07
jan

Jorge Farjalla à frente da direção de ‘Jamais ou Calabar’, no Recife

07 / jan
Publicado por Márcio Bastos às 9:55

Nome proeminente do teatro contemporâneo, Jorge Farjalla é responsável por um dos melhores espetáculos de 2016: a adaptação de Dorotéia, clássico de Nelson Rodrigues, estrelada por Rosamaria Murtinho e Letícia Spiller. A obra é um excelente cartão de visitas para o universo do diretor: ousada, visceral, de forte apelo imagético e entrega total dos atores. Elogiado por ícones como Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, ele se prepara para um ano intenso, com projetos para os palcos, cinema e televisão.

Bobby Fabisak/Divulgação
Bobby Fabisak/Divulgação

Apesar do furor recente em torno de seu nome, Farjalla vem, há anos, construindo um repertório singular, marcado por sua visão intensa, dualista, niilista, apaixonada. Uma idiossincrasia cheia de contradições que são abraçadas com orgulho pelo diretor, que, em seus trabalhos, também trabalha diretamente na concepção de cenários e figurinos, fazendo questão de imprimir sua visão em tudo que diz respeito à obra.

“Dorotéia fez com que as pessoas olhassem para mim e marcou o coração do meu trabalho. Foi uma bênção trabalhar com Rosamaria, que é minha alma gêmea”, contou o diretor em entrevista ao JC durante sua passagem pelo Recife, esta semana, para participar de imersão com atores locais para a peça Jamais ou Calabar. Conhecido por suas montagens pungentes da obra de Nelson Rodrigues, a aproximação com o universo do pernambucano não foi imediata. Ele, ao contrário, queria evitar o dramaturgo, que parecia uma escolha óbvia demais para qualquer estudante de teatro.

LEIA MAIS

>> Crítica: ‘Dorotéia’ e os fantasmas que estigmatizam a mulher
“Odeio ser igual ao povo. Aí eu li o Álbum de Família e quase tive um filho de parto normal. Achei lindo, a mãe transar com o filho. Algumas pessoas acham estranho, mas, para mim, o amor e o sexo movem tudo. É tudo muito primal. Me viciei em Nelson”, reflete. A relação com Álbum de Família, inclusive, se eternizará nas telas. No segundo semestre, ele começa a filmar sua adaptação cinematográfica com Letícia Sabatella, Rosamaria Murtinho, Petrônio Gontijo, e o pernambucano Allan Souza Lima no elenco.

Rosamaria Murtinho  ovacionada por seu papel em 'Dorotéia'
Rosamaria Murtinho tem sido ovacionada por seu papel em ‘Dorotéia’. Foto: Carol Beiriz/Divulgação

Com a estreia da série Dois Irmãos, segunda, na Globo, na qual atuou como assistente de produção de arte, Farjalla acredita que iniciará um outro ciclo na carreira.  Para o futuro próximo, ele já tem vários projetos engatilhados: o lançamento do documentário O Cravo e A Rosa, homenagem aos 60 anos de carreira de Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça; a peça Hamletmaschine, de Heiner Muller, com Letícia Spiller no papel do Príncipe da Dinamarca; além da adaptação para o cinema de O Arquiteto e O Imperador da Assíria, do escritor Fernando Arrabal, com Wolf Maia.

NOVIDADES

Pouco depois de desembarcar no Recife pela primeira vez, em agosto do ano passado, para apresentar a peça Dorotéia, Jorge Farjalla diz ter sentido uma conexão imediata com a cidade. Era noite e não havia vislumbre da praia, prédios históricos ou do Capibaribe, símbolos da capital pernambucana.

“Pensei: achei uma cidade para ir embora do Rio. Não sei explicar bem a razão. Foi um feeling mesmo”, lembra. Assim como outros aspectos de sua vida, principalmente os criativos (muitas de suas ideias se desenvolvem a partir de sonhos), Farjalla acreditou na intuição e estreitou os laços com o Recife, onde dirigirá Jamais ou Calabar, texto inédito do carioca Doc Comparato, a convite da Art&Sonho. Ambientada durante a invasão holandesa a Pernambuco, para Farjalla, Jamais ou Calabar funciona como uma grande metáfora da sociedade brasileira, em seus aspectos mais fascinantes e cruéis.

“O poder impera neste texto. Onde ele te leva? Onde você chega com ele? O brasileiro tem isso: quem detém poder acha que está acima de todo mundo. Então, o texto acaba sendo um retrato do país de hoje. E olhe que Doc escreveu este texto nos anos 1980 sobre uma história que se passa em 1645”, reflete.

O protagonista, o senhor de engenho Domingos Fernandes Calabar, será interpretado por Allan Souza Lima. A figura histórica é controversa: sua associação com os holandeses marcou sua identidade como traidor. A temática toca particularmente Farjalla, que tem um desejo antigo de interpretar Judas Iscariotes. “No texto do Doc tem uma frase que diz ‘se Judas não tivesse traído’, onde estaria Jesus Cristo? O que seria de nós? Isto me pegou”, conta.

O elenco, que ainda está sendo fechado, tem ainda Petrônio Gontijo, André George Medeiros e Laís Vieira. Parte da equipe de Dorotéia também estará presente, como José Dias, na cenografia; trilha sonora de João Paulo Mendonça (filho da atriz Rosamaria Murtinho), e figurinos de Rogério França, que trabalhou em Velho Chico.

O grande desejo do diretor, agora, é conseguir encenar a peça ao ar livre. Mais especificamente em um lugar emblemático do Recife: o Cais José Estelita. O projeto, que marca os 40 anos de carreira de Comparato, deve estrear no segundo semestre, no Recife.


Veja também