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jul

Os amantes da escalada em Pernambuco

08 / jul
Publicado por Leonardo Vasconcelos às 8:18

escalada

 

Cinco e meia da manhã de um domingo. O sol mal apareceu no horizonte e os primeiros raios já iluminam os para-brisas de dois carros que estão saindo do Recife rumo ao interior de Pernambuco. Dentro dos veículos que cortam a BR-232, a alvorada dá um tom alaranjado aos semblantes de seis pessoas (ainda mais radiantes) que madrugaram para fazer um programa diferente. Duas centenas de quilômetros adiante, os carros param e os vidros agora emolduram a paisagem que mais parece uma pintura: as grandes rochas da entrada de Brejo da Madre de Deus, no Agreste do Estado. O visual por si só bem que poderia ter sido o motivo da viagem. Mas não. Não para essas pessoas que não se contentam somente em contemplar. Vieram de longe, querem ir mais alto. O objetivo é escalar.

 

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Passa das oito da manhã, quando as malas dos veículos são abertas e de dentro saem troços poucos vistos (e com estranheza) pelos moradores do pequeno município de pouco mais de 45 mil habitantes. Os equipamentos em questão são mosquetões, chapeletas, ascensores e cordas, muitas cordas. Desviando de cactos e cabras, o material é levado até a base da montanha. Depois de tudo montado, cada um calça a sapatilha para a “caminhada” em 90 graus. Chega a hora mais aguardada desde aquela da estrada: a de tocar a pedra, com respeito, para depois vencê-la. Assim começa mais uma aventura dos integrantes da Associação Pernambucana de Escalada em Rocha (Asper) rumo ao topo.

 

 

A entidade é de certa forma recente, com cerca de 10 anos, e serviu para reunir os amantes do esporte que é praticado desde a década de 90 no Estado. Em média três vezes por mês, eles se encontram para conquistar novas vias ou explorar as 262 já existentes espalhadas por 13 municípios pernambucanos (ver mapa na página ao lado). O principal polo de escalada atualmente é Brejo, que concentra mais da metade dessas subidas e não à toa virou a Meca dos escaladores do Nordeste.

“Falou em escalada em Pernambuco, falou em Brejo. É difícil encontrar um praticante local que ainda não tenha ido lá. A cidade é procurada tanto pelos iniciantes quanto pelos mais experientes devido à sua topografia, já que está situada em um vale arrodeado por pedras. O clima favorece o esporte o ano inteiro e você encontra uma grande concentração de rochas de todos os tamanhos e formatos. Lá tem acessos de 10 até 300 metros”, explicou Caui Vieira, presidente da Asper.

 

 

O grupo é tão variado como os tipos de rochas que sobem. Ele é composto por jovens de corpo e espírito de 20 a quase 50 anos, das mais diferentes profissões. Antes da escalada, por exemplo, você pode ter a opinião de um geólogo sobre a pedra, discutir com um físico a melhor rota, ao longo da subida bater papo com professora, relações públicas, técnico em eletrônica ou, de repente, ser clicado pela fotógrafa do Jornal do Commercio, Michele Souza, uma praticante que assina as belas imagens dessa reportagem.

Ela descobriu o esporte em julho de 2012, quando voltou de férias e queria algo para acabar com a monotonia. “Pesquisando na internet, fiquei sabendo da associação de escalada e me interessei. Fiz o curso preparatório em três finais de semana, comprei os equipamentos básicos e comecei a praticar com o grupo”, contou Michele, que acabou descobrindo uma forma de terapia. “Não é fácil. É uma superação porque você precisa desafiar seus limites. Você vai progredindo aos poucos na rocha e sempre quer mais, quer ir mais alto. É uma adrenalina que vicia”, explicou a fotógrafa, recordando que já foi até Mendonza, na Argentina, para saciar o vício de escalar.

 

 

O gosto por viajar está mesmo no sangue de quem escolhe colocar a vida pendurada em cordas nas alturas. Ele pulsa nas veias que parecem e pedem estradas. Vias de mão dupla de ação e emoção. “A viagem faz parte da essência do mundo da escalada. Você viaja para praticar e vai conhecendo os lugares. Depois que explorei Pernambuco, escalei na Bahia, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro”, enumerou Clóvis Chalegre, para depois citar que neste último destino teve uma das visões mais impressionantes da sua vida. “Admirar o Cristo Redentor escalando o morro do Corcovado é uma experiência única. Terminar o caminho aos pés da estátua é algo indescritível”, disse.

No entanto, muita gente de fora também vem escalar aqui. Fora de Pernambuco e até fora do Brasil. É o caso do colombiano Miguel Zorro que se mudou para cá em 2006 para concluir um mestrado e queria continuar praticando o esporte. “Comecei a escalar com 19 anos, hoje tenho 30 e não consigo parar. Quando conheci o grupo daqui foi ótimo porque voltei a ter contato com minha paixão desde a juventude. As rochas daqui são bem diferentes das da Colômbia, mas boas de escalar”, avaliou Miguel, que hoje já faz pós-doutorado e nem pensa em largar a escalada.

 

 

Mas se engana quem pensa que todo mundo que pratica é radical e corajoso. Hugo Guimarães Filho, um dos novatos do grupo, sempre teve muito medo de altura e usou o esporte justamente para superá-lo. “Era do tipo que, em prédio alto, nem chegava perto da janela se ela não tivesse batente. Mas venci isso escalando. Quando você finalmente chega lá em cima é uma satisfação. A vista maravilhosa é recompensadora e faz você esquecer do medo, de tudo”, disse Hugo. É assim, no topo, que a aventura acaba. Mas ela recomeça a cada domingo com os primeiros raios de sol voltando a iluminar os carros que cortam estradas na horizontal em busca de aventuras na vertical.

*Esta reportagem foi veiculada originalmente no dia 26/10/14 e reeditada para a data de hoje. 

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