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De quarto goleiro à titularidade: Maycon Cleiton relembra toda a trajetória até o sucesso na meta do Santa Cruz

LOURENÇO GADÊLHA
LOURENÇO GADÊLHA
Publicado em 27/09/2020 às 13:04
Maycon Cleiton disputou todos os jogos do Santa Cruz na Copa do Nordeste 2020. Foto: Alexandre Gondim/ JC Imagem
Maycon Cleiton disputou todos os jogos do Santa Cruz na Copa do Nordeste 2020. Foto: Alexandre Gondim/ JC Imagem
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Revelado na base do Santa Cruz, o goleiro Maycon Cleiton era o quarto na linha de sucessão no início da temporada 2020. Depois de nove meses, o arqueiro é titular absoluto do Tricolor aos 21 anos. No período, foram 30 jogos, sendo 14 sem ser vazado. O sucesso profissional é algo que está na mente do arqueiro desde o início da trajetória no mundo do futebol tardiamente aos 15 anos. Andar por diversos estados do Brasil, superar obstáculos e derrubar a desconfiança para conquistar o coração da torcida Tricolor. A titularidade no Santa Cruz é fruto de muito trabalho e perseverança de um jovem que aguardava uma única oportunidade para mostrar suas credenciais. Se engana, no entanto, quem pensa que o goleiro teve vida fácil para chegar até aqui.

Em entrevista ao Blog do Torcedor e ao Jornal do Commercio, Maycon Cleiton passou a limpo toda a sua trajetória desde o início da carreira em Cuiabá, no Mato Grosso, passando pelas dificuldades inerentes à carreira de um jogador de futebol, até a chegada no Tricolor do Arruda em meados de 2018. Na bagagem, o atleta teve que convencer o pai de seu sonho, já que seu genitor não concordava com a ideia do filho seguir o rumo do futebol. Além disso, no Santa Cruz pôde superar os insucessos de outros clubes para sair de quarto goleiro e assumir a meta Tricolor com o aval do então técnico Itamar Schulle no início da temporada. 

Veja a entrevista na íntegra:

Titularidade absoluta e ótimo desempenho em 2020. Já esperava?

Esperava sim porque trabalhei muito para isso. Então eu sabia que quando a oportunidade chegasse, eu daria a vida e tudo que eu construir para dar resultado. Então posso dizer que eu esperava sim.

Quais foram as maiores mudanças na tua vida?

As coisas continuam tudo normal na minha vida. Sempre me considerei um jogador profissional, mesmo na época da base. Meus hábitos continuam os mesmos. Tudo que eu fazia antes, continuo fazendo hoje, mas sempre em busca de evolução. 

Titular no título da Copa Pernambuco, você viu o Santa Cruz contratar três goleiros - Luiz Fernando, Carlos Miguel e Thiago Cardoso - após a conquista, embora o ídolo tenha se aposentado. O que passou na sua cabeça naquele momento?

Sempre quando um goleiro é da base, a prioridade acaba sendo para o goleiro que chega de fora. Quando vi a contratação, eu tinha feito um ano bom nos Aspirantes, com uma participação muito boa também na Copa Pernambuco. Com as contratações, eu pensei em continuar trabalhando para não deixar cair o nível. Se a gente ficar olhando essas coisas, acaba desanimando. Então eu sempre mantive o foco com o pensamento de que minha oportunidade ia chegar e graças a Deus logo em seguida eu tive a oportunidade.

Você saiu de quarto goleiro para ser o titular da meta tricolor. Queria saber como foi a conversa quando Itamar Schulle optou por você?

Foi dois ou três dias antes do jogo. Na verdade, no primeiro amistoso que teve oficial o Itamar me chamou e disse que ia me levar para o jogo. Na época, eu tinha negociado com o Corinthians, mas eu falei a ele que estava quase tudo certo para ir embora, mas ele falou que ia me utilizar. No amistoso, quem iniciou foi o Luiz (Fernando). Eu acabei entrando só no finalzinho do segundo tempo. Já na semana do jogo de estreia no Pernambucano, o Renato, que é o preparador de goleiros, me chamou e disse que o Itamar falou que talvez poderia começar jogando comigo. Eu vinha de uma sequência de amistosos, fazendo o trabalho dele. Quando foi na sexta-feira antes de estrear, o Renato me falou que o Itamar me confirmou no time titular, que eu tinha a total confiança dele e que eu devia aproveitar a oportunidade. 

Negociação com o Corinthians?

Sim, foi bem no final de 2019 para a virada de janeiro. Estava para ir para o sub-23 do Corinthians, mas a negociação não andou e fiquei no Santa Cruz.

E qual a sensação no momento em que foi confirmado que Itamar iria utilizar você no jogo contra o Petrolina? Bateu um nervosismo?

Não, cara. Eu fiquei muito feliz pela oportunidade. As pessoas sempre me perguntam se eu fiquei nervoso, com medo.. Cara, eu trabalhei tanto para isso. Tudo que eu fiz em toda carreira, todo meu tempo na base foi em busca de uma chance no profissional. Então quando fiquei sabendo que ia jogar, foi só motivo de felicidade e orgulho. Procurei ficar o mais tranquilo possível para fazer um bom papel no jogo. 

Queria voltar um pouco no tempo e falar da tua trajetória. Natural de Cuiabá, no Mato Grosso, como foi teu início no futebol?

Comecei tarde no futebol, de 15 para 16 anos. Não joguei em nenhuma equipe de Cuiabá, só treinei lá por um tempo. Depois fui para o Atlético Goianiense em Goiânia, onde iniciei na base. De lá fui para o Bahia, depois passei no Vitória. Fiz teste nas categorias de base do Fluminense, depois fui para o Guarani-SP, onde passei um período lá. Depois fui emprestado para a Jacuipense, inclusive, nosso adversário da segunda-feira. Depois retornei para o Guarani e acabei saindo para vir ao Santa Cruz.

E a chegada no Santa Cruz?

Cheguei no Santa Cruz em junho de 2018 para o sub-20. Na verdade, me falaram que eu vinha para o sub-23, mas quando cheguei, tinha o Ricardo Ernesto que era do sub-23 e estava no profissional, e ele começou a jogar. Tinha o Lucas que era o segundo goleiro e eu acabei nem sendo relacionado para o Brasileiro de Aspirantes de 2018. Só fui jogar o último jogo, onde o time já estava eliminado. Terminei o ano jogando o Pernambucano e a Copa do Nordeste, ambos sub-20. Naquela participação no Nordestão fui eleito o melhor goleiro. A gente ainda chegou nas finais do Pernambucano sub-20.

No ano seguinte, joguei o Brasileiro de Aspirantes. Não tinha mais idade para jogar as competições sub-20. E novamente eu não iniciei jogando os Aspirantes. Quem começou foi o Renan Rinaldi, que até foi contratado. Foi ele quem jogou os quatro primeiros jogos, depois não jogou mais. Aí eu terminei jogando os quatro jogos que faltavam. A gente não se classificou também. Depois joguei a Copa Pernambuco, onde nos sagramos campeões. Logo após, subi para o profissional para ter a oportunidade que o Itamar me deu. 

Quais foram as maiores dificuldades para chegar até aqui? 

Não só no começo como até hoje a maior dificuldade é ficar longe da família. A gente sai de casa, fica longe da família e das pessoas que você gosta para ficar perto de pessoas que você não conhece, não sabe. Além disso, tem a dificuldade própria do futebol, com pessoas tentando te colocar para baixo, te desanimar. Então o cara tem que passar por cima de tudo isso, vencer muitos obstáculos, passar por muita coisa para conseguir vencer. Passei por algumas dificuldades em alguns clubes, mas é um assunto que prefiro não falar. 

Teu pai não queria muito que você fosse jogador. Como foi essa história?

É, meu pai não gostava muito não. Ele não queria. Tive uma infância onde eu trabalhava muito. Meu pai veio de uma cultura que desde os sete anos de idade ele já trabalhava, ajudando em casa. Era a cultura dele e eu com sete/oito anos já estava na rua entregando panfletos, trabalhando já. Então eu não tinha tempo. Essa parte da minha vida era trabalho e escola. Nunca fui aquela criança que tinha muito tempo para brincar. Meu pai não gostava que eu jogasse bola. Então eu cresci trabalhando, ajudando  ele, até aí ele não apoiava eu ser jogador. Tinha também a questão da religião, que ele dizia que o futebol não era para ninguém. Mas quando eu fui crescendo, ele foi vendo que era uma coisa que queria muito e ele passou a me apoiar. Hoje o cara que mais me dá apoio e me incentiva é o meu pai. 

Teve algum momento na sua vida em que você pensou em desistir?

A gente pensa sim. Isso é normal. Todo jogador já pensou isso, ainda mais eu que comecei tarde, não tive o privilégio de fazer a base numa equipe onde o moleque chega com oito ou nove anos e fica até os 20 anos. Comecei tarde, rodei muito e por rodar muito me fez pensar muitas vezes em desistir. Quando vim para o Santa, estava em casa há quatro meses parado, sem equipe. Foi um momento muito difícil para mim. Pensei sinceramente em desistir. Era meu último ano de sub-20, de categoria de base. Mas foi aí que apareceu a oportunidade de vir para cá e graças a Deus deu tudo certo.

Voltando para o presente, teve algum momento de dificuldade neste ano?

Eu sempre me cobrei muito. Entendo que a torcida tem total razão de cobrar. Eles são apaixonados pelo clube e são pessoas que deixam de colocar um prato de comida dentro de casa para apoiar o clube. Então eu entendo o motivo da torcida ter ficado chateada quando eu vim de duas decisões por pênaltis onde eu não consegui pegar nenhuma (Atlético Goianiense e Confiança). Fiquei chateado, incomodado com aquilo, até porque se eu não me sentisse assim, eu não estava nem aí. Mas eu trabalhei bastante e sabia que ia dar a volta por cima nessa questão. Graças a Deus logo em seguida contra o Náutico pude defender duas cobranças. Mas sim, aquele momento foi o que fiquei mais incomodado. Não vou dizer que fiquei abalado porque sabia do meu potencial, e sei do que posso fazer ainda pelo clube. Mas foi um momento que me deixou incomodado por esse aspecto de não ter podido ajudar o meu clube numa disputa de pênaltis. 

Quem é a tua inspiração como goleiro?

Na atualidade, os goleiros que estão jogando me inspiro muito no Neuer, no Ter Stegen e no Alisson. São os três melhores goleiros da atualidade para mim. A escola alemã e a brasileira. 

E no Brasil?

O futebol brasileiro tem muito goleiro bom. Então você consegue tirar um pouquinho de cada. Se você olhar na Série A, todos os goleiros são de qualidade. Na B, na C, tem goleiros de qualidade. Então o futebol brasileiro tem muito goleiro de ótimo nível. Para nomear um, fica meio difícil. Acho que a gente pode pegar um pouquinho de cada um para evoluir mais ainda.

Tem algum tipo de relação com os goleiros rivais (Luan Polli, Maílson ou Jefferson)?

Luan Polli e Maílson não, mas com o Jefferson sim. Às vezes a gente troca uma ideia no Instagram. Comentamos o storie do outro, sempre nos falamos. Não é uma relação muito próxima, mas é uma relação de respeito, de um torcendo pelo outro. 

As três defesas mais difíceis na carreira?

Eu vou na defesa contra o Botafogo-PB na Copa do Nordeste, numa jogada no segundo tempo onde o adversário cruzou e teve uma cabeçada que quicou no chão e eu tirei a bola quase em cima da linha. No final, Jeremias fez dois gols e matou o jogo. Vou também numa contra o Salgueiro, na primeira fase do Pernambucano, no final do jogo. E a última foi nesse último jogo contra o Manaus, onde o cara deu um chute de fora da área, uma bola muito difícil porque veio saindo e eu consegui fazer a defesa.  

Por fim, qual as metas no Santa Cruz e na carreira?

É o começo de um sonho. Eu quero marcar meu nome no clube, quero subir o Santa Cruz para Série B e deixar ele onde ele merece. Quero chegar na Seleção Brasileira, então isso é só o começo de um grande sonho. 

 

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