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A emoção do rapel na Lagoa Azul

22 / jul
Publicado por Leonardo Vasconcelos às 7:44

rapel

 

O prazer em ter a vida por um fio, ou melhor, por uma corda. Literalmente. É ela – e alguns acessórios vitais – que garantem a sobrevivência de quem faz rapel. O que para muitos pode parecer loucura é justamente o que segura o praticante à atividade, que, realizada com bons profissionais, é um programa seguro e inesquecível. Um vício pela adrenalina de estar pendurado a vários metros de altura e ver, lá do alto, uma nova perspectiva do espaço – e mesmo do tempo. Convidativo? Bastante. Tanto que a reportagem do #blogmochileo aceitou passar pela experiência ao lado de amantes do rapel em uma descida de 50 metros na Lagoa Azul, em Jaboatão dos Guararapes, um dos vários pontos de prática da técnica espalhados por Pernambuco.

 

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O grupo se reuniu no local em uma manhã de sábado com a empresa de esportes de aventura Vértice, que há vários anos oferece a modalidade tanto para experientes como iniciantes. A paisagem da imensa lagoa de cor e beleza que justifica o nome é digna de contemplação. Mas eles querem ação. Enquanto as cordas e equipamentos são preparados, hora de saber quem são e o que trouxe de livre e espontânea vontade aquelas pessoas para a borda de um paredão de rocha do tamanho de um prédio de 17 andares. O perfil dos praticantes é difícil de traçar, já que é composto de ambos os sexos, idades variadas, ocupações diversas. Em comum mesmo uma motivação: sair da rotina.

 

 

Olhando tranquilo para o cenário que iria desafiar, o engenheiro Nilson Nere, de 33 anos, contou que começou a praticar rapel em sua terra natal, Sergipe. “Fiz a primeira vez lá e gostei bastante. Então, quando vim morar no Recife procurei na internet sobre grupos de rapel locais para continuar praticando. Me animei tanto que fiz até um curso para aprender mais sobre as técnicas e equipamentos. Hoje em dia eu pratico, em média, uma vez ao mês. É uma forma de ter adrenalina e ainda ficar em contato com a natureza”, explicou Nilson, que terminou a descida, como sempre, com um largo sorriso no rosto.

 

 

Lá embaixo, calmamente esperando a sua vez, estava a professora Luciana Melo, 34, que começou a praticar por orientação médica e em uma data especial. Como estava sofrendo de depressão, foi aconselhada a fazer algum esporte. No dia do seu aniversário, 23 de novembro, em 2014, recebeu de presente de um amigo um passeio com rapel. “Nunca tinha tido contato com essas coisas radicais, nem pensado em fazer rapel um dia. Na hora fiquei nervosa, tremi muito, mas descobri que é uma forma de terapia maravilhosa. Foi um presente mesmo em minha vida. Depois desse dia, já fiz outras seis vezes. E toda vez volto alegre, muito mais leve”, afirmou Luciana.

O rapel se tornou tão especial na vida de Luciana que, no dia da reportagem, trouxe a pessoa mais especial na sua vida para conhecê-lo. Lá estava o pequeno filho Fábio Eduardo, então com 6 anos, com olhos curiosos para as pessoas que desciam nas cordas. “Eu o trouxe para ele ver de perto o que só via a mãe fazer em fotos. A minha intenção também era de que ele praticasse para tentar conseguir perder o medo de água e altura. Para a minha alegria, ele ficou bem solto, adorou, e ficou com vontade de descer também”, contou a professora, que já planeja em repetir a história do presentear. “Em setembro é o aniversário dele e penso em dar um rapel como presente. Como eu sei que é seguro deixaria ele descer sem problemas”, disse, antecipando para a reportagem o que seria “surpresa” para o garoto.

Surpresa mesmo é ver a reação das pessoas nas suas primeiras descidas. Cada uma lida de uma forma diferente com o novo. Para a universitária Gabriela Ribeiro, 26, a técnica não mete medo. Ao contrário, atrai. “Eu gosto de me desafiar, então tudo que é experiência nova eu me atrevo a fazer. Fiquei um pouco tensa assim no começo lá em cima, mas depois foi tranquilo”, relatou Gabriela, já listando as próximas novidades em vista. “Depois vou querer experimentar bunge-jumping, para-quedas e mergulho”. Para quem desceu corajosamente um paredão, o tamanho dos obstáculos seguintes não será problema.

 

 

E a emoção é pura entre o ar e o paredão

Chegou a famosa hora da verdade (ou da mentira, no meu caso). “E aí, tá pronto?”, perguntou o condutor Miguel Angelo da Silva quando estávamos ainda de pé, exatamente na ponta do paredão, já devidamente equipados, no momento da foto abaixo. “Sim, claro!”, respondi, com convicção. Eis a mentira. Por mais que se confie nos equipamentos e profissionais, é difícil se sentir totalmente pronto para se lançar de uma altura de 50 metros, tendo como único apoio uma corda. Apesar de já ter feito rapel outras três vezes, todas em reportagens, é impossível não hesitar um pouco.

Com os pés apoiados bem na borda, de costas para o vazio, lentamente você vai soltando a corda e inclinando o corpo até que que fique em um ângulo de 90 graus em relação à rocha. Vendo a minha tensão e para explicar a importância desse momento, o condutor comentou: “Relaxe, esta é a hora naturalmente mais tensa mesmo. É quando você vai projetar seu corpo para trás e aprender a confiar nos equipamentos. A maioria das pessoas que desistem é neste momento”. Eu não seria uma delas.

 

 

Ao se ver na horizontal, vale o velho conselho de não olhar para baixo. Sábia recomendação. Por curiosidade, virei o rosto para ver o quão longe estava da água lá embaixo e comprovei que a comparação com a altura de um prédio de 17 andares não era à toa. Resultado: fiquei ainda mais tenso. Instintivamente, redobrei a força com que segurava a corda. Não havia necessidade. Ela tem capacidade para suportar mais de uma tonelada e, mesmo que soltasse as duas mãos dela, ainda assim estaria preso ao condutor com uma fita também resistente.

Decidi olhar e me concentrar unicamente na rocha à minha frente. A partir daí, o rapel começou de verdade para mim. Mais tranquilo, fui controlando melhor a passagem da corda pelo freio 8, equipamento de formato do numeral que proporciona atrito e assim reduz a velocidade da descida. O bouldrier, uma espécie de cinta presa as pernas e quadril, também chamada de cadeirinha, acabou ficando mais confortável. Confiante, me arrisquei a realizar algumas manobras como saltos maiores empurrando a rocha. Desci até um pouco de cabeça para baixo. A adrenalina que antes paralisava agora estimulava.

 

 

Justo no momento em que a brincadeira ficou divertida, quando dei por mim, já estava a poucos metros da antes tão distante água. “Quer terminar com emoção?”, perguntou Miguel. Agora sim, respondi afirmamente, com convicção. Paramos em uma pequena fenda no paredão e soltamos as cordas. Então, demos um grande mergulho na lagoa, que, para nossa sorte, além de azul, tem água quente.

* Esta reportagem foi publicada originalmente no dia 19/04/15 e reeditada para a data de hoje

 

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