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Discos de 1972: 12 – O pós-tropicalista Jards Macalé

01 / jul
Publicado por José Teles às 18:34

O esperado álbum de estreia de Jards Macalé, em 1972, foi bem menos bombástico do que esperavam os que tinham dele a imagem histriônica, épica, de camisolão, interpretando Gotham City (parceria com Capinam), no FIC, em 1968.

Por sinal, uma de sua canções mais circunstanciais, mas que causou imenso impacto, num dos anos de tempo politicamente mais nublado que o Brasil já viveu.  O maestro do festival, se recusou a reger a orquestra com o arranjo de Rogério Duprat, e a música não foi gravada por Macalé na época (no disco do festival é interpretada por Os Brasões).

Jards Macalé, o disco (Phillips) lembra alguns álbuns lançados em San Francisco, no auge da psicodelia, totalmente descompromissado, quase que inteiramente livre. Foi gravado por Macalé, voz e violão, Lanny Gordin, violão e baixo, e Tutti Moreno, na bateria.

Lanny, Macalé e Tutti Moreno

“É uma das coisas mais sérias  e importantes de todas essas que têm aparecido nesse clima de medicância e mediocriade da chamada MPB”, saudou o crítico Carlos marques, nem comentário (de capa), no jornal Rolling Stone (edição nacional, em maio de 1972).

Perpassa em todo o disco, na interpretação de Macalé e nas melodias a influência de Jimi Hendrix, um dos poucos roqueiros que inventou novou na forma de cantar.

É pouco ressaltado o talento vocal de Hendrix. Ele cantava de uma forma que as frases pareciam flutuar no ar, espalhando-se em ondas. Gilberto Gil tem muito disso, quando canta, por exemplo, Volkswagen blue.

Mas Macalé tem João Gilberto, blues e jazz. Some-se a isto a abertura que o tropicalismo permitiu às temáticas das letras. Pode-se até não gostar de Jards Macalé (o disco), mas jamais lhe negar a originalidade, neste álbum que inaugura o pós-tropicalismo.

Irrotulável, é o estilo Macalé, que marca sua carreira com pelos menos quatro clássicos deste disco: Farinha do desprezo (com Capinam), Let’s play that (Torquato Neto), Mal secreto (Wally Salomão), e Hotel das estrelas (Duda).

O LP saiu com apenas nove faixas, não apenas pela duração de algumas delas, como também pela censura, que deixou algumas de fora, e outras mutiladas. Jards Macalé  é quase totalmente autoral. De terceiros,  Farrapo humano, do “novato” Luiz melodia, e A morte (Gilberto Gil).

Revendo amigos (Macalé/Capinam) foi a canção com que a censura mais implicou. Teve a letra vista e revista por doze vezes, ate ser liberada. A título de curiosidade, os versos, De Revendo amigos:

“Se me der na veneta eu vou / se me der na veneta eu mato / se me der na veneta eu morro /  e volto pra curtir / Se chego num dia não / E se pintar um bode / Eu vou, eu mato, eu morro e volto pra curtir”, foram usados para batizar o antológico show Luiz Gonzaga volta pra curtir, produzido por Capinam, em 1972.

Quatro décadas depois, Jards Macalé é um disco que incomoda, que leva a reflexões, que não se ouve impassível. Macalé está por aí, como também estão Lanny Gordin e Tutty Moreno. Que tal reexperimentar este disco no palco novamente?


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