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Crítica: ‘Tebas Land’ propõe um jogo de espelhos sobre o teatro e o Outro

30 / nov
Publicado por Márcio Bastos às 21:42

Robson Torinni e Otto Jr. se entregam em cena. Foto: Jr Marins/Divulgação

O público entra no teatro e se depara com uma espécie de gaiola no palco, uma quadra de basquete entre grades que emula a área recreativa de um presídio. Nela, um jovem com vestes esportivas se aquece, tenta alguns lances enquanto a plateia se acomoda. Do lado de fora do gradeado, outro homem, este de porte altivo e elegante, recepciona o público. Logo, ele se apresenta: se chama Otto, é dramaturgo, e vai explicar o processo de construção de Tebas Land, peça que em poucos momentos começará a ser encenada – ou ao menos é o que a plateia pode imaginar, pois a ação já acontece desde a abertura da porta.

Essa metalinguagem constante permeia a montagem baseada no texto do uruguaio Sergio Blanco e que é apresentada pela primeira vez no Brasil no Oi Futuro (RJ), com direção de Victor Garcia Peralta e protagonizada por Robson Torinni e Otto Jr. O jogo no qual o espectador está prestes a imergir é complexo, mas conduzido com perspicácia pela dramaturgia, direção e pela entrega dos atores.

Na pele do dramaturgo, Otto explica que, convidado para montar o espetáculo, decidiu fazer um trabalho com um prisioneiro de verdade em cena.Um parricida, mais especificamente. Foi assim que ele chegou até Martín, jovem que assassinou o pai. Os encontros com o rapaz dão margem para o desenvolvimento de um relacionamento complexo, labiríntico, a partir do qual vai sendo construída a peça dentro da peça. Negada a possibilidade de que Martín esteja no palco, o dramaturgo encontra como solução chamar um ator de fato. No caso, Robson, que interpretará o rapaz.

‘Gaiola’ cênica marca transições temporais e também tem forte teor metafórico. Foto: Cristina Oliveira/Divulgação

Esses movimentos – as encenações dos encontros, as conversas do dramaturgo com a plateia, com a quebra da quarta parede, e os diálogos de Robson e Otto, ator e dramaturgo desenvolvendo a obra – podem parecer confusos, mas a execução é fluída. Nesse sentido, a “gaiola” (cenografia de José Baltazar), assim como a luz (de Maneco Quinderé), exercem função importante de estabelecer transições temporais.

A dramaturgia de Sergio Blanco, atualmente uma das mais requisitadas no mundo (Tebas Land já foi montada em Tóquio e Berlim, entre outras cidades), exige do espectador atenção constante pois subverte expectativas a todo momento.

A TEBAS LAND DE CADA UM

A partir do tema do tema do parricídio, o dramaturgo mergulha em recantos sombrios da natureza humana. Referências são utilizadas não de forma enciclopédica, mas provocadora, a exemplo do mito de Édipo – e a interpretação freudiana – e d’Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski.

Como em outros trabalhos de Sergio Blanco, a exemplo de A Ira de Narciso, a autoficção é utilizada como um elemento que reforça esse jogo perspicaz de investigação do próprio fazer teatral. As conversas com Martín são dissecadas, transpostas para a mesa de trabalho, reimaginadas. Realidade e ficção são conceitos borrados.

O texto denso é defendido com paixão pelos dois atores. Otto Jr faz de seu personagem um artista inquieto, ciente também das contradições de sua empreitada. Como Martín aponta em determinado momento, o dramaturgo não está interessado em o conhecer, mas sim em utilizar sua vida – e mais, um recorte brutal dela – para construir uma grande obra.

Robson Torinni tem um trabalho de construção de personagens complexos. Como Martín, assume uma postura sisuda, por vezes ameaçadora, mas igualmente frágil. A transição do parricida para o ator é frenética e o pernambucano impressiona na segurança com que conduz esses movimentos. Sua interpretação dá a Martín diversas camadas e é impossível não criar empatia com o personagem, privado do amor paterno e, mais do que isso, alvo de torturas físicas e psicológicas por parte de seu genitor.

Complexos, personagens propõe um exercício da empatia. Foto: Cristina Oliveira/Divulgação

As zonas cinzentas desse processo são muitas e a relação entre esses dois homens é atravessada por medo, curiosidade, empatia, solidão, desejo e afeto. Tebas Land é um trabalho que desafia o espectador não só a mergulhar no processo de criação artística, mas também a questionar sua visão sobre o outro e si. A diferença entre um Martín e um Otto, às vezes, é definida por um detalhe, como uma grade. Ou um pai.


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