14
out

Ônibus pelo app tira passageiros do transporte individual

14 / out
Publicado por Roberta Soares às 19:19

App em operação há oito meses em Goiânia (GO) tem tirado passageiros dos aplicativos de transporte individual e dos carros. Foto: Samuel Santos/HP Transportes.

Apesar de já estarem rendendo polêmicas – veja o caso recente do UBus em São Paulo, que foi proibido de operar por não ter autorização da prefeitura da capital –, as iniciativas de modernização tecnológica do transporte coletivo por ônibus começam a dar sinais de que há, sim, demanda para o serviço. Dados parciais de uma pesquisa realizada por estudantes de mestrado da Universidade Nacional de Brasília (UNB) com o CityBus 2.0, o serviço coletivo sob demanda que opera em Goiânia (GO) e o primeiro criado e regulamentado pelo poder público no País, apontam que o passageiro está saindo do transporte individual. São 81% dos usuários do CityBus 2.0 que declararam ter deixado de utilizar aplicativos de transporte individual – como Uber e 99 – , carros e até motos para realizar viagens no app. Na verdade, a grande maioria (62%) trocou os aplicativos de transporte individual pelo coletivo. Na sequência, vêm os passageiros que declararam utilizar anteriormente os carros (18%). E uma pequena quantidade (1%), costumava fazer as viagens de motocicleta.

LEIA MAIS
MaaS como salvação do transporte público brasileiro

A pesquisa ainda está sendo finalizada e deverá ser amplamente divulgada em breve. Mas os resultados têm sido comemorados pelos operadores. Principalmente porque a radiografia do cliente do CityBus 2.0 confirma que ele não está tirando passageiros do sistema de ônibus convencional, um dos aspectos que alimenta a resistência de gestores públicos e até de operadores do setor. Ao contrário, o passageiro está saindo dos apps de transporte privado. Segundo o levantamento da UNB, apenas 15% das pessoas que estão usando o serviço de transporte coletivo sob demanda disse vir do ônibus – no caso de Goiânia não há metrô.

“Queríamos compreender melhor o comportamento de viagens da sociedade contemporânea em um serviço inédito no contexto da América Latina. O resultado do perfil dos usuários nos surpreendeu, pois, dado o caráter coletivo do Citybus 2.0, esperávamos que a maioria fosse também usuária do transporte público regular. Entretanto, os resultados mostraram que 80% dos usuários substituíram o automóvel ou transporte por aplicativos pelo serviço”, explica Mariana Araújo, que realiza a pesquisa junto com outros dois estudantes da disciplina Transporte e Sociedade, da UNB. Ou seja, o perfil do passageiro do CityBus 2.0 revela que há uma parcela da sociedade que quer, sim, utilizar o transporte coletivo de passageiros. Cada um tem suas razões – financeiras, sociais e sustentáveis –, mas para usá-lo querem um serviço de melhor qualidade e que agregue as tecnologias possíveis para a mobilidade urbana no mundo atual.

 

 

A pesquisa “Avaliação da Percepção de Qualidade do Transporte Público Coletivo Responsivo à Demanda CityBus 2.0 em Goiânia” identificou que os usuários, em sua maioria, fazem parte da população economicamente ativa da cidade e utilizam para se deslocar para ir ao trabalho, escola ou universidade. “Os resultados da pesquisa corroboram com as discussões que temos tido tanto em ambientes técnicos e acadêmicos, que serviços de mobilidade compartilhados, sob demanda e ao alcance dos nossos smartphones, são tendências de consumo das novas gerações. Entretanto, isso não indica uma substituição aos meios de transporte atuais, como ônibus, carro, moto e bicicleta, mas, sim, uma complementação para dar mais opções de viagens e destinos urbanos à sociedade”, reforça Mariana Araújo.

Além disso, o app só cresce. Em oito meses de operação, o serviço já registra mais de 50 mil pessoas cadastradas nas plataformas iOS e Android. O índice de viagens agregadas – com mais de um passageiro – já corresponde a 75% do total, o que reforça a proposta inicial do serviço de incentivar as pessoas a deixarem o carro e aderirem ao transporte coletivo nos 28 bairros atendidos pelo app. Os números da HP Transportes, operadora do CityBus 2.0 e do transporte público urbano de Goiânia, mostram que o serviço sob demanda tem agradado. Numa escala que vai até 5, o CityBus 2.0 tem sido avaliado em 4,9 desde o lançamento, sendo o motorista, o item mais bem avaliado.

CONHEÇA O CITYBUS 2.0

 

POLÊMICA COM OS APLICATIVOS JÁ COMEÇOU

Apesar de no discurso gestores e operadores defenderem a necessidade de o transporte coletivo por ônibus aderir de uma vez por todas à inovação para evitar ser massacrado pelos aplicativos de transporte individual, na prática a desconfiança ainda persiste. Um exemplo é a polêmica criada em São Paulo com o início da operação do novo serviço de ônibus sob demanda e por app lançado numa parceria entre a UBus, startup de tecnologia, e a Metra, operadora do Corredor ABD e sua extensão Diadema-Brooklin. O serviço não operou por duas semanas. A Prefeitura de São Paulo impediu a circulação da linha 376-SBC, criada para levar os passageiros do Terminal Metropolitano São Bernardo, em São Bernardo do Campo, até a Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, no Itaim Bibi, Zona Sul da cidade de São Paulo, com algumas paradas ao longo do percurso.

 

UBus foi classificado pela Prefeitura ded São Paulo como clandestino., embora empresa garanta ter autorização do Estado, responsável pela operação metropolitana. Foto: Pamela Carvalho

O argumento da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes de São Paulo (SMT) é de que o serviço não está autorizado para operar no município. Que essa autorização estava sendo analisada internamente, entre a gestão municipal e o governo do Estado – responsável pelo transporte metropolitano –, e que a Metra antecipou a operação. A concessionária, por sua vez, argumenta que recebeu anuência da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), órgão do governo do Estado e responsável pelas linhas intermunicipais, para começar a operar o serviço. Mas que, mesmo assim e sem uma comunicação prévia de mudança, teve alguns veículos apreendidos e autuados irregularmente sob alegação de que estavam prestando um serviço clandestino. Vale ressaltar que a Metra, proprietária dos ônibus disponibilizados para o serviço e concessionária da rota entre São Bernardo e São Paulo, e a UBus pertencem ao mesmo grupo, mas funcionam como empresas independentes.

A Prefeitura de São Paulo diz que, embora a operação da linha seja metropolitana, parte do corredor que liga São Bernardo, no ABC Paulista, à Zona Sul da capital paulista está dentro do município e, por isso, a autorização da operação precisa ser dada pela gestão municipal. E que, antes de concedê-la, é necessário fazer um estudo sobre os possíveis impactos no transporte público convencional. Dos 22,4 quilômetros do corredor Diadema–Brooklin, sete quilômetros estão nos limites da cidade de São Paulo. A Metra, mais uma vez, alega que o passageiro que está usando o UBus é o metropolitano que mora do ABC Paulista e, não, o paulistano. Ou seja, o serviço por app e sob demanda não está tirando usuários do transporte coletivo convencional. Além disso, o corredor é totalmente operado pela Metra, o que significa dizer que, havendo concorrência, ela acontecerá na própria empresa. E mais uma vez os números mostram que há uma parcela da população que quer utilizar um transporte público moderno: mesmo impedida de rodar, o serviço UBus/Metra já teve oito mil downloads e duas mil passagens vendidas.


Veja também