22
abr

Prince foi todos eles juntos num só

22 / abr
Publicado por José Teles às 14:04

prince red

“No início Deus fez o mar/o sétimo dia foi pra me criar”, os versos de My Name Is Prince (1992), é o melhor exemplo da calculada e provocativa empáfia do ator, músico, produtor, compositor, cantor Prince Rogers Nelson, falecido ontem, em Chanhassen, no Minnesota, em sua propriedade Parsley Park, onde montou o estúdio em que dava vazão a sua compulsão de fazer música. Ele completaria 58 anos em 7 de junho, com uma carreira que se estendeu por 35 anos, com uma discografia, contando só os álbuns, de 39 títulos.

Num ensaio na revista New Yorker, Prince foi definido como se Dorian Gray fosse criado por Cher e James Brown. O que é uma tirada engraçada, mas ele era de outra estirpe. Não bebia nem usava drogas ilegais. Seu vício, até onde se sabe, era trabalho. Baixinho, arrogante, extremamente talentoso, Prince entre 1978 e 1988 foi o nome mais badalado da música pop do mundo. Lançou For You, o álbum de estréia aos 19 anos, tocando todos os instrumentos. Em 1984, com Purple Rain emplacaria dois megathits, When Doves Cry e Purple Rain. Esta última, título de um longa metragem, geralmente icluído entre os melhores filmes já realizados no gênero (fez mais dois, que a crítica arrasou).

Assim como Madonna, sua contemporânea, ela manipulava a mídia, espargindo sexo ao longo dos caminhos que trilhava. Hétero, insinuava-se andrógino (expressão ainda em voga). Em Dirty Mind (1980) aborda temos como incesto e sexo oral. Punha em cheque dogmas sociais religiosos, porém acabou convertendo-se, ignora-se por quanto tempo, às Testemunhas de Jeová (assim como Michael Jackson).

Ao longo de uma carreira de 35 anos, Prince lançou 39 discos, porém com material para pelo menos o dobro. Fez a festa das gravadoras piratas, com centenas (sic) de álbuns de músicas furtadas dos arquivos do artista. Produzia música em escala industrial, num longo e influente espasmo criativo que abrangeu do funk ao rock, do pop ao rhythm and blues, criava bandas, e promovia artistas. A profusão de gravações aumentou quando começou a queda de braço com a Warner Music.  Lançou disco atrás de disco, queria vencer pelo cansaço, não dele, do departamento de divulgação da empresa.

Já disse que Prince foi durante cerca de dez anos o equivalente aos Beatles na década de 60, pela quantidade, variedade e intensidade da música que entregou ao público. Ao mesmo tempo em que transgredia padrões estéticos, não seguia a cartilha do mercado. Chegou a trocar o nome, em1 992, por um símbolo que confundiu a todos, ou denunciou o estado de escravidão do artista dependente da gravadora, escrevendo a palavra “Slave (Escravo), no torso nu. Desligou-se da Warner, finalmente, em 1996. E pagou por sua rebeldia.

Em 1994, lançou um dos mais controversos discos da história do rock, Black Album, em que se tornou iconoclasta de si mesmo, desconstruindo o mito Prince, num disco que trazia apenas um numero na capa, supostamente feito para revidar a críticas de resvalara demasiadamente para o pop.  O Black Album foi retirado das lojas a pedido do próprio Prince, que liberou apenas uma centena de cópias na Europa. O álbum, obviamente, caiu na pirataria e, até ser novamente relançado pela gravadora, bateu recordes de vendas. É um de seus discos mais ousados e subestimados.

No álbum 3121 (2006) confessa: “Te amo baby, mas não tanto quanto amo minha guitarra”. Ele inquestionavelmente foi um dos maiores guitarristas do rock, um inovador, talento que se questiona, ou se desconhece, porque não fez dela a marca sonora de sua música.  Eddie Vedder, ontem, confessou que Prince foi o maior guitarrista que já viu. Ele tocava vários instrumentos, e muito bem. Arrigo Barnabé, no inicio do anos 80, na Alemanha, testemunhou o virtuosismo e genialidade de Prince.

Num after hour de um festival de jazz em Berlim, os músicos revezava-se em Jam sessions num clube noturno, quando chegou Prince com todo o aparato de superstar, belas mulheres e seguranças. O que provocou uma natural esnobação dos jazzmen.  De repente, ele deixa sua mesa, vai até o palco, e arrasa. Segundo Arrigo, “Tocou tudo e muito”.

Tanto podia se apresentar com uma superprodução como aconteceu no Rock in Rio, em 1991, com muitas luzes, dragões infláveis, e mil exigências (incluindo 200, ou 700, toalhas, a imprensa divergiu na época). Ou como fez em 2007, em Las Vegas, no clube 3121 (batizado, a pedido dele, com o título de seu álbum homônimo). Por US$ 175 dólares podia-se assisti-lo de uma mesa diante do palco, num show despojado, sem cenário. Apenas ele e sua música. ‘

Depois de 1996, ouviu-se falar pouco de Prince, fora dos EUA. Desde que se arvorou a seu próprio dono, os discos, embora mantivessem o padrão de qualidade, passaram a tocar menos. Ele tampouco facilitou disparando a metralhadora giratória contra tudo o que não gostava. Declarações que hoje suscitariam polêmicas, como ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Mas sua genialidade nunca foi posta em cheque. Continuou a fazer apresentações concorridas. Em 2004, a turnê do álbum Musicology, foi considerada uma das mais lucrativas do ano. Desde o final do ano passado lançou quatro projetos novos de disco, que não saíram no Brasil, onde ele ficou conhecido basicamente por Purple Rain, música e filme, pelas roupas e atitudes extravagantes.

Em sua autobiografia, de 1989,o trompetista Miles Davis apontou três nomes como o futuro da música. O grupo Kassav, da Índias Ocidentais, no caribe (estilizador e propagador do zouk), Fela Kuti, da Nigéria, e Prince, seu compatriota.  Com o Kassav errou no atacado, mas acertou no varejo. O zouk é um ritmo que hoje faz parte do idioma musical do mundo (está, por exemplo, na axé music, e na música do Pará), Fela Kuti e seu afrobeat nos últimos anos passou a ser tanto ou mais influente do que o reggae.

Prince recebeu mais atenção no livro. Miles Davis tornou-se amigo dele em 1988, e até fizeram planos para um disco juntos (tocaram em Parsley Park, nm show privê, mas separados). Na citada autobiografia, Miles acrescentou que Prince poderia ser um novo Duke Ellington, se não mudasse de rumo. Em conceito chegou, como arranjador, que pensava na música como um todo, diretor de músicos, e compositor prolifico. Prince, porém é um pouco mais do que disse dele Miles Davis: é passado, presente, e futuro da música pop.

(adaptação de matéria assinada pelo titular deste blog na edição impressa do Jornal do Commercio)

Confiram Prince, como guitarrista, em sua participação, com medalhões do rock, em While My Guitar Gently Weeps, na cerimonia do Rock and Roll Hall of Fame 2004:


Veja também