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Morre jovem cuja família alega ter sido preso injustamente

31 / jan
Publicado por Felipe Vieira às 16:08

ligiane1

“Tem um pessoal aqui querendo fazer uma denúncia. É coisa de presídio, então é contigo, né?”

Foi uma ligação da portaria do jornal, como tantas outras que nós recebemos. Quem é do ramo sabe: às vezes são boas pautas, outras, nem tanto. Mas é obrigação do repórter ir lá, bloquinho e caneta às mãos, para ouvir a história. Só assim se descobre.
Desci as escadas e encontrei duas mulheres, uma idosa e outra de meia idade: Dona Lígia e sua filha, Ligiane (a da foto acima). A primeira pegou na minha mão e me disse algo como (não lembro as palavras exatas): “Por favor, meu filho, me ajude. Meu neto está preso por um crime que ele não cometeu, e a gente não sabe mais a quem recorrer”.
A história de Luan Castro Torres é um filme que tinha tudo para ser feliz, mas que do meio para frente, dá uma guinada na direção do pior.
 luan
Em 2014, aos 23 anos, ele foi preso por um assalto cometido pelo irmão mais novo, Lincom, 19, junto a outros jovens do Ibura, Zona Sul do Recife. A semelhança física entre os dois motivou uma confusão no dia da prisão. A vítima do roubo reconheceu Luan baseada numa foto em que ele tinha 15 anos, ou seja, era ainda mais parecido com Lincom.
Os dois foram detidos, tiveram prisão preventiva decretada e foram encaminhados ao Complexo Prisional do Curado, no bairro do Sancho, Zona Oeste. Na primeira audiência na Justiça sobre o roubo, Lincom admitiu o assalto, junto com outros três comparsas, e todos testemunharam pela inocência de Luan. Mas ele não conseguia a audiência em que poderia, ao menos, alegar que não era culpado.
Aí você pergunta: “Mas que prova você tinha de que ele era inocente?”. Prova mesmo, material? Zero. O que eu tinha eram os testemunhos da família e de um bairro inteiro, nos quais sempre vinha à tona o esforço do rapaz para vencer honestamente na vida. Ele trabalhava numa loja de peças automotivas. Com muita dificuldade, parentes se juntaram e pagaram pelo curso de soldador naval que ele fazia, pois vislumbrava oportunidades no Porto de Suape. Some-se a isso a confissão do próprio irmão e dos comparsas. Ou Luan era inocente ou havia um plano diabólico de dezenas de pessoas para encobrir-lhe a culpa pelo roubo de um celular. Não precisa dizer que hipótese faz sentido.
Na matéria, publicada na edição do JC do dia 13 de dezembro de 2015, Ligiane Castro, tia de Luan, explica que a família tinha dificuldades em ajudar (com dinheiro e comida) os dois irmãos dentro do presídio. E que optaram por fazê-lo apenas por Luan, com o consentimento de Lincom.
SAÍDA
Luan passou pouco mais de dois anos dentro da prisão, de onde saiu no último dia 15 de dezembro de 2016, com as marcas indefectíveis de uma depressão adquirida no cárcere. Vivia quieto pelos cantos. Dizia que a vida dele tinha acabado por causa de um “erro dos outros”.
“A gente tem medo que essa depressão possa resultar em algo mais grave”.
O medo da tia se concretizou. Ontem, às 16h, enquanto estava na casa de uma irmã, também no Ibura, Luan sofreu um infarto e faleceu, aos 26 anos. Ficou para trás o sonho de ser soldador naval em Suape, e uma família perplexa.
Os familiares Luan estão decididos a processar o Estado. Para a tia, “foi quem o condenou e o matou”.


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