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Elvis Presley em descontraídas e ótimas gravações caseiras

17 / ago
Publicado por José Teles às 11:53

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Morto há quase 40 anos, Elvis Presley ainda consegue surpreender. E faz isto com Way Down  In The Jungle Room (RCA/Legacy), álbum duplo, com gravações realizadas no estúdio doméstico do cantor, em Graceland, sua mansão, em Memphis, Tennessee. Sem risco de cometer exagero, um disco que lembra o histórico Elvis 68 Comeback Special, quando Sua Majestade saiu, depois de dez anos, do recôndito do seu castelo impenetrável, e fez de um especial de TV, um dos momentos mais memoráveis da década de 60.

Infelizmente, o Elvis Presley que a grande maioria das pessoas lembra, até as musicalmente bem informadas, é o de final de carreira, com o jumpsuit (aquele macacão cravejado de pedras preciosas), cabelo gomalinado e tingido de preto. Ainda um grande cantor (afinal estava no começo dos 40 anos), mas totalmente engolido pela fama e pelo show business. Way Down In The Jungle Room contém canções gravadas há 40 anos, mas totalmente diferente do Elvis que, na época, era atração turística em Las Vegas.

O “jungle room” é uma dos cômodos de Graceland, onde está o estúdio, mas que foi antes uma sala de estar, decorada e mobiliada com o gosto exótico do cantor (tinha até cascata artificial). O nome só pegou depois de sua morte, quando a mansão foi aberta à visitação. Ali ele tirava um som com músicos com os quais tocava há anos: o guitarrista James Burton, os tecladistas David Briggs e Glenn D. Hardin e os vocais de J.D. Sumner and The Stamps, para citar os mais conhecidos.

Conhecer Elvis Presley é tão essencial para se entender o rock and roll, e a própria história da música popular do século passado, quanto, Da Vinci, nas artes plásticas. O mais gutural vocalista da mais iconoclasta banda de thrash metal não está fazendo nada mais do que Elvis Presley fez em 1954, refletindo o espírito do seu tempo, claro. Mas a raiz está lá naquele pequeno estúdio em Memphis onde foi feita uma revolução, com uma única música, apropriadamente intitulada That’s All right (Big Boy Arthur Cruddup)

Parte das faixas deste álbum foi lançada com o cantor ainda vivo, nos discos From Elvis Boulevard (1976) e Moody Blues (1977), seus dois últimos LPs de estúdio, condensados no CD 1. O outro CD é delicioso, ao mostrar o Rei sem cetro, coroa, nem manto de arminho.  Totalmente descontraído, Elvis pode ser escutado em tiradas espirituosas e bem humoradas, quando interrompe a gravação, ou a inicia. Elvis não foi apenas um cantor de voz potente, mas um intérprete que tinha um tratamento personalizado para cada canção.

O melhor exemplo aqui é a balada soul Hurt, sucesso internacional, em 1962, com a cantora Timi Yuro, numa gravação impecável (produzida por Bob Johnston, que depois se notabilizaria por produzir Bob Dylan, Leonard Cohen).  Hurt é recriada por Elvis, sem muito esforço, bastou destilar um pouco do soul de que era dotado (não por acaso, os que o escutavam em meados do anos 50, achavam que ele fosse negro).

O repertório varia de baladas country, a rhythm and blues. Cantados em alto astral, sem preciosismos (a não ser quando a canção o exigiu), e com a banda também à vontade, com James Burton encarcando na pedaleira, o que fazia muito pouco no palco com o chefe. Way Down in the The Jungle antecipa os lançamentos dos 40 anos sem Elvis Presley, um mito americano, e mais do que isto. Sem o caipira Elvis Aaron Presley, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Mick Jagger, Roberto Carlos, Johnny Hallyday, Johnny Rotten, teriam feito música, gravado discos. Mas certamente não de rock and roll.

Confiram áudio de Elvis Presley em Never Again:


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