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Em livro, Moro chama Bolsonaro de traidor e admite que errou ao assumir Ministério da Justiça

No livro 'Contra o sistema da corrupção', ex-ministro avalia passagem pelo Governo Bolsonaro

JAMILDO MELO
JAMILDO MELO
Publicado em 30/11/2021 às 0:05
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Jair Bolsonaro e Sergio Moro (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República)
Jair Bolsonaro e Sergio Moro (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República)
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No livro Contra o sistema da corrupção (2021, Primeira Pessoa), cujo lançamento ocorre no Recife neste domingo (5), Sérgio Moro reserva as críticas mais duras a Jair Bolsonaro (sem partido), a quem chama de traidor. Na obra, também sustenta que o presidente fez sabotagem à agenda anticorrupção. Um ano e quatro meses depois de assumir o posto, o ex-juiz abandonou o governo Bolsonaro. O livro pode ser interpretado como um acerto de contas de Moro com Bolsonaro, antes do pleito de 2022.

"Ora, Bolsonaro não manteve a palavra nem sob o combate à corrupção, quanto mais a uma indicação ao STF (que ele afirma nunca ter sido negociada para a indicação", diz. "Minha expectativa era de que Bolsonaro adotasse um tom de estadista, uma postura mais modesta", avaliou.

"Agora, com os fatos, é fácil concluir que errei", diz em dado trecho. Moro também não poupa aliados, como ministros.

"Na época, isso [fala de Onyx Lorenzoni de despetizar a gestão] foi um primeiro indício de que a promessa de que teríamos um governo técnico, que não seria movido por fantasmas ideológicos ou motivado por perseguições, era vazia", classifica. "Nada pior do que conduzir um governo motivado por ideologia ou revanchismos". No texto, sem nominar, o ex-ministro disse ter ouvido de colegas que eram movidos pelo "desejo de vingança" e recomenda profissionalismo na gestão pública.

LEOPOLDO SILVA/AGÊNCIA SENADO
TIMING Para especialistas, Moro devia ter sido candidato no auge da Lava Jato, quando movia manifestações de rua - LEOPOLDO SILVA/AGÊNCIA SENADO

Em mais de uma oportunidade, Moro critica o culto à personalidade.

"Nós brasileiros não deveríamos depender de salvadores da pátria", afirma o magistrado, para quem a Lava Jato mostrou que um outro Brasil é possível. Na publicação, ele compara a corrupção à inflação, nos seus efeitos deletérios à economia, sugerindo que a administração pública pode se livrar da distorção, desde que haja vontade política, como aconteceu com a estabilização da economia.

Erro admitido por Sérgio Moro

Moro explica no livro que viu no convite para entrar no ministério da Justiça como uma forma de combater retrocessos na Lava Jato.

"A Lava Jato atraiu mais inimigos do que poderia suportar. Ela foi vítima de suas virtudes. (...) No governo, descobri que a promessa de combate à corrupção era falsa. Como o compromisso com a economia liberal é irreal", avalia o ex-juiz.

Ele conta que Bolsonaro mentiu ao associar o seu nome a uma eventual vaga ao STF, se aceitasse a troca no comando da Polícia Federal sugerida pelo presidente. "Já havia entendido que o presidente precisava de um ministro leal a ele em um sentido que eu não estava disposto a ser. Não ingressei no governo para proteger quem quer que fosse", diz.

Ao comentar o pedido de informes feito pelo presidente, Moro é taxativo. "A Polícia Federal não é polícia política", diz, no capítulo "De olhos bem fechados".

Em um dos pontos, ele associa esta perseguição que teria sofrido ao caso dos filhos.

Caso das rachadinhas foi origem de todo desentendimento

Moro sustenta que o caso das rachadinhas, envolvendo os filhos do presidente e o amigo Queiroz, estão na origem dos desentendimentos.

"Não fui eu que mudei", diz o ex-ministro, que deixou o governo em 24 de abril de 2020.

"Tudo mudou com uma reportagem do Estado de São Paulo em 6 de dezembro de 2018, sobre um relatório do COAF sobre Queiroz. O relatório assombrou o governo desde o início", diz, acrescentando que foi obrigado a abrir mão do COAF a pedido do governo. "O Planalto e a coordenação política não moveram um dedo para manter o Coaf na Justiça... o Planalto comemorou a decisão do STF a favor de Flávio Bolsonaro contra o Coaf".

Na página 171, no capítulo Pecado Original, ele diz que o processo gerou desgastes (irreversíveis) com Bolsonaro e defende que o presidente deveria ter sido "estadista" e "não olhar os filhos". No mesmo capítulo, ele revela que o presidente teria lhe aconselhado a não se envolver na polêmica. "Se não vai ajudar, não atrapalha", teria dito Bolsonaro. "Fui acusado de traição, mas não entrei no governo para servir a interesses pessoais", afirma antes de concluir que no quesito da ética Bolsonaro e Lula seriam iguais.

"Vejo atualmente o governo Bolsonaro muito parecido com o governo Lula, especialmente na parte ética. Algumas coisas diferem, sim, mas nem tanto. Vale a pena igualar-se ao adversário para alcançar e manter o poder?", questiona.

"Aquele era o momento em que o governante deveria adotar uma postura de estadista, colocando os interesses do país acima das pessoas, ainda que o próprio filho fosse afetado".

Enfrentamento à pandemia ajudou a afastar Bolsonaro de Moro

Moro relata que a pandemia pode ter ajudado a afastá-lo do presidente Bolsonaro. No livro, ele relata que Bolsonaro criticou a entrevista em que Moro defendia o isolamento social, como preconizava o ex-ministro da Saúde, Mandetta. Moro diz que a postura era desalentadora, mas na época não fez críticas públicas ao superior. Ele diz que Bolsonaro só fazia vociferar contra os Estados e Municípios, tentando transferir culpa. Na obra, ele cita que o código penal, no artigo 268, prevê prisão para crimes de pandemia. Também cita o ministro do STF Gilmar Mendes, que se aproximou do presidente na época. Moro sugere que foi limado por esta postura também.

"O STF, ao contrário do que diz Bolsonaro, nunca impediu o governo Federal de combater a pandemia ou seus efeitos. O STF só proibiu o presidente de atrapalhar as ações dos Estados e municípios", escreve.

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