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Crítica: Quando Boal e o Latão fizeram panelaço

23 / jul
Publicado por Mateus Araújo às 19:55

"Os que Ficam" faz parte da celebração de 18 anos da Companhia do Latão. Foto: Divulgação
“Os que Ficam” faz parte da celebração de 18 anos da Companhia do Latão. Foto: Divulgação

Para Augusto Boal (1931-2009), posicionar-se politicamente era mais que necessário, e seu teatro sempre foi de posicionamento a favor do povo, dos esquecidos. Contraposto ao entretenimento vazio, o teatrólogo criador do Teatro do Oprimido fazia dos palcos uma arma poderosa de transformação e conscientização. Uma maneira decisiva de oposição política sempre à esquerda.

Na última sexta-feira (17), enquanto o presidente da Câmara, o polêmico e conservador deputado Eduardo Cunha, fazia seu pronunciamento em rede nacional de televisão, os atores da Companhia do Latão pegaram Boal, sanfona e zabumba e fizeram um panelaço às avessas, na mesma São Paulo cujo ato de bater panela virou algo tão barulhento e comum como sinônimo de oposição consevadora. A peça Os que Ficam, em cartaz neste mês de julho no Sesc Bom Retiro, é uma celebração à trajetória de 18 anos do grupo paulista e uma revisita necessária e oportuna à obra de Augusto Boal tendo em vista a atual situação político-ideológica brasileira.

 

 

O espetáculo tem direção de Sérgio de Carvalho e reúne em cena um elenco afinado estética e ideologicamente com aquilo dito e defendido por Boal. Além dos atores do próprio Latão, Érika Rocha, Helena Albergaria e Rogério Bandeira, Sérgio uniu também outro artistas, cariocas, Kiko do Valle, Lourinelson Vladmir, Nívea Magno e Virginia Maria – estes integrantes do experimento inicial da montagem, feito no Rio de Janeiro, no início do ano, durante uma ocupação no Centro Cultural Banco do Brasil, em homenagem a Boal. Aliás, merecem destaque as desenvolturas de Helena, cujo olhar tocante e convincente é o melhor exemplo da aproximação palco-plateia defendida por Bertolt Brecht; e a emotiva disponibilidade de Kiko do Valle, unindo canto e interpretação.

A favor desta cena política, os atores se apropriam com responsabilidade de uma interpretação épica, como a cartilha brechtiana. Os gestos dão conta de dizer o que a cenografia não fala – e nem precisava falar. No palco limpo, onde apenas cortinas e uma escada compõem a cena, os artistas levam o jogo de percepção, compreensão e interpretação, e, muitas vezes assistem uns aos outros, no teatro que se faz na hora, sem ilusão.

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A narrativa ergue-se em afetividade. Um grupo de teatro tenta reencenar Revolução na América do Sul, um dos sucessos do Teatro de Arena na década de 1960 – texto considerado obra-prima de Boal. Essa nova tentativa de reencenação é dez anos após a primeira montagem, agora com o autor exilado e o Brasil imerso na ditadura. A cena teatral, marcada pelas repressões militar, vive uma crise de identidade. O teatro esvaziou-se, muitos atores partiram – geográfica ou ideologicamente. Os que ficaram (eis aqui o título da peça), tentam, como podem, sobreviver, e, principalmente, fazer resistir ​a arte descompromissada com mercado.

Helena Albergaria interpreta uma atriz que se rende à televisão. Foto: Divulgação.
Helena Albergaria interpreta uma atriz que se rende à televisão. Foto: Divulgação.

Tão cara a Boal, a subjetividade que o autor usa para relacionar sua vida pessoal ao contexto político entremeia o roteiro da montagem. Estão no texto fragmentos de Revolução na América do Sul  – a história de um zé ninguém alienado por sua condição de vida – e de cartas e relatos enviados pelo encenador durante seu período exilado. Na temporada no Sesc Bom Retiro, a voz de Boal ganhou vida pela valiosa leitura do escritor e dramaturgo Lauro Cesar Muniz. Ali está o olhar de quem espera por tempos de luz se chocando com as torturas e os sequestros daqueles cuja liberdade eram tiradas e ficaram marcados para sempre (no início da peça, três atores do elenco relatam suas próprias memórias de dores da ditadura).

Lançando luz ​sobre questionamentos perpassantes de gerações, a montagem também pensa o teatro e o põe à prova numa encenação e em diálogos reflexivos sobre os próprios caminhos da arte. Como tão inerente às ideias do Latão (grupo empenhado na criação desta cena viv​a​ e engajada) contraposto ao ator autocentrado, mas alerta à necessidade de olhar o outro e compreendê-lo como linguagem e signo; a obstinação do fazer artístico comprometido em predominância com o discurso político e social.

Kiko do Valle une, com emotiva disponibilidade canto e interpretação. Foto: Divulgação.
Kiko do Valle une, com emotiva disponibilidade, canto e interpretação. Foto: Divulgação.

Os que Ficam é pertinente neste tempo de intolerâncias e efervescentes oposições políticas que o Brasil tem vivido. A figura e os pensamentos de Augusto Boal chamam-nos de maneira fundamental para o debate tão importante e tão cabível à sociedade atual e, evidentemente, ao teatro. É preciso dizer, gritar, refletir, compreender os papéis e questionar os rumos aos quais estamos dispostos. Desse modo, é salutar a decisão do Latão de rever e relembrar quem são e onde precisam estar os oprimidos e a maneira como estão (des)organizados (“a esquerda está dividida”, diz um dos atores). Afinal, o passado não é cadeia, mas chave e alerta para o presente e o futuro. “Teatro bom é teatro vivo”, diz Boal no seu texto. E teatro vivo é teatro que faz barulho, panelaço pelo povo.

 

Ficha técnica:
Dramaturgia e direção: Sérgio de Carvalho, com trechos incidentais da peça Revolução na América do Sul, de Augusto Boal
Com: Érika Rocha, Helena Albergaria, Rogério Bandeira, Bruno Marcos, Higor Campagnaro, Kiko do Valle, Lourinelson Vladmir, Nívea Magno e Virginia Maria
Participações especiais: Lauro César Muniz
Direção musical de Martin Eikmeier
Músicos da Companhia do Latão: Alessandro Ferreira, Cau Karan e Martin Eikmeier
Assistência de direção: Beatriz Bittencourt
Iluminação: Elisa Tandeta
Figurinos: Helena Albergaria, Lara Cunha e Victor Hugo
Operação de luz: Silviane Ticher
Cenotecnia: Waldeniro Paes
Assistência de produção: Olivia Tamie
Produção: João Pissarra


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