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A busca de Aline Reis pela titularidade e outros assuntos: uma conversa com a goleira

Karoline Albuquerque
Karoline Albuquerque
Publicado em 06/08/2019 às 10:28
Aline luta pela titularidade na seleção brasileira. Foto: Divulgação/CBF
Aline luta pela titularidade na seleção brasileira. Foto: Divulgação/CBF
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Quase um mês após a final da Copa do Mundo França-2019 e uma semana depois de uma grande mudança no comando da seleção brasileira, as jogadoras brasileiras seguem seus passos no futebol feminino pelo mundo. Atuando no UDG Tenerife, da Espanha, a goleira brasileira Aline Reis vê agora a chance de trabalhar com uma referência na modalidade com Pia Sundhage sendo a nova treinadora do Brasil. E buscar também um lugar entre as titulares.

Até o Mundial, a camisa 1 da seleção era a pernambucana Bárbara. Aos 31 anos, a arqueira ainda não sabe se irá para a próxima Copa do Mundo. Antes, porém, acontecem os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 e, lá, Aline quer a oportunidade de ficar na meta brasileira. Para isso, não vai se acomodar, pois, em sua visão, a acomodação "é inimiga do progresso", e buscar evoluir. "Por isso quero lutar por essa titularidade com unhas e dentes", disse, em entrevista ao Blog do Torcedor e à Rádio Jornal.

"Eu com certeza quero chegar muito bem preparada e com muita motivação para as Olimpíadas. Para a próxima Copa do Mundo, daqui a quatro anos, eu ainda não posso dizer. Os atletas de elite, lógico que tem que planejar e ter objetivos de curto e longo prazo, mas eu costumo levar ano após ano. Se eu puder me manter num nível físico, técnico e mental de elite, com certeza eu quero servir à seleção brasileira o máximo que eu puder", destacou.

A arqueira não esconde a motivação e o entusiasmo para atuar sob o comando de Pia Sundhage, a quem chama de "lenda" e "referência" pela carreira vitoriosa como técnica e jogadora. Uma oportunidade, segundo ela, de aprender com alguém de experiência distinta. Claro que Aline ainda não sabe se será convocada pela técnica, mas garante o trabalho duro para ser notada e chamada nas próximas convocações até a Olimpíada.

"Eu, pessoalmente, estou muito ansiosa para trabalhar com ela. Vejo isso como uma oportunidade de crescimento não só da seleção brasileira, mas de cada indivíduo que está ali dentro. Meu objetivo estar nas Olimpíadas, lutar pela titularidade e lutar pela medalha de ouro. Eu quero ser uma esponja enquanto eu estiver ali dentro e poder crescer como jogadora e entender um pouco mais da parte tática e ter essa capacidade que é muito importante no futebol", analisou Aline.

Durante a entrevista, a goleira brasileira também abordou sua visão do Campeonato Brasileiro feminino, seleções de base e a possibilidade de o Brasil sediar a próxima Copa do Mundo de futebol feminino. Aline Reis também falou sobre a ausência de uma brasileira na lista 2019 de Melhor do Mundo Fifa, seu trabalho no futebol espanhol e educação. Confira:

CATEGORIAS DE BASE

Aline pede que o Brasil tenha mais cuidado com a formação de atletas. Ela enxerga, porém, como positivas as declarações do presidente da CBF Rogério Caboclo sobre mudanças, dando foco e importância à base. É preciso começar de baixo para ter uma boa renovação, já que uma seleção não se mantém no topo sempre com as mesmas jogadoras, opina.

"Por isso que os EUA é uma das potências mundiais. Para mim, é a potência absoluta mundialmente porque a base dos EUA é muito forte. O fato de eles terem um campeonato universitário feminino. Eu cheguei a jogar 4 anos no campeonato universitário americano e pude ver de perto o nível, estrutura e profissionalismo, apesar de não ser considerado um campeonato profissional porque não recebe salário, o nível do futebol é incrível, a estrutura dos times de lá dão de 10 a 0 na estrutura profissional de muitos países", disse.

COPA DO MUNDO 2023

Aline Reis não sabe dizer se o Brasil está preparado para receber a competição. E, caso seja escolhido, há muito o que fazer. Mas, ela lembra, ao mesmo tempo em que a Copa da França tenha sido algo muito bonita e que o país tenha o Lyon, melhor time do mundo, e o PSG como outra equipe forte, o Campeonato Francês ainda requer mudanças.

"Acho que o Brasil tem que lutar para sediar a Copa do Mundo mesmo não estando aonde a gente deseja, porque o passo de ser escolhido, a gente vai ter que dar alguns passos em frente que são importantes. Só o fato de sediar um campeonato tão bonito, tão competitivo com as melhores do mundo só tem a beneficiar o Brasil e o futebol feminino e eu espero que isso aconteça", comentou.

CAMPEONATO BRASILEIRO

O primeiro ponto, segundo a goleira, para o desenvolvimento do Campeonato Brasileiro, foi dado justamente na Copa do Mundo, com a visibilidade adquirida e o futebol feminino na mídia. As atletas conseguiram ter um pouco mais de voz para opinar e falar o que acontece e o que precisa melhorar. Podendo por os problemas à luz, amplia o conhecimento. Aline entende que há um longo caminho a ser percorrido e que quanto mais forte for o campeonato nacional, a seleção recebe os reflexos positivos.

"Primeiro tem que mudar algo para detectar o problema. Acho que isso tem feito. As mudanças acredito que vão ocorrer. Claro que não dá para fazer uma mudança muito drástica, porque acho que algo drástico não dura. As mudanças tem que ser passo a passo, dia após dia, lutando semanalmente para que o futebol feminino seja visto com olhos mais profissionais. Para que pessoas com boas intenções e bons currículos e grande profissionalismo se interessem pelo futebol feminino e possam trabalhar nas equipes femininas", avaliou.

A jogadora ainda opina que as imposições das entidades para que os clubes tenham times femininos são positivas, já que, infelizmente, os clubes não fazem de boa vontade. Essas regras são, segundo Aline, reflexos do investimento da Fifa. "Isso é importantíssimo. E que bom que a gente está contando com as entidades para que os clubes deem mais importância ao futebol feminino", emendou.

MELHOR DO MUNDO

Na lista de doze jogadoras para a eleição de Melhor do Mundo Fifa 2019, há quatro norte-americanas, tetracampeãs do mundo, duas francesas, duas norueguesas, duas inglesas, uma holandesa e uma australiana. Apenas Ada Hegerberg não jogou a Copa do Mundo, por ter deixado a seleção da Noruega em sua luta por igualdade e respeito. Esta é apenas a segunda vez em que não há brasileiras na lista. Para Aline Reis, ter a jogadoras tão dispersadas no mundo e sem uma liga nacional forte podem ter contribuído para essa ausência.

"A primeira coisa quando vi a lista não foi nem pensar em quem iria ganhar, foi me decepcionar em não ver nenhum nome brasileiro na lista. Claro, estamos falando, não importa, pode ser que a Copa do Mundo tenha pesado, o resultado de não ter passado das oitavas, mas a Marta é a Marta. Quem assistiu à Copa do Mundo viu o porquê a Marta é seis vezes melhor do mundo, a jogadora de futebol entre homens e mulheres que mais ganhou esse prêmio. Então, é difícil de dizer, criticar a Fifa, entender como essas decisões são tomadas. Mas é inadmissível, ao meu ver, que a Marta não esteja nessa lista", opinou.

REAL MADRID

O Real Madrid comprou o CD Tacon, clube que subiu para a primeira divisão feminina espanhola. Agora, o gigante também disputará a competição e começou a rechear o elenco de nomes de peso, as suecas Kosovare Asllani e Sofia Jakobsson e a volante brasileira Thaísa. A equipe será adversária de Aline na Liga e a goleira comemora a entrada do gigante espanhol na competição. A arqueira acredita no engrandecimento do campeonato e em oportunidades para outras jogadoras.

"Eu costumo dizer que a nossa liga aqui é uma das mais competitivas no mundo e é ótima para se jogar porque a pré-temporada começa em agosto e vai até o final de maio. É um campeonato muito completo. A gente joga 30 rodadas. Tem também a Copa da Rainha e agora estão com o projeto de começar a Supercopa, ganhadores da Liga contra os da Copa. Não foi a toa que escolhi estar nessa liga", salientou.

Além de um reflexo da Copa do Mundo, Aline também acredita no reflexo da cultura espanhola. Ao chegar no país, a brasileira ficou surpresa com a ausência de um time feminino do Real Madrid. Ela pode observar que não só os clubes, mas a federação do país tem investido muito na seleção e nas categorias de base.

TENERIFE

aline reis, tenerife Aline atua no UDG Tenerife, das Ilhas Canárias. Foto: Twitter/@UDGTenerife

Defendendo o Granadilla Tenerife, a goleira começou a pré-temporada na última quinta-feira (1º). A intensidade dos treinos, porém, faz com que pareça ainda mais tempo. As atletas do elenco canário treinam em dois períodos e estão em fase de testes.

"Teste de mobilidade, teste médico. Não para. Mas isso é a vida do atleta. Estamos acostumados e sabemos que a pré-temporada é uma loucura. Nossa estreia será no dia 8 de setembro, fora de casa contra o Sevilla. Quinta-feira que nós vimos o calendário. A estreia é logo após a data Fifa que acontece no final de agosto", citou Aline.

EDUCAÇÃO

Fora das quatro linhas (mas não tanto assim), Aline Reis também defende a educação como uma necessidade para o atleta. A goleira tem mestrado a Universidade Central da Flórida (EUA), mas não vê a questão intelectual apenas como um diploma. Ela vai além: um atleta completo não é só a questão física ou técnica. É preciso entender tática, ter controle emocional e jogo mental forte. Algo muito presente nas jogadoras dos Estados Unidos.

"Todas as americanas que estão na seleção dos Estados Unidos passaram pela liga universitária, estudaram, se formaram. Isso expande muito a capacidade da atleta de chegar ao seu potencial máximo dentro de campo. Eu já tive várias conversas com treinadores, psicólogos do esporte que têm essa opinião de que precisamos expandir nossa capacidade intelectual para extrair nosso melhor dentro de campo", explicou.

Quando fala em capacidade intelectual, ela não se refere apenas a universidade. "Uma pessoa pode ser jogadora de futebol e estudar outras línguas, fazer leituras diariamente, ser curiosa, procurar entender de outros assuntos. Isso pra mim é expandir a capacidade intelectual. Não só conseguir um diploma", emendou.

Além disso, a arqueira entende que a questão acadêmica é mais forte no futebol feminino do que no masculino pela diferença financeira nas modalidades. Ambos tem carreira curta, mas um jogador homem geralmente consegue fazer uma poupança. No feminino, porém, a atleta vive a cada mês, de pagamento em pagamento na maioria das ligas pelo mundo. Por isso a necessidade do estudo.

"E se eu me machuco e não posso mais jogar, o que eu vou fazer? Não tenho um pé de meia. Mesmo que eu jogue por 10 anos, 15 anos, o que eu vou fazer depois? Tem que fazer algo para sobreviver. Por isso que no feminino essa discussão é maior. Independente disso, acho que o desenvolvimento intelectual é importantíssimo para todo atleta", concluiu a goleira.

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