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Um mês sem futebol, relato de um hiato inesperado

Karoline Albuquerque
Karoline Albuquerque
Publicado em 13/04/2020 às 14:01
 Foto: Alexandre Simoes / GETTY/UEFA / AFP
Foto: Alexandre Simoes / GETTY/UEFA / AFP
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Da AFP - Glasgow, 12 de março. O atacante jamaicano Leon Bailey dá a vitória ao Bayer Leverkusen na casa dos Rangers (3x1), pela Liga Europa. Arquibancadas cheias, um belo gol. Será o último: o coronavírus está prestes a colocar o continente europeu em um inesperado hiato futebolístico.

Naquela quinta-feira, o técnico do Arsenal, o espanhol Mikel Arteta, dá positivo para coronavírus e o elenco do Real Madrid é colocado em quarentena. No dia seguinte, os campeonatos francês e inglês são suspensos, unindo-se às ligas espanhola e italiana. A Alemanha logo seguirá o exemplo.

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"A proteção da vida humana deve se impor sobre qualquer outro interesse", escreve no Twitter o astro português Cristiano Ronaldo, confinado na Madeira, sua ilha natal.

Enquanto os chamados a doações crescem, os jogadores começam a encontrar alternativas para os treinos, com pesos caseiros, bicicletas ergométricas ou esteiras. Pronto: as redes sociais se veem inundadas por um inesperado "Stay At Home Challenge" ("desafio fique em casa", em inglês), que consiste em fazer embaixadinhas com um rolo de papel higiênico.

O confinamento chega a todos os lugares. Ou quase. Na Turquia, durante alguns dias, o futebol ainda é disputado. "Se o campeonato for suspenso não encontraremos juízes suficientes para os divórcios que isso causará", lançou o presidente do Trabzonspor. Diante desta declaração irresponsável, o nigeriano John Obi Mikel rompe o contrato com o clube: "Não me sinto à vontade", afirma.

Eurocopa adiada

Em 17 de março, pela primeira vez na história, a Eurocopa é adiada em um ano. "Este vírus, é a peste", afirma em 22 de março o presidente do Brescia, favorável à suspensão definitiva dos campeonatos europeus.

A guerra do calendário começa. Naquele momento, a Europa ainda acredita em conseguir terminar as competições até 30 de junho. Uma hipótese rapidamente esquecida.

Algumas estrelas do futebol decidem voltar para seus países, como Neymar, que escolhe sua casa de praia em Mangaratiba, no Rio, para passar a quarentena.

Sem jogos ou melhores momentos para assistir, ganham protagonismo os videogames. Diante de milhares de fãs online, o meia do Real Madrid Marco Asensio se consagra campeão virtual de um torneio de Fifa2020 entre estrelas do Campeonato Espanhol.

As entidades esportivas, por sua vez, fazem contas e adotam medidas extremas, já que logo a imensa maioria dos clubes terá que reduzir a remuneração de seus jogadores, entre desemprego parcial e acordos salariais.

Por outro lado, os detentores dos direitos de transmissão interrompem os pagamentos aos campeonatos. Durante este tempo, seus espectadores precisam se contentar com a retransmissão de jogos antigos.

O tédio toma conta de torcedores e jogadores. "Estou perto de ficar louco", afirmou o atacante belga Romelu Lukaku. A imprensa noticia também as histórias de jogadores que desrespeitam o isolamento social, como o lateral do Manchester City Kyle Walker, que, embora tenha ficado em casa, organizou uma festa com prostitutas. O jogador logo pediu desculpas publicamente.

Heróis anônimos

Por outro lado, outros personagens do futebol se tornam verdadeiros heróis. É o caso de Iragartze Fernández, uma árbitra semi-profissional, doente em Bilbao. "Não sou a Mulher Maravilha, só fiz um esforço como todo mundo", explica à AFP.

Para os torcedores, é difícil. "Cheguei a um estágio em que parece me faltar algo", revela à AFP um torcedor do PSG. Alguns colocam suas energias a serviço de iniciativas de ajuda.

Um ato de grande originalidade acontece em Dortmund, onde os torcedores simulam seus hábitos de dia de jogo comprando cervejas e salsichas virtuais nos bares e restaurantes da cidade para ajudar a economia local.

Em Belarus, as cervejas são reais e a bola rola: o presidente Alexander Lukachenko rejeita as medidas de confinamento, denunciando uma "psicose".

Mas a doença existe e faz vítimas fatais, como Lorenzo Sanz, ex-presidente do Real Madrid, Pape Diouf, ex-presidente do Olympique de Marselha, ou a mãe do técnico do Manchester City, Pep Guardiola.

Apesar do drama crescente, o futebol quer voltar. Na Alemanha, os jogadores do Bayern voltaram aos treinos em 6 de abril, respeitando as distâncias e evitando contato físico.

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