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‘O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu’ e a cruz do preconceito

01 / jun
Publicado por Márcio Bastos às 19:09

E se Jesus voltasse hoje e fosse uma travesti? A partir desta indagação, a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu procura desconstruir o preconceito histórico que marginaliza travestis e transexuais e faz do Brasil o país que mais mata membros dessa comunidade. O solo interpretado por Renata Carvalho encerra a sexta edição do Trema! Festival, domingo (3), às 19h, no Teatro Apolo.

Escrito pela escocesa Jo Clifford e traduzido e dirigido por Natalia Mallo, o texto adapta passagens bíblicas para o contexto contemporâneo e evidencia problemas sociais. Ao destacar a identidade travesti como elemento chave da dramaturgia e da encenação, o trabalho convida o espectador a refletir sobre a discriminação e a invisibilidade dos grupos socialmente marginalizados e transformar o olhar através de mensagens de amor e perdão.

Renata Carvalho em ‘O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu’. Foto: Leonardo Pastor/Divulgação

“A criminalização da identidade travesti vem de muito tempo e foi corroborada pelo estado, pela mídia e pelas artes. Na cabeça de muita gente, Jesus é a imagem e semelhança de todos, menos de nós, travestis e pessoas trans, porque temos um corpo ‘inapropriado’. Por isso [O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu]causa tanto ódio em alguns, ainda que a mensagem dele seja de amor e perdão. Se Jesus voltasse hoje ele seria travesti, preta, gorda e periférica”, afirma Renata Carvalho, que é atriz e diretora há 20 anos.

O espetáculo, como ela ressaltou, assim como outras obras, a exemplo de DNA de DAN (ler abaixo), é alvo de ataques conservadores e de censura. Ano passado, teve apresentações proibidas em Jundiaí (SP) e Salvador (BA).

“É assustador quando se censura judicialmente uma peça. O argumento é que se tratava de um trabalho ‘profano’. Partem do pressuposto de que, por ter uma travesti, tem um viés sexualizado. Essas pessoas não se propõem ao debate. Esse cerceamento da arte é cíclico e atende interesses. Se você observar, evangélicos e católicos só se unem em torno de uma pauta: repressão de LGBTs”, reforça.

A atriz e diretora defende que é preciso combater o olhar patriarcal e cisgênero, que exclui quem não se enquadra em seus padrões. À frente do Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart), ela enfatiza também a importância de se combater o transfake, ou seja, artistas cis interpretando personagens trans. Para Renata, é preciso lutar pela representatividade e isso exige que não se negue espaço às pessoas trans.

“Quando um coletivo se vê representado, ele se fortalece, e o que acontece é uma exclusão constante do corpo trans. Nunca pensam na gente para interpretar personagens trans, quem dirá cis. A gente quer entrar num grande acordo nacional, com os festivais, com as instituições com tudo; nós queremos estancar essa sangria, queremos parar de morrer”, enfatiza.

SERVIÇO

O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho
Quando: 3 de junho, às 19h
Onde: no Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)
Informações: 3355-3320


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