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Belchior (1946/2017)

30 / abr
Publicado por José Teles às 19:36

 

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No disco Berro (1978), de Ednardo, há uma faixa intitulada Padaria Espiritual, de letra enigmática, para quem não lhe identifica a fonte da inspiração: “Nessa nova padaria espiritual/nessa nova palavra de ordem geral/eu faço o pão do espírito/e você cuida do delito/de comer, de comer/onde e como cometer”.

A Padaria Espiritual foi um movimento cultural surgido em Fortaleza em 1892. Congregava intelectuais cearenses, a maioria das letras, que se reuniam no Café Java, no Centro da capital. A irreverência, com uma boa dose de anarquismo, era o insumo principal do pessoal da padaria, que pretendia mexer com o conservadorismo reinante na cidade, e que disseminavam suas ideias num jornal intitulado O Pão.

Um padeiro-mor, dois forneiros, amassadores, e outras especialidades do ofício formavam o grupo, que inspirou outra leva de intelectuais, que se reunia em outro bar, em meados dos anos 60. Do Café Java para o Bar do Anísio, na praia de Mucuripe. Lá nasceu uma padaria espiritual e bastante musical, formada por jovens poetas, cineastas, arquitetos, músicos. Entre estes estavam Petrúcio Maia, Belchior, Ednardo, Rodger, Jorge Melo, muita gente.

Era época de festivais, que não aconteceram apenas no Rio e São Paulo, como reza a história oficial destes concursos. No Ceará eles foram realizados, e tiveram LPs lançados com as músicas classificadas para a final. Boa parte dos finalistas fazia parte da confraria do Bar do Anísio, na praia de Mucuripe. Veio em seguida a TV, com participação dos “padeiros” mais destacados, discos avulsos.

Mas Fortaleza foi ficando pequena para aqueles talentos forjados nas noitadas do Bar do Anísio, onde nasceram algumas canções que dali a alguns anos o país inteiro cantaria. O primeiro a ir embora, e ter o nome estampado nos jornais do “Sul” foi Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, nascido, em 1946, em Sobral, no interior do estado. Em 1969, ele largaria um promissor curso de medicina pela música.

Venceu o IV Festival Universitário de MPB, em 1971, no Rio, com A Hora do Almoço (parceria com Jorginho Telles/Jorge Nery), com claras influencias do tropicalismo na letra. Ele deve ter surpreendido os “padeiros” do Bar do Anísio, porque não ficava no topo das classificações nos festivais de MPB em Fortaleza. No Ceará, concorreu, pela última vez, em 1968, com Espacial (defendida pela cantora Lúcia Menezes), que incluiria em seu último disco dos anos 70, Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo (1979, Warner Music).

E eis que Roberto Carlos grava Mucuripe (de Belchior e Fagner), Elis Regina iria mais longe, e gravaria Como os Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, e a citada Mucuripe. Sua música ressoava pelo Brasil na voz de Elis, quando lançou Alucinação, um dos discos definitivos da MPB dos anos 70. O “padeiro” Belchior, dizia do seu ofício na época (ao jornal alternativo Movimento): “Fazer uma canção, é como fazer um pão, fazer uma panela, trabalhar numa fábrica… Para o homem tudo tem utilidade. Quem canta só por cantar é passarinho”.

Não justifica, mas explica porque permitiu que a gravadora Warner apontasse uma linha menos engajada e mais romântica, com tempero disco music, para os álbuns Coração Selvagem (1977) e Todos os Sentidos (1978). No álbum seguinte, Era uma Vez um Homem e seu tempo (1979), fechava a década. Este último disco rendeu o grande hit final Medo de Avião. Continuaria a gravar, fazer turnês, mas as novas fornadas não o levaram de volta às paradas. A partir dos anos 80, fez discos bons, e razoáveis, nunca ruins.

A geração anos 2000 o redescobriu, lhe prestou tributo em disco e shows. Cultua seus álbuns (de preferência em vinil), está carpindo sua morte nas redes sociais, mas se fixa na música setentista de Belchior. Ele próprio pareceu se render aos fatos. O último CD, dividido com o violonista mineiro Gilvan Oliveira, foi registrado em Belo Horizonte, em 1996, e só lançado dez anos depois, sem repercussão, como quase todos seus álbuns a partir dos anos 90.  O repertório é quase todo de antigos sucessos da melhor fornada do padeiro-mor.

Confiram Belchior em Espacial:

 

 

 

 

 


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