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Ex-padre, prefeito Joselito promete consagrar mandato aos pobres esquecidos de Gravatá

Ex-padre diz que o carnaval deve ser cancelado na cidade, por conta da pandemia e festival de jazz pode voltar em 2023, de forma controlada

JAMILDO MELO
JAMILDO MELO
Publicado em 12/12/2021 às 12:15
Gravatá
O 'padre comunista' que toca a gestão voltada para os mais humildes em Gravatá - FOTO: Gravatá
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O prefeito de Gravata Joselito (PSB) conta que aproveitou os sete dias que ficou internado em uma UTI no hospital municipal, com covid, em julho passado, para fazer um retiro espiritual.

"Li muito e aproveitei para aprofundar uma reflexão que vinha desde a campanha eleitoral. A ideia central foi esta: "Na dúvida, fique com os pobres". Cristalizei a diretriz de que a gestão deve vir da periferia para o centro e que não podemos nos esquecer disto. É lá que estão os ninguéns, os esquecidos, os invisíveis. Na campanha, as pessoas me diziam que Gravatá só cuidava dos lugares onde os turistas passam", afirmou, em uma conversa informal com o blog na sexta-feira passada.

"Nós precisamos estar lá, na periferia. A mão da gestão precisa alcançar essas pessoas que nunca foram prioridade. O retiro me ajudou a fazer uma retrospectiva da campanha e focar nos novos rumos que estamos dando. Jamais poderemos nos esquecer desta escolha", diz o gestor, que confessa rezar todas as manhãs, antes de sair de casa, em busca de "robustez espiritual" para enfrentar o dia.

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A secretária de ação social e juventude, Viviane Facundes - Redes sociais

Casamento com uma cantora de forró

Personagem insólito se comparado ao político tradicional, Joselito não apenas abandonou a batina para se casar, mas escolheu como companheira uma ex-vocalista da banda Capim com Mel, Viviane Facundes. Na próxima semana, em Gravatá, a primeira dama promoverá um forro das antigas, onde não apenas vai cantar, mas será acompanhada pelo prefeito.

"Há muito preconceito na política. Na campanha sofremos uma desqualificação atroz. Como ele não havia exercido cargo público, a oposição não tinha o que falar do meu marido. Ai diziam que ele traiu a igreja ao se casar, mas ele não era casado com a igreja, era um direito dele renunciar ao sacerdócio. O engraçado é que muita gente destrói famílias e não parece haver problemas para alguns. Nós, ao contrário, constituímos uma família. Não tomei o marido de ninguém e a família é um dom de Deus", afirma a primeira dama.

Desta união improvável, nasceram três filhos, de quatro, seis e 11 anos, duas meninas e um menino.

A esposa cuida estrategicamente da pasta de assistência social, que lhe dá uma ligação permanente com as comunidades mais carentes. "Não tem assistencialismo, direcionamos todos os recursos para o CRAS. Estamos aqui para fazer justiça social", diz o prefeito.

Pedófilo e tarado

Joselito conta que entrou na política por conta dos pobres.

A carreira foi meteórica. Em janeiro de 2020, Joselito assumiu um cargo no conselho tutelar da cidade, eleito pela população. No dia 15 de novembro, estava eleito prefeito. "Na campanha, eu era chamado de pedófilo e de tarado. Jamais liguei, fazia ouvidos moucos, sabia que era apenas uma tentativa de desconstruir minha imagem pública, coisa típica do mundo da política".

"Não havia planejado nada. Fui surpreendido pela população, ao tentar no final de 2019 uma vaga no conselho tutelar. eles me diziam, Gravatá precisa do senhor. Estamos cansados dos políticos. O senhor não vai esquecer de nós e vai cuidar", conta. "No dia a dia, percebo que não há apenas carência material, mas também carência afetiva".

Joselito foi pároco único da cidade por 14 anos, antes de ingressar na nova vida. Antes, havia exercido o sacerdócio quatro anos em Santa Cruz do Capibaribe e outros 11 anos em Caruaru.

Gravatá
Com menos de 400 mil, primeira UPA sai do papel - Gravatá

Primeira UPA e leitos de UTI da cidade

Em função da pandemia do coronavírus, não foi possível investir tanto em educação como o prefeito diz que gostaria, porque as escolas estiveram fechadas. Neste vácuo, a outra grande prioridade foi a saúde.

O prefeito conta que Gravatá nunca teve UTI no hospital municipal e agora conta com dez leitos, que espera dobrar até o fim da gestão. Com a ampliação, será inaugurada agora no dia 21 de dezembro a primeira UPA da cidade, deslocando os atendimentos de emergência para o local, estrategicamente posicionado ao lado do bairro mais populoso da cidade, o Bairro Novo. "O lema é este cuidar e não esquecer, seja quem está no centro ou na periferia".

Com 700 metros quadrados, quatro médicos e a expectativa de atender de 200 a 250 pessoas por dia, a UPA era um projeto inconcluso e abandonado. A primeira ordem de serviço havia sido dada em 2012 pelo então prefeito Ozano, que hoje é secretário de governo do ex-padre. Com menos de 400 mil, o novo gestor se gaba de ter tirado a obra do papel, em pouco mais de um ano no cargo. "Era uma cabeça de burro enterrada ali. A oposição não acreditava e desdenhava. Eles diziam que era história para boi dormir e hoje está aí"

"Hoje, a população chega nos postos de sáude, com consulta com hora marcada, e tem até dentista. Era uma grande queixa da população. Temos filas de dentistas querendo vir trabalhar na cidade", cita o secretário de Saúde, conhecido como doutor Edson. "Abrimos a primeira clínica da mulher e temos muito a fazer".

O orçamento da pasta foi elevado de R$ 15 milhões para R$ 17 milhões.

"Curiosamente, na eleição, quase como um bordão, o grito de guerra da militância era o povo quer o liso", relembra o eleito.

Joselito conta que a primeira orientação foi para colocar os salários do funcionalismo em dia, pagos dentro do mês corrente. "O município estava na base da gambiara. Hoje, pagamos tudo dentro do mês e a saúde teve o orçamento reforçado"

Na semana passada, o padre inaugurou um refeitório para os garis que trabalham no aterro sanitário da prefeitura. Eles faziam suas refeições ao relento, embaixo de umas árvores. "São ações pequenas como estas que nos mostram qual deve ser nosso foco, sempre cuidar dos esquecidos", prega.

Costumes e encontro com Bolsonaro

Em março deste ano, em busca de ajuda para o turismo local, o ex-padre chegou a se encontrar com o presidente Bolsonaro, sem agenda marcada, levado para um encontro no aeroporto de Brasília pelo ministro do Turismo, Gilson Machado Neto. Ao que parece, não rolou a química ideal.

"Ele me avistou e disse que Gilson Machado havia falado de mim no avião. Me pediu que tirasse a máscara e brincou. Que história é esta de padre casado? Eu respondi que quem pensa, não casa. E quem casa, não pensa. Ainda bem que ficou só nisto, não falamos de política, pois ele iria me chamar de padre comunista", diverte-se hoje o ex-pároco, mesmo sem um tostão do governo Federal para um dos carros-chefes da economia local.

Ao que parece, foi bom mesmo para ambos não tocar em temas políticos.

Joselito é contrário ao armamento da população, mistura de religião com política e critica a polarização que se estabeleceu no Brasil.

"Eu penso que quanto mais próximo do altar, pode-se estar mais longe de Deus. Deus nunca ligou para as unhas de uma mulher ou o corte de cabelo de ninguém. O problema é que esta polarização promovida na política chegou até na igreja. Vejam os grupos religiosos da Igreja Católica que se insurgem contra o Papa Francisco. São grupos resistentes que querem refluir os avanços da sociedade. Isto pode ser muito perigoso. Vem hoje o moralismo novamente dizer que só a família tradicional que agrada a Deus, mas temos várias jeitos de viver em família hoje em dia. Chega a ser demoníaco afirmar que o homossexual tem que se converter", afirma o gestor, que tem gays assumidos como secretários.

"Afirmar que o cidadão armado jamais será escravizado é péssimo, é um retrocesso. O governo deveria era estar combatendo por terra, água e ar a entrada destas armas no Brasil. Quem facilita isto? O caminho deveria ser a educação, mais salas de aula, mais música, mais teatro. ocupar os jovens. Temos que educar as pessoas para pluralidade, para o diálogo, os novos tempos. A pandemia nos ensinou o que é mais importante, eu cuido de você e você cuida de mim", prega.

No almoço, o religioso toma até uma cervejinha, sem constrangimento algum. Diante do cena inusitada para os interlocutores, reage com bom humor. "Eu tomo até solução de bateria", brinca. Também é um torcedor inveterado do Santa cruz, que amarga um purgatório sem fim na série D do brasileiro de futebol.

Projeto de reeleição e mulher na política

O prefeito Joselito revela algum ressentimento quando fala do partido, ao rememorar a campanha que disputou. "O PSB ficou mais no Recife, né? Só olhou para João (Campos, prefeito do Recife) Tive o pé no chão da rua e a ajuda de Waldemar Borges (deputado estadual majoritário na cidade), mas o governo do Estado está correspondendo, na medida do possível", afirma.

O padre diz não pensar em reeleição, mas não descarta a possibilidade.

"Vamos trabalhar duro e sério e a autoridade competente para dizer se a gente fica mais tempo na gestão é a população. Se falharmos no teste... se trabalharmos bem, seremos reconhecidos", diz.

"Entramos na política juntos e estaremos sempre juntos", completa a primeira dama. Pela forma incisiva como responde ao questionamento, a mulher do padre não esconde as pretensões de se criar uma continuidade perene na bela cidade do agreste pernambucano.

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