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Sérias contusões, ameaças e final de carreira em Hong Kong, veja como Ticão transformou sua vida e ajuda outros futuros atletas

Ex-volante foi bicampeão pelo Sport, teve passagem no Náutico e, hoje, comanda um trabalho de capacitação mental de atletas em Curitiba

Marcelo Cavalcante
Marcelo Cavalcante
Publicado em 25/07/2021 às 8:00
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Ticão/Divulgação
Ao encerrar a carreira, Ticão tocou a vida atuando como coach de atletas do futebol - FOTO: Ticão/Divulgação
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Carlos Bertoldi, mais conhecido como Ticão, chegou no futebol pernambucano em 2006. Desembarcou na Ilha do Retiro ao lado de um pacote de jogadores liberados pelo Athlético-PR para o Leão. Ao lado dele, também chegaram Geraldo, Wellington, Durval... Era um volante franzino, mas não menos valente. Raça, determinação e liderança eram suas características, mesmo jovem. Com a camisa do Leão, foi bicampeão pernambucano. Ainda esteve no Náutico, onde não foi campeão, mas atuou em 60 jogos e ajudou o time a se manter na elite do futebol brasileiro. Ticão foi um dos raros casos de atletas que planejou o seu final de carreira. Mas ele foi além. Hoje, aos 36 anos, Ticão trabalha a formação de jogadores de futebol não apenas na questão técnica e física, mas principalmente mental.
Atuando como um coach esportivo, o ex-volante mantém o projeto Profissão jogador, que já conta com 1.300 alunos num curso online. Fazendo um apanhado das redes sociais, são 700 mil seguidores recebendo dicas importantes para ser um atleta profissional.

"Passamos mensagens importantes para que o atleta ganhe mais confiança, saiba lidar com a crítica, a cobrança, a pressão. Muitos atletas surgem mostrando qualidade, no entanto, a pressão e algumas circunstâncias atrapalham o desenvolvimento. Eles sentem medo, criam gatilhos mentais que atrapalham a utilização desse talento. E quando isso acontece, as pessoas dizem logo que ele está na noite. E perde-se o jogador. Eu atendo muitos atletas que vivem situações que vivi no início da carreira", conta Ticão. Em Curitiba, onde reside, Ticão já vive a expectativa da inauguração do Centro de Treinamento. "Está previsto para acontecer em setembro. Por enquanto, as aulas são em quadras alugadas", explicou.

Em campo, Ticão fazia a linha de volante que saía para o jogo, mas não perdia a viagem na marcação. Chegava junto. Nunca foi desleal. Mas era daqueles que marcava duro, não dava brechas. Era guerreiro até o último minuto. Fora de campo, de fala tranquila, Ticão integrava o grupo dos Atletas de Cristo. O seu trabalho de conscientização de atletas é baseado na mentalidade cristã. "A mentalidade de Jesus Cristo é poderosíssima. O que eu falo, ensino é baseada nesse pensamento. Quando a gente tem a forma de relacionar com Jesus, com a construção da mentalidade, você vira um homem com constância, com sabedoria, atitudes e comportamentos excelentes. Não é a questão mística, espiritual. É a mentalidade que trabalhamos. A forma como cristo pensava faz muita parte do nosso trabalho e diferença nas nossas vidas", diz.

Mas para chegar a conscientização e a capacidade de transformar a vida das pessoas, Ticão viveu situações que revelaram para ele mesmo a sua força interior. Ainda no Sport, sofreu uma séria contusão no calcanhar que o fez sair dos gramados durante seis meses. Após retornar aos jogos, quebrou um braço. Mais dias no DM. Tempos depois de recuperação, foi a vez do outro braço. Mas seguia de cabeça erguida. "Contusões sérias são difíceis, mas é um ensinamento. Aprendemos a lidar com paciência, a criar novos dispositivos mentais. Saímos delas mais forte como pessoa", analisa.

Depois da passagem pelo futebol pernambucano, ele perambulou pelo Brasil afora. Foi para o Ituano para a disputa do Paulistão. Em seguida, após romper contrato com o seu clube de origem, o Athlético-PR, se transferiu para o Fortaleza e, em seguida, Novo Hamburgo-RS. De lá, se transferiu para o Olimpiakos Hulles, da Grécia, onde diz que viveu uma verdadeira aventura. "O presidente foi preso acusado de maquinar resultados dos jogos. Então, o time foi rebaixado para a 3ª Divisão. Eu tinha contrato de três anos. Mas fiquei apenas sete meses. Pedi que me pagassem o que tinha direito, eles não quiseram. Sofri ameaças. Então, acabei saindo de lá fugido", conta.

A peregrinação e angústia de Ticão não ficaram por aí. De volta ao futebol brasileiro, acertou com o Brasil-RS, mas só disputou o Gauchão. Até que aceitou proposta para jogar no South China, de Hong Kong. "Fiquei dois anos e fui campeão da liga e de duas copas. Foi um período muito bom. Mas o presidente também teve problemas com a justiça. Os brasileiros que estavam lá foram embora. Então voltei para jogar pela Luverdense".

Foi quando Ticão sofreu uma grave lesão no quadril. Foi obrigado a se submeter a uma cirurgia, Um ano de recuperação.  Em 2016, decidiu pendurar as chuteiras, aos 30 anos. Como se não bastasse, enfrentou problemas no esôfago. Tudo isso o fez perder oito quilos, mas teve tempo para se dedicar aos estudos da mente humana, dos comportamento das pessoas, do gerenciamento de crises e tantos outros aprendizados sobre a vida que deram elementos para planejar uma retomada na sua vida.

O Yuen long, também de Hong Kong, mesmo sabendo de sua situação, fez uma proposta para que Ticão voltasse a jogar. Ele enxergou naquele momento que a proposta era a plataforma ideia para voltar a jogar futebol por mais cinco anos e ter uma vida estruturada após a aposentadoria definitiva. "Retornei aos gramados e, depois,  ainda recebi uma proposta melhor do Southern District, clube bem estruturado, que me deu boas condições. Deu tudo certo e aos 35 anos eu encerrei definitivamente a minha carreira", afirma Ticão.

Com a formação em coach e toda a experiência vivida no futebol, não seria difícil para Ticão levar a vida para mexer no emocional de outros atletas. "A seleção brasileira, por exemplo, vai demorar a conquistar um título porque os jogadores não têm a mesma estrutura emocional do que os europeus. Antes, o Brasil tinha ídolos que brigavam entre si porque cada um acreditava mais em si do que no outro. Hoje, a seleção não tem uma questão mental para ganhar. Tem apenas Neymar que se expõe e que chama a responsabilidade. Os demais ficam à margem, jogam em torno dele e para ele", avalia. "Minha visão de coach é de transformação é de dentro para fora, não é de pressa pelo resultado. Os clubes não tem o trabalho emocional e mental que se conecta com o atleta. É só o físico que importa", completa.

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