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'Bolsonaro é a liderança errada. O Brasil precisa de um estadista como Roosevelt', diz Moro em livro

Livro será lançado no Recife, no domingo 5 de dezembro, em evento no Rio Mar

JAMILDO MELO
JAMILDO MELO
Publicado em 30/11/2021 às 0:05
MARCOS CORRÊA/PR
Moro foi ministro da Justiça do governo Bolsonaro - FOTO: MARCOS CORRÊA/PR
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O ex-ministro Sérgio Moro diz acreditar, em seu livro Contra o Sistema da Corrupção, que Bolsonaro foi um erro e que o Brasil perdeu uma grande chance de se livrar do atraso. A obra será lançada neste domingo (5), no RioMar Recife. O livro pode ser interpretado como um acerto de contas de Moro com Bolsonaro, antes do pleito de 2022.

Na obra, além de fazer a defesa do papel das Forças Armadas, ele também diz que não concorda com as pautas antidemocrática, que pregam intervenção militar e o fechamento do Congresso. De forma pitoresca, conta que nas primeiras manifestações a favor da Lava Jato, em Curitiba, ele pró´rio mandou bilhetes pedindo que as pessoas que defendiam intervenção deveriam retirar as faixas do local.

"A eleição de 2018 não nos trouxe a liderança necessária. Os radicais venceram no fim", afirma, em referência aos radicais.

"Quem abriu espaço ao populismo de extrema direita foi o sistema político corrompido", diz. "A cultura do patrimonialismo é responsável pelo nosso atraso", completa.

Ele escreve textualmente que Bolsonaro é a "liderança errada" e o contrapõe com o presidente americano Theodore Roosevelt.

"Toda aquela energia cívica e transformação que tivemos em 2018, que poderia ser focalizada nas reformas judiciárias, administrativas e econômicas necessárias, foi desperdiçada na liderança errada. O Brasil perdeu uma grande chance".

"A impressão que temos é que em 2018 nos faltou um Roosevelt... um candidato que, ao assumir a Presidência da República, soubesse aproveitar a chance de levar adiante as reformas necessárias, entre elas o fortalecimento do combate à corrupção".

ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL
Bolsonaro se aproxima de uma possível candidatura presidencial contra o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro - ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL

A breve descrição biográfica feita por Moro do presidente americano é a seguinte:

"O mais relevante é que os atos de Roosevelt correspondiam ao seu discurso. Ele teve uma atuação destacada como comissário de Polícia na cidade de Nova York e, na presidência, incentivou a aplicação vigorosa da lei contra a corrupção. Destacaram-se, no período, processos movidos pelo governo Federal contra agentes públicos envolvidos na venda fraudulenta de títulos federais imobiliários no estado do Oregon, incluindo de forma inédita um senador e agentes públicos do Kansas envolvidos em fraudes e corrupção nos Correios, incluindo outro senador. Centenas de pessoas foram processadas, indiciadas e condenadas"

Internet
O presidente americano Theodore Roosevelt - Internet

Neste momento, o ex-ministro chama as empresas à responsabilidade, ao defender a necessidade de integridade nas relações comerciais e institucionais.

"A compra envolve quem paga e quem recebe. Se quem paga não estiver disposto a fazê-lo, já é uma solução"

Na publicação, Moro nega que já tivesse entrado no governo com a intenção de virar candidato.

"Não planejava ser candidato enquanto era ministro da Justiça ... (O problema) é que Bolsonaro é muito suscetível a toda e qualquer teoria da conspiração".

Em todo caso, ele escreve que, se desse certo como ministro de Bolsonaro, ganharia musculatura política. Neste sentido, Moro aponta decisões presidenciais nas quais entrou em conflito com Bolsonaro.

Uma delas foi o alargamento do entendimento sobre o excludente de ilicitude. Ele diz que Bolsonaro queria alargar o entendimento da medida e que ele era contra. O ponto de maior discórdia, entretanto, foi a questão do juiz de garantias e a limitação dos acordos de colaboração. Ele diz que implorou mas Bolsonaro não os vetou. Nesta hora, ele chama Bolsonaro de traidor mais uma vez.

"Eu devia ter renunciado ao cargo de ministro no episódio do não veto ao juiz de garantias, que limitava os instrumentos da Lava Jato. Ele omitiu-se completamente", diz.

"Não me cabia criticar Bolsonaro. Ele sabe da sua incoerência em relação ao tema". Pelas redes sociais, na época, ele mandou apenas um recado ao lado do filho, em visita aos EUA. "Nunca nos renderemos". Neste ponto, Moro diz que definiu como limite para a permanência defender a Polícia Federal de ingerências políticas.

Hoje fora do governo, Moro escreve no livro de forma crítica contra a nomeação de Augusto Aras para a PGR, elencando mais uma iniciativa equivocada do presidente.

"A escolha fora da lista tríplice interrompeu o ciclo virtuoso de melhoras do padrão institucional". Ele diz que pediu a Bolsonaro para seguir a lista, mas não foi atendido.

Não ao fechamento do STF

Moro sustenta que não concorda com o fechamento do STF ou críticas pessoais aos ministros, mas diz que as decisões recentes enfraqueceram o combate à corrupção. Ele cita o fim da prisão após condenação em segunda instância e o envio dos casos à Justiça Eleitoral. No livro, ele culpa diretamente o STF e o Congresso Nacional pelos retrocessos, a partir de 2019. Ele cita que a operação no gabinete do líder do governo, Fernando Bezerra Coelho, no Senado, como pretexto usado para derrubar os vetos que havia sugerido na lei de abuso de autoridade.

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