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Gram Parsons um influente e ilustre desconhecido

10 / set
Publicado por José Teles às 19:27

Gram Parsons (The Byrds, The Flying Burrito Brothers), morreu aos 27 anos, e teve o corpo surrupiado por um grupo de pessoas, liderado por um amigo próximo, a fim de cumprir o ultimo desejo do músico: que suas cinzas fossem espalhadas no parque nacional de Joshua Tree, na Califórnia. Tentaram cremar o corpo de Parsons, jogando gasolina sobre ele e ateando fogo. O que conseguiram, no entanto, foi uma trapalhada. Fizeram do falecido Parsons uma grande fogueira, que atraiu a polícia. A turma fugiu. Alguns dos participantes da macabra empreitadaforam pegos dias depois, multados, mas se livraram da prisão.

Gram Parsons foi cremado, porém na cidade de Metairie, na Louisiana. Algum tempo depois, suas cinzas foram levadas para o lugar desejado. Não se sabe com certeza até onde isto é verdade, mas daria um filme. Gram Parsons, nascido Ingram Cecil Connor III, na Flórida, era de uma familia muito rica, estudou em Harvard, não precisava da música para vivier. Sustentava-se com um fundo de investimento a que teve direito depois dos 21 anos.

Gram Parsons nunca foi além do status de cult, e da admiração, e despeito, de colegas músicos. Nunca teve um hit no paradão da Billboard. Então qual sua importância para sua ter direito a uma caixa, A song for you, com sete discos? O box contém participações de Parson em bandas, em parcerias de palco, e interpretações por outros artistas. Um exagero, certamente.

Mas por que ele é o número 87, entre os 100 artistas da música mais importantes de todos os tempos nos EUA, numa lista da revista Rolling Stone? Tudo bem, listas questionáveis.

Embora meio esquecido, e conhecido por poucos entre os das novas gerações (afinal morreu há 45 anos), a influência de Gram Parsons é muito mais abrangente do que seu currículo pessoal aparenta. Antes dos Byrds ele teve uma banda, a International Submarine Band, cujo álbum, Safe at home, de 1968, renovou a música country, e soa como se tivesse sido gravado este ano.

Ele se tornou realmente influente a partir de participação no The Byrds, para o qual foi contratado (como assalariado), meio por acaso, por ser também um bom pianista, supostamente de jazz. Maluco de plantão de Los Angeles, Gram Parsons acabou sendo responsável pelas coordenadas de um dos mais importantes álbuns dos anos 60, Sweet heart do the rodeo (1968).

Pensado inicialmente, por Roger McGuinn, como um álbum duplo que repassaria a evolução da música popular americana, das canções dos Apalaches até a eletrônica, o projeto foi redirecionado por Gram Parsons, para um disco de música country progressiva, ou Cosmic american music. Como um músico assalariado de uma banda que, três anos antes, tinha sido uma resposta americana à invasão britânica, capitaneada pelos Beatles, Gram Parsons foi muito além do que se esperaria. É autor de três canções, e vocalista principal em seis.

Três dos seus vocais foram apagados por Roger McGuinn, depois que o produtor Lee Hazlewood ameaçou processar a CBS/Columbia, alegando que Gram Parsons tinha contrato com sua gravadora, a LH1 Record Label. Parsons deixaria os Byrds ainda em 1968. Logo depois da gravação do álbum, o primeiro inteiramente de música country lançado por uma grande banda do rock.

Parsons recusou-se a viajar com o grupo para uma turnê na África do Sul, então sob boicote artístico, pela política oficial de segregação racial. Preferiu a companhia de Keith Richards, dos Rolling Stones,  Parsons teria seu ultimo lampejo criativo com o também influente e cultuado The Flying Burrito Brothers. Cujo maior luxo seria uma avant-première de Wild horses, de Jagger/Richards, que o grupo gravou em 1970, no LP Burrito Deluxe (os Rolling Stones a gravariam em Stick Fingers, de 1971.

Sweetheart of the rodeo vendeu muito pouco, mas foi muito comentado. No conturbado 1968, já havia barulho demais nas ruas, loucuras demais nas pessoas, e a música pastoral do álbum fez do gosto pessoal de Gram Parsons um modelo a seguir. Levou a uma volta ao campo, ao acústico, contaminou os Rolling Stones, Bob Dylan, Beatles, e daí mundo afora.

Até o Brasil, não por acaso, em 1968 os Brazilian Bitles fariam sucesso com O barqueiro (Fábio Block), uma música caipira. Em 1969, Os Incríveis emplacaram Vendi os bois (Dom), no mesmo estilo, e Sérgio Reis passaria a cantar música sertaneja (a tradicional), também por esta época, mas só chegaria às paradas com O menino da porteira (Teddy Vieira/Luisinho), em 1973.

Pode-se atribuir tal inclinação caipira aos Mutantes, que gravaram em 1969, a moda de viola 2001 (Rita Lee/Tom Zé). Talvez, mas antenada com o que acontecia lá fora, assim como os demais Mutantes, é possível que Rita soubesse dessa guinada às raízes dos roqueiros americanos, comandada por Gram Parsons. Este por sua vez gravou solo até 1973, grandes discos, sem repercussão. Morreu em 19 de setembro, daquele ano, de uma overdose de morfina e tequila.


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