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maio

É preciso fazer autocrítica no trânsito

20 / maio
Publicado por Roberta Soares às 17:15

Foto: Heudes Regis/Arquivo JC Imagem

Esta postagem do Blog MoveCidade quer tocar a alma dos motoristas. Das pessoas que conduzem automóveis, caminhões, ônibus e motocicletas na maior parte do tempo, mas que às vezes também são ciclistas e sempre, sempre são pedestres – porque todos nós estamos motoristas e/ou ciclistas, mas o que somos mesmo é pedestres. Quer mostrar que o trânsito não precisa ser esse ambiente de disputa e egoísmo que conhecemos. De opressores e oprimidos. Que o fato de estarmos protegidos (ou acharmos que estamos) por um monte de lata não nos dá o direito de intimidar o outro e, principalmente, o mais vulnerável como é o caso de pedestres e ciclistas. E a mudança precisa começar em cada um de nós. Precisamos ter paciência, flexibilidade, autocrítica, bom senso, equilíbrio, humildade e respeito pelo outro. Sempre. É preciso entender que ser motorista é uma situação transitória porque, ao estacionar o carro, todos viram pedestres.

O vídeo abaixo resume a transformação que alguns condutores sofrem quando estão ao volante. Confira!

Por tudo isso, ouvimos psicólogos do trânsito para justificar a necessidade de respeitar os outros, as diferenças individuais e a diversidade de opiniões. Afinal, estamos falando do trânsito, algo que envolve toda a sociedade e que mata, no mínimo, 34 mil pessoas por ano no Brasil e 1 milhão no mundo. E que são números considerados subnotificados por muitos, já que a estatística do setor é extremamente deficitária. Acredita-se que o número de mortos pelo trânsito seja superior. “A mudança de comportamento individual é fundamental para a redução de acidentes. Faz a diferença no todo. É preciso modificar o comportamento e olhar o trânsito de maneira mais solidária, com menos disputa. Ser mais gentil e respeitar os mais frágeis, sempre”, ensina Renan da Cunha Soares Júnior, ex-conselheiro do Conselho Regional de Psicologia do Mato Grosso do Sul (CRP-MS) e um dos criadores da publicação “Referências técnicas para atuação de psicólogos em políticas públicas de mobilidade humana e trânsito”, do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

É preciso, ao volante, olhar mais para si do que para o outro. Por isso a autocrítica e a humildade são tão importantes. “Todo motorista costuma se autoavaliar como um excelente condutor, enquanto avalia o outro como péssimo. Pesquisas comprovam essa percepção. E isso precisa mudar. Outra coisa comum que precisamos acabar é com a categorização da culpa. Achar que uma categoria é responsável pelos problemas do trânsito. Os motoristas de automóveis acham que são os motociclistas, que culpam os condutores de ônibus, que culpam os ciclistas e por aí vai. É preciso entender que há o bom motorista e o mau motorista, independente do veículo que ele conduz. Há o bom pedestre e o mau pedestre. Embora ele sempre tenha preferência no trânsito – o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) determina isso –, nem sempre ele tem razão. Mas todos precisam protegê-lo”, reforça o psicólogo.

 

 

A distância natural entre as pessoas que fazem o trânsito é outro fator que pesa e, por isso, é mais uma razão para ser exercido o respeito ao outro. “O desconhecimento do próximo – afinal você não conhece quem está no carro ao lado ou atravessando a rua na sua frente –, a individualidade de cada um e a sensação de isolamento que o carro proporciona contribuem para esse sentimento de disputa. O trânsito é um ambiente de passagem e, por isso, não há elo entre as pessoas. Devido à essa realidade é fundamental que a formação do motorista comece desde cedo. E, não, só quando ele já está adulto, como acontece no Brasil. Precisamos formar o bom pedestre para que ele seja um bom ciclista e, consequentemente, um bom motorista. Só assim teremos um trânsito mais humano”, destaca Renan da Cunha Soares Júnior.

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Essas são algumas lições para que possamos ter um trânsito mais seguro e mais gentil. Reflexões ainda mais significativas por estarmos no Maio Amarelo, um mês de alertas para a segurança viária. Afinal, estar ao volante é, talvez, o maior exercício de civilidade a que as pessoas são submetidas diariamente. Por tudo isso, precisamos refletir e mudar.

 

Os curiosos atrapalham o trânsito
Gentileza é fundamental
Não adianta esquentar a cabeça
Não precisa avançar no sinal
Dando seta pra mudar de pista
Ou pra entrar na transversal
Pisca alerta pra encostar na guia
Para-brisa para o temporal
Já buzinou, espere, não insista,
Desencoste o seu do meu metal
Devagar pra contemplar a vista
Menos peso do pé no pedal
Não se deve atropelar um cachorro
Nem qualquer outro animal
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Motoqueiro, caminhão, pedestre
Carro importado, carro nacional
Mas tem que dirigir direito
Para não congestionar o local
Tanto faz você chegar primeiro
O primeiro foi seu ancestral
É melhor você chegar inteiro
Com seu venoso e seu arterial
A cidade é tanto do mendigo
Quanto do policial
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Travesti, trabalhador, turista
Solitário, família, casal
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Sem ter medo de andar na rua
Porque a rua é o seu quintal
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Boa noite, tudo bem, bom dia,
Gentileza é fundamental
Pisca alerta pra encostar na guia
Com licença, obrigado, até logo, tchau.

(
Arnaldo Antunes e Lenine, Rua da Passagem)


VÍTIMAS DA INTOLERÂNCIA NO TRÂNSITO

As mortes prematuras e violentas do empresário pernambucano Leonardo Henrique Buarque Spinelli, 34 anos, e do taxista paraibano Paulo Damião dos Santos, 42, são razões mais do que fortes para reforçar a necessidade de autocontrole e paciência quando estamos ao volante. Os dois foram praticamente executados após discussões no trânsito. Leonardo ainda foi agredido diante da mulher, em 2017, na Estrada de Aldeia, em Camaragibe, no Grande Recife. E o acusado do crime, o comerciante Adalberto Ferreira da Silva, 67 – preso após ser divulgada recompensa –, foi quem provocou a colisão. Segue preso recorrendo da decisão de ser julgado no Tribunal do Júri por homicídio doloso (intencional).

A morte do taxista foi tão violenta quanto a do empresário. Aconteceu em fevereiro, no Bessa, em João Pessoa (PB). O acusado, o corretor de imóveis Gustavo Teixeira Correia, 42, estava bêbado e se irritou com a demora do taxista em finalizar uma manobra. Desceu do carro de app que o conduzia para casa e disparou três tiros contra Paulo Damião, que morreu na hora, ainda ao volante. Após o crime, o corretor se escondeu na residência até ser preso.


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