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Caso Beatriz: Suspeito tinha preferência por vítimas mulheres e ameaçava atirar nelas

Indiciado já usou nome falso e 'simulacro' de arma de fogo em roubos

Jamildo Melo
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Jamildo Melo
Publicado em 13/01/2022 às 13:01 | Atualizado em 19/01/2022 às 10:22
BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Coletiva da Polícia Civil para anunciar a prisão do suspeito do caso da menina Beatriz morta a seis anos em Petrolina. Na foto Humberto Freire, Secretário de Defesa Social de Pernambuco. - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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A Secretaria de Defesa Social (SDS), em entrevista coletiva nesta quarta-feira (12), confirmou a identidade de um preso como o indiciado pelo assassinato da menina Beatriz, no ano de 2015, em Petrolina. O Blog de Jamildo tinha adiantado, em primeira mão, que a Polícia Civil tinha conseguido identificar o suposto agressor.

Agora, o Blog teve acesso exclusivo a outros documentos do inquérito, que a Secretaria e a Polícia tem mantido em sigilo. Os novos documentos revelam fatos da vida pregressa do suspeito. O indiciado tem um longo histórico de crimes.

"Não foi falha da Justiça, quando ele cometeu o crime de Beatriz ele já estava solto desde 2012, depois de ter cumprido toda a pena do primeiro crime", aponta um advogado local.

ROUBOS EM TRINDADE

Segundo documentos do inquérito, o indiciado foi preso em flagrante, em julho de 2016, após uma série de roubos em Trindade, no sertão de Pernambuco.

Na ocasião, nos dois roubos, segundo o inquérito, o supeito preferiu mulheres como vítimas. O indiciado, usando um falso revólver, ameaçava atirar nas vítimas, segundo o inquérito.

"No dia 30 de julho de 2016, no período noturno, na entrada da cidade de Trindade/PE, o denunciado, fazendo uso de um simulacro de revólver, subtraiu 02 celulares pertencentes a vitima não identificadas. Na data, horário e local acima listado o denunciado, fazendo uso de um simulacro de arma de fogo, assaltou um ônibus da viação progresso, oportunidade em que subtraiu 02 aparelhos celulares, quais sejam: um de cor branca e um LG DUAL CHIP, de cor preta. O aparelho celular branco foi vendido por R$ 65,00 (sessenta e cinco reais) na festa EXPO GESSO que acontecia no dia dos fatos nesta comarca; por sua vez, o aparelho preto foi apreendido em poder do denunciado quando de sua prisão em flagrante. Não bastasse, por volta de 05h00min do dia 31/07/2016, o denunciado abordou ELISANGELA PEREIRA CAVALCANTE na oportunidade em que ela voltava a pé para a sua residência da festa que acontecia na cidade. Na ocasião, o denunciado mostrou o simulacro de arma de fogo para ELISANGELA e disse que se ela gritasse ele atiraria. Por sua vez, ELISANGELA disse que ele poderia atirar e saiu andando, tendo o denunciado ido embora sem anunciar o assalto. Um pouco mais a frente, na Rua Alegria, Vila Saraiva, Trindade/PE, o denunciado abordou MARIA DO SOCORRO SILVA RODRIGUES no momento em que ela saia de casa e ia subir em sua motocicleta para ir para o trabalho. Diversamente da postura adotada em relação a ELISANGELA, o denunciado anunciou o assalto para MARIA DO SOCORRO, momento em que tendo apontado o simulacro de arma de fogo para o abdômen dela pediu que ela passasse a chave da moto, afirmando que queria o veiculo. Durante a abordagem da vitima MARIA DO SOCORRO um veiculo se aproximou do denunciado e dela, tendo algumas pessoas descido do automóvel e detido o acusado, impedindo que ele consumasse seu intento criminoso. A policia militar foi acionada e chegou ao local dos fatos instantes depois, tendo conduzido o denunciado para Delegacia de Policia", informa o inquérito.

Nas datas dos roubos em 2016, estava ocorrendo a festa da Expo Gesso em Trindade.

USO DE NOME FALSO

Como o indiciado já era reincidente em 2016, segundo o inquérito, ao ser preso em flagrante por roubo de celulares e ameaçar atirar em mulheres, o suspeito se apresentou com nome falso na Delegacia de Polícia. Segundo o inquérito, em julho de 2016, ele usou no nome falso de José Ivan Silva. Segundo o inquérito, apenas dias depois dele preso na Delegacia, a Polícia descobriu o verdadeiro nome de Marcelo.

"O acusado, com o intuito de ocultar ser reincidente se apresentou como sendo JOSE IVAN SILVA, somente revelando sua verdadeira identidade no dia 02 de agosto de 2016", informa o inquérito.

José Ivan Silva é irmão.

"O réu se identificou como JOSÈ IVAN DA SILVA, nome do seu irmão. Essa atribuição de falsa identidade ocorreu para a autoridade policial não constatar a sua reincidência, ou seja, obter proveito próprio", informou depois, no processo, o juiz de Trindade.

JUIZ CONSIDEROU SUSPEITO de ALTA PERICULOSIDADE

Ao condenar o presidiáiro por roubos, em fevereiro de 2017, o juiz de Trindade, Thiago Meirelles considerou o investigado de alta periculosidade.

"A vítima Elisangela informou que o réu lhe apontou um simulacro de arma e disse que se ela gritasse, atiraria. Mesmo que a vítima tenha relatado não saber qual era a intenção do agente, ele confirmou que a ameaça era para assaltá-la. Além do mais, da análise das provas, percebe-se que o comportamento do réu, no dia dos fatos, era integralmente direcionado à prática de roubos. Desse modo, presentes a grave ameaça e o dolo", disse o juiz, na sentença.

CUMPRIMENTO DE PENA

Além das penas pelos roubos em 2016, suspeito também cumpre pena por estupro de vulnerável.

Segundo o inquérito, a pena total que o indiciado está cumprindo por outros crimes é de "20 (vinte) anos, 02 (dois) meses e 07 dias de reclusão".

O tempo poderá aumentar até 30 anos, caso ele também seja condenado no caso de Beatriz.

No entanto, nenhuma pena pode passar de 30 anos no Brasil. Segundo advogados, então, mesmo que ele seja condenado pelo caso de Beatriz, as penas seriam consolidadas no máximo de 30 anos.

Segundo o inquérito, já havia uma previsão para ganhar a liberdade pelos crimes que ele já foi condenado. Ele sairia da cadeia em fevereiro de 2028.

"Data provável para progressão ao regime semiaberto: 1/6 de 02a04m04d + 3/5 de 16a09m07d – 05.02.2028", informa o inquérito.

Com o caso Beatriz, esta data deve mudar.

ENTRE E SAI DA CADEIA DESDE 2008

A ficha policial, disponível no inquérito, revela que o indiciado entra e sai da cadeia desde 2008, com várias prisões em flagrante.

A primeira prisão em flagrante  foi em 7 de março de 2008.

Conseguiu o regime semiaberto já em 7 de novembro de 2008.

Após o livramento condicional, ele conseguiu cumprir totalmente a pena pelo primeiro crime em 8 de agosto de 2012.

O suspeito ficou seis anos fora do radar da Justiça, quando foi preso em flagrante em 31 de julho de 2016, pelos roubos acima reportados.

Em 8 de maio de 2017, o suspeito conseguiu da Justiça o benefício de regime semiaberto, com prisão domiciliar, na prática foi solto em liberdade total.

Aproveitando desta liberdade, em 25 de agosto de 2017, o suspeito cometeu, segundo a Justiça, um crime de estupro de vulnerável em Trindade.

Como liberados em regime semiaberto não podem cometer crimes, a Justiça devolveu o homem ao regime fechado pelos roubos, além de manter uma prisão em flagrante pelo estupro.

 

Reprodução/Blogimagem
Família tem ido às redes sociais criticar investigação da polícia. SDS disse que nada maculava trabalho policial - Reprodução/Blogimagem

Diário Oficial publica foto de secretário de Defesa Social apertando mão da mãe de Beatriz

Apesar das duras críticas da mãe da menina Beatriz sobre a condução da investigação, o Governo do Estado preferiu destacar uma foto da mãe apertando a mão do secretário Humberto Freire, em destaque na primeira página do Diário Oficial do Estado, nesta quinta-feira (13).

No Diário Oficial, a matéria não fez nenhuma menção às reclamações da família de Beatriz.

A família continua defendendo a federalização do caso e disse que irá denunciar alguns servidores que atuaram no inquérito à Corregedoria da Secretaria.

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Coletiva da Polícia Civil para anunciar a prisão do suspeito do caso da menina Beatriz morta a seis anos em Petrolina. Na foto Humberto Freire, Secretário de Defesa Social de Pernambuco. - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

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