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Rogério Duarte (1939/2016)

14 / abr
Publicado por José Teles às 23:08

rogerio duarte red

O baiano Rogério Duarte, falecido, ontem à noite em Brasília, aos 77 anos, foi personagem multidimensional, que atuou nos mais diversos campos da cultura brasileira, e sobre eles exerceu influência marcante. Artista plástico, cineasta, ator, escritor, filósofo, ativista político, foi também compositor. É parceiro e Caetano Veloso  em Anunciação, e Acrilirico (Rogério Duprat também entrou na parceria), Futurivel/Objeto Semi-Identificado A Ùltima Valsa, Moraes Moreira, Samba da Bahia de Todos os Santos, Geraldo Azevedo Quem É Muito Querido Para Mim . Apenas dele é Gayana, que Caetano Veloso gravou no álbum Abraçaço, de 2012.

Como designer gráfico, expressão que não existia na época, obviamente, foi responsável pelo mais icônico cartaz de um filme nacional, o de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Amigo de Gilberto Gil e Caetano Veloso, e responsável pela capa dos discos tropicalistas da dupla. Tido como mentor, guru, da turma da Tropicália, Rogério Duarte foi preso com o irmão, engenheiro e cineasta, Ronaldo Santos, em abril de 1968, oito meses antes dos militares também prenderem Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Os dois com duas moças, Silvia Escorel, e Ruth Queiroz,  desistiram de ir à missa de sétimo dia de Edson Luis, o estudante assassinado no Calabouço, no Rio, cuja morte deflagrou manifestações estudantis pelo país. Foram presos, os quatro, na rua por agentes do SNI. As moças, adolescentes, foram interrogadas e liberadas, enquanto os irmãos Duarte, passaram oito dias incomunicáveis, sem que se soubesse onde se encontravam.

Reapareceram, oito dias depois, na Sexta-Feira da Paixão, quando o sumiço já havia se tornado um problema no governo.  Denunciaram que tinham sido seviciados e torturados. Um caso rumoroso, mais ainda uma exceção, que que prenunciava uma regra a ser adotada dentro demais alguns meses, quando o AI-5 se abateu sobre o Brasil.

Rogério Duarte continuaria na rota de colisão e de transgressões. Em 1971, por exemplo, aliou-se ao hoje esquecido Sergio Bandeyra, pioneiro no udigrúdi carioca, e André Luís (diretor do filme Meteorango Kid Herói Intergalático, cujo cartaz é assinado por Rogério), num hapenning, que Bandeyra estenderia a um show com o grupo A Bolha.

Rogério Duarte e Sérgio Bandeyra foram parceiros em Vou Pra Casa (Hoje foi um dia violento/embora não tenha acontecido nada/ficamos loucos de andar e pensar/não há motivo/nem do que sofrer/nem do que em acreditar”.) Ainda em 1971, ele criou com Luis Carlos Maciel  o jornal alternativo Flor do Mal.

Os Novos Baianos também seriam atraídos pelo incansável Rogerio Duarte. Besta É tu, de Acabou Chorare, foi criada, a partir de uma conversa com Duarte, que dirigiu um curta sobre o grupo, Final do Juizo (com participações de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.

Durante toda a década de 70, Rogério continuou suas lucubrações, indo do filme, ao cartaz, à arte conceitual. Em 2008, traduziu, do sânscrito, o Bhagavad Gītā, lançado em livro, com o nome de Canção do Divino Mestre. acompanhado de um CD.

Teve-se uma ideia da amplitude da obra de Rogério Duarte, na exposição Marginália 1, realizada, em junho de2015, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro Já debilitado com o câncer que o mataria, Rogério Duarte não pode comparecer à abertura da mostra.

Confiram ensaio sobre o trabalho gráfico de Rogério Duarte no tropicalismo:


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