa Jair Bolsonaro por crimes de responsabilidade; crimes contra a saúde pública; crimes contra a paz pública; crimes contra a administração pública e crimes contra a humanidade.

O parecer de Reale Jr. resultou de um trabalho feito com outros juristas, com base nas informações colhidas na CPI da Covid, no Senado.

Agora será analisado pelo relator da comissão, senador Renan Calheiros, que poderá se basear nos apontamentos dos juristas ao formular o relatório final da CPI.

De acordo com o parecer, Bolsonaro seria culpado por prevaricação; boicote a medidas de prevenção da covid-19; desleixo na aquisição de vacinas; desarticulação no enfrentamento nacional à pandemia; charlatanismo e incitação ao crime, ao mobilizar seguidores contra as medidas sanitárias preventivas.

Alguns desses crimes, identificados por juristas da responsabilidade de Miguel Reale Jr., têm o poder de municiar um processo de impeachment de Sua Excelência – ademais depois de publicado o relatório da CPI da Covid.

A abertura de um processo com tal objetivo pode ser bloqueada pela base bolsonarista na Câmara dos Deputados, é certo.

Mas as circunstâncias mudam e pode acontecer o contrário.

Com a tensão crescente e opções ainda reduzidas, a direita senta à mesa para distribuir as cartas. Bolsonaro também está sentado, sem direito a opinar e ordenar o jogo.

Na mesa, o primeiro lance seria dado por um grupo formado por oficiais das Forças Armadas; parlamentares e governadores; empresários e membros do Judiciário – todos do campo conservador – que tentaria convencer o presidente a desistir da reeleição.

Diante da conjuntura geral de instabilidade econômica, social e institucional, insistir seria provocar uma convulsão nacional e até mesmo confrontos nas ruas. Caberia a esse grupo escolher o substituto de Bolsonaro na disputa de 2022.

A renúncia de Bolsonaro e a posse do vice-presidente Hamilton Mourão seriam a escolha de um segundo grupo, também representante do campo conservador.

Em contrapartida, o presidente seria anistiado de seus supostos crimes políticos e poderia disputar eleições a partir de 2026. Há dúvidas sobre a viabilidade da escolha, face as reações internas e externas que provocaria.

E há o que se passou a designar de “pacto da tutela”: Bolsonaro permaneceria no poder e até poderia ser candidato à reeleição, mas teria de entregar a condução do governo a uma junta de ministros liderada pelo vice-presidente Mourão e desistir de manobras golpistas.

Mesmo que as três escolhas não requeiram tanques e tropas nas ruas, todas precisam da cooperação de Bolsonaro: para desistir da reeleição, renunciar ou admitir ser tutelado.

Considerando-se o extremo autoritarismo de Sua Excelência, é improvável que ele ceda a uma das três escolhas.

Muito mais provável é que tente recompor forças e continuar articulando um golpe.

Mas quem, na segunda década do século 21, vai se mobilizar para manter no poder o pior presidente da história do Brasil?

Apesar dos delírios bolsonaristas de que as massas que lhe são favoráveis são incomensuráveis, o coro dos contrários é maior. E pior: tem a capacidade de se fazer ouvir bem junto aos ouvidos de Sua Excelência e relembrá-lo de antigos compromissos. São os senhores do dinheiro grosso e suas ligações internacionais, para os quais não interessam a balbúrdia institucional nem as perdas econômicas dela recorrentes.

Eles foram ouvidos na definição dos termos da “carta aos brasileiros” de Bolsonaro, em que o presidente recuou das bravatas dos discursos em Brasília e São Paulo, e na formulação dos manifestos dos empresários, pedindo “harmonia entre os Poderes”.

Por enquanto, Jair Bolsonaro assiste a esse jogo de força bruta econômica e refinada raposice política. É um homem sentado na beirada dos fatos.

Até quando?

No desespero do negacionismo, poderia tentar virar a mesa e retomar o controle do jogo. Não seria um gesto inédito em sua conturbada trajetória, que inclui até planejamento de atentado a bomba.

É possível? Aceitam-se apostas, mas também providências: Jair Messias Bolsonaro, presidente da República, continua armando um golpe de Estado.

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