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maio

Os discos de 1972: 1 – A transa de Caetano há 40 anos

20 / maio
Publicado por José Teles às 7:29

Antes de tudo a expressão “transa”, há 40 anos. Sua utilização era a mais ampla imaginável. Podia ser desde ter relações bíblicas com um parceiros, quanto estar curtindo alguma coisa, ou fazendo alguma coisa, ou até mesmo uma coisa, igualmente num sentido amplo.

Transa, o disco que Caetano Veloso gravou em Londres, com Macalé na produção, e tocando violão em algumas faixas (com a jovem Ângela Rô Rô na gaita em outra) foi uma das transas mais legais daquele ano farto em transas legais.

Embora tenha álbuns mais impactantes antes, sobretudo o seu primeiro solo, o LP tropicalista de 68, o coletivo Panis et circenses, também de 68, e o Álbum branco, de 1969 (este um pouco menos), Transa foi o disco realmente bem-sucedido tecnicamente,  de crítica e público lançado por Caetano Veloso, e um dos melhores que fez até hoje.

Uma série de colagens, cinematográficas, cortes surpreendentes, mistura de idiomas, o moderno e o arcaico. MPB e rock and roll, jovem e velha guarda: Luiz Gonzaga, Zé do Norte, Beatles, reggae (Nine out of ten, o primeiro reggae de um brasileiro, e dos primeiros de um não jamaicano).

Transa é a prova de que a massa adora um biscoito fino, desde que lhe seja servido.  It’s a long way foi uma das canções mais cantadas de 1972. E não é fácil, mistura inglês com Zé do Norte (“Os olhos da cobra verde, hoje foi que arreparei”…), e Luiz Gonzaga (“Eu agradeço, a todo povo brasileiro”, de A hora do Adeus, de Onildo Almeida e Luiz Queiroga).

Transa foi tão popular que fez de Mora na filosofia (Monsueto e Arnaldo Passos), canção obrigatória nas rodas de violão da estudantada, e em pot-pourri samba de cantor de barzinho.

Mais adiante, vai o banzo, a saudade da terra natal busca o poeta Gregório de Matos (Triste Bahia). Encerra com um rock básico, em Nostalgia (That’s what rock and rol is all about), onde se escuta a gaitinha de Rô Rô, entre as vozes de Caetano e Gal Costa (que participa de mais duas faixas do álbum).

Caetano Veloso, em 1972, conseguia ser MPB, alternativo e udigrudi ao mesmo tempo. E provou isso pouco depois com o o álbum

A Universal Musical pega o gancho das efemérides, os 40 anos do disco, e os 70 anos do artista, e relançou o álbum, em CD e vinil, remasterizado em Londres, e com o projeto gráfico original, do baiano Álvaro Guimarães. Neste projeto a capa se se tornava um prisma que se podia colocar de pé.

Foi o que menos se gostou do álbum, porque se capa conseguia ficar de pé, era uma efêmera obra de arte: as peças de papelão logo se desprendiam e inutilizavam a capa. As que sobraram viraram item de colecionador.

Nota – No extinto Jornal do Disco (de janeiro de 1980),  a já famosa Ângela Rô Rô comentou sua participação em Transa:

“Na faixa Nostalgia, do disco Transa, de Caetano Veloso, tem um pedacinho de um solo de gaita de blues, que eu toco. Nunca tinha ouvido, porque não estava preocupada em ser da turma de Caetano, da Gal, do Gil. Toquei, ganhei oito libras, esqueci de ir buscar e recebia grana pelo correio”.


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