01
out

Bolsonaro era uma Hashtag, virou um candidato e agora pode desmoralizar todo um sistema eleitoral 

01 / out
Publicado por Fernando Castilho às 9:42

Independentemente do número de votos que venha a obter nas eleições do próximo domingo, Jair Bolsonaro é, definitivamente, um elemento novo na política brasileira. Para o bem e para o mal.

Se for para o segundo turno, como indicam as pesquisas, Bolsonaro terá derrotado todos os velhos conceitos de estruturação de campanhas onde o modelo de pirâmide tendia a colocar no topo quem tivesse mais apoio na eleição casada, onde do vereador ao governador tinha mais chance de disputar a presidência quem arregimentasse mais gente do piso ao teto eleitoral.

Funciona assim: Nas eleições para prefeito, dois anos antes, os deputados federais montam com prefeitos e vereadores e os possíveis candidatos a estadual seus esquemas nas chamadas dobradinhas.

Assim, do vereador ao próprio deputado todos cuidam da eleição do federal. Governador e Senador se juntam na eleição. E quanto mais federais pedindo votos para eles, mais um candidato teria mais chances de virar senador ou governador. Naturalmente, dependendo da sua própria campanha. Foi assim até 2014 quando essa estrutura nos estados levou Dilma Rousseff e Aécio ao segundo turno, liquidificando Marina Silva e os demais. Foi assim com PSDB e PT se revezando do poder.

Jair Bolsonaro parece estar jogando tudo isso fora. Não tem nenhum candidato a governador com chances de vitória apoiando-lhe publicamente. O número de candidatos a senador cabe numa mão e pedindo votos para ele não estão, sequer, 20 candidatos a federal e 50 estaduais. Então, porque Bolsonaro lidera as pesquisas?

Pode-se dizer que é o sentimento anti-PT. Ou a ameaça de, da prisão, Lula poder voltar ao governo despachando com Fernando Haddad todas as terças-feiras. Mas, será isso mesmo?

Terá Bolsonaro galvanizado essa ira de uma grande parte da sociedade brasileira com a desvalorização de valores conservadores? Captado a revolta do cidadão com o descuido irresponsável dos governos estaduais e federal com a violência chegando na porta da classe média que, assustada, passou a defender a estratégia CCB (carro-colete-bala) sugerida pelas policias estaduais? Pode ser.

O problema é que até agora não se sabe como ele pretende cuidar de um país como o Brasil. Pelo que falou não se pode sequer formatar um modelo mais consistente a despeito de saber que um grupo de generais da reserva já escreve textos e alguns economistas escrevem sugestões ao ministro já nomeado Paulo Guedes.

Mas, não é nisso que seus apoiadores pensam. Não estão interessados no debate. Apenas em esbravejar contra o PT. E a perspectiva de uma volta de Lula e José Dirceu. E é aí que entra o fator internet.

Em primeiro lugar, é preciso não achar que o sucesso nas redes sociais é espontâneo. Não é. Virou coisa de hacker profissional. Bolsonaro pode não ter, sequer, produtora de vídeo, mas em vários estados estruturas de apoio às redes sociais trabalham ativamente a ponto de estudos da FGV apontarem serem capazes de impulsionar postagens em até 18%. Reagindo profissionalmente às críticas de adversários.

De certa forma, a reação da esquerda brasileira é aquela refletida na imagem clássica do quadro “O Grito” do pintor naturalista Edvard Munch (1863-1944) que abriu caminho ao Expressionismo.

Essa nova base digital é suficiente para, no dia da eleição, levá-lo ao segundo turno? Saberemos na noite de domingo.

Se o discurso anti-PT; o discurso com que o Bolsonaro faz há dois anos; a recusa de deputados caciques no Congresso de o apoiarem publicamente; a deterioração de valores morais exposta por políticos na Lava-Jato sem que acusados tenham desistido de tentar se reeleger e até invertido a lógica do financiamento público de campanha concentrando as verbas, essencialmente, nos acusados pelos promotores de Curitiba funcionar,  então, Bolsonaro terá mudado toda lógica das eleições no Brasil.

Terá, de início, derrotado, inclusive, as estruturas do PT que há 16 anos se beneficia disso com extrema competência a ponto de fazer Fernando Haddad ter uma vaga assegurada no segundo turno.

E terá conseguido isso não apenas com as mídias sociais, mas com o aproveitamento digital do sentimento de desgoverno que a classe política vem passando ao cidadão há anos. E mostrado a nossa fragilidade democrática. Tão grande que um candidato sem partido, sem dinheiro, sem apoio das máquinas partidárias nos estados pode vencer uma eleição num país de mais de 100 milhões de eleitores que está entre as 10 maiores economias do mundo.

E, sendo assim, teremos que rever tudo em termos de eleições. Mas, agora sob o risco que muita gente acha que coisas como Congresso, Constituição, Garantias Individuais e Imprensa Livre possam ser relativizadas.

E, talvez, aí já seja tarde. Inclusive para o PT.


Veja também