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Maduro quer reduzir sua dependência do petróleo com ajuda da mineração chinesa

11 / ago
Publicado por Leonardo Spinelli às 16:30

Presidente venezuelano Nicolás Maduro chega ao Congresso com a esposa Cilia Flores (E) e a líder da toda-poderosa Assembleia Constituinte, Delcy Rodriguez (D). Foto: AFP / Ronaldo SCHEMIDT

Num momento em que a desconfiança mundial rem relação à Venezuela aumenta e empresas e investidores retiram suas aplicações do país, a China mantém seu interesse em se manter parceira, mesmo que com um pé atrás. Em artigo dos analistas para América Latina do think thank americano The Dialogue, Margaret Myers e Ricardo Barrios, mostram que duas grandes companhias chinesas do setor de mineração assinaram acordos milionários com o objstivo de revitalizar a área de exploração de carvão no páis de Nicolás Maduro. A intenção do regime é diversificar sua dependência econômica do petróleo.

Os contratos foram revelados em julho durante a sessão plenária do Conselho Econômico Nacional da Venezuela. O primero deles, no valor de US$ 400 milhões, prevê a criação de uma joint venture entre a Corporación Venezolana de Minería (CVM) as chinesas CAMCE e Yankuang Group em parceria com a colombiana Inter-American Coal. Esse contrato prevê a reestruturação da parte de mineração de carvão da CVM e de operações portuárias.

A CAMCE, uma afiliada de engneharia da estatal China National Machinery Industri Corporation (SINOMACH) e o Yankuang Group, uma companhia de minério sediada em Shandong, também investirão US$ 180 milhões para desenvolver uma indústria de exploração de níquel.
Myers e Barrios salientam que a China vem permanentemente ganhado uma base de apoio na Venezuela ao longo dos anos, emprestando e investindo dinheiro no país caribenho. Os analistas citam dados do Inter-American Dialogue e da Global Economic Governance Initiative China-Latin America para assegurar que a nação venezuelana recebeu mais de US$ 55 bilhões de bancos estatais chineses para projetos ligados ao setor energético desde o ano de 2007.

O Brasil, no entanto, ainda aparece como o principal foco dos investimentos chineses no continente latino americano. De acordo com um relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (http://cebc.org.br/sites/default/files/investimentoschineses14-15_portugues.pdf), foi contabilizado, entre 2007 e 2013, um montante de US$ 56,5 bilhões em investimentos da China anunciados no País, dos quais US$ 28,3 bilhões foram confirmados. Em 2014, o Brasil recebeu US$ 730 milhões de acordo com o relatório.

PÉ ATRÁS

Apesar dos pesados investimentos naquele país, isso não significa que os chineses confiam plenamente no regime de Nicolás Maduro. Operando na Venezuela por muitos anos, companhias chineses estão cientes dos riscos e desafios impostos pelo governo. Tanto a CAMCE, quanto a Yankuang, observam os analistas, encontraram atrasos no Arco de Mineração de Orinoco, por exemplo, onde operações ilegais travaram progressos. Outras, como Baoji Oilfield Machinery Company, suspenderam temporariamente suas operações devido a preocupações com a segurança.

Os analistas consideram, no entanto, que houve uma queda dos financiamentos estatais chineses na Venezuela desde 2013, o que poderia sugerir uma preocupação crescente por parte dos bancos estatais chineses em relação ao país sulamericano. Mas as empresas estatais da China e até mesmo as privadas, ainda mantém seu apetite para o risco na Venezuela, obseravam.

O mesmo não acontece com empresas de outros países. Depois que os Estados Unidos passaram a anunciar sanções econômicas a políticos ligados à polêmica Assembleia Constituinte pró-Maduro, que vai comandar o país pelos próximos dois anos, o banco Credit Suisse, por exemplo, impediu, no dia 10 de agosto, seus operadores de negociarem alguns títulos do governo venezuelano e exigiu que outras transações ligadas à Venezuela passem por uma revisão especial para risco de reputação.

O banco também proibiu transações com contrapartes controladas pelo governo ou entidades privadas venezuelanas, a menos que seja explicitamente aprovado pelo escritório de risco de reputação do banco. O Credit Suisse não foi o único. A Aerolíneas Argentinas decidiu novamente cancelar seu voo para Caracas neste sábado (11), como tinha feito na semana passada, devido a “questões operacionais de segurança”.

O apoio-chave é o da China, que tem investimentos de mais de US$ 60 bilhões e quem dá créditos em troca de petróleo e concessões de mineração”

Anna Ayuso, pesquisadora para América Latina do centro de reflexão CIDOB, com sede em Barcelona

Essa foi a segunda semana seguida em que a companhia cancela esse voo pelo mesmo motivo. Apesar disso, “a rota continua existindo e está operante”, disse à AFP um porta-voz da empresa ao indicar que “a situação será avaliada semana a semana”. “Continuamos monitorando de perto a situação a fim de determinar como vai se manter nosso serviço a Caracas”, diz um comunicado.
Segundo uma fonte da empresa, as razões operacionais se devem à falta de insumos no aeroporto de Caracas, de reposições de manutenção, do combustível necessário para a operação e de alimentos para a tripulação”. Em abril, a General Motors (GM) fechou suas operações na Venezuela, demitindo 2.678 funcionários depois de o governo de Maduro confiscar uma de suas fábricas no país.

PARCEIROS

Politicamente, Caracas recebe o importante apoio de China e Rússia, dois países tradicionalmente opostos a apoiar sanções internacionais, com capacidade de veto no Conselho de Segurança da ONU. Os dois têm “interesses financeiros e estratégicos” na Venezuela, relembra Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano em Washington.

Com relações estreitas sobretudo no governo de Chávez (1998-2013), Pequim e Moscou fizeram grandes investimentos no setor petroleiro venezuelano. Além disso, desde 2006, quando os Estados Unidos proibiram a venda e a transferência de armamento e tecnologia militar americana para a Venezuela, Caracas recorreu à China e à Rússia.

A Rússia, cujo presidente Vladimir Putin considera a Venezuela um “sócio estratégico fundamental”, criticou a oposição venezuelana por “perturbar” as eleições da Assembleia Constituinte, impulsionadas por Maduro para redigir uma nova Carta Magna, mas criticadas pela oposição como uma tentativa de instaurar uma “ditadura comunista”.

“O apoio-chave é o da China, que tem investimentos de mais de US$ 60 bilhões e quem dá créditos em troca de petróleo e concessões de mineração”, disse Anna Ayuso à AFP, pesquisadora para América Latina do centro de reflexão CIDOB, com sede em Barcelona. “Hoje quem garante os seus investimentos é Maduro”, assinala.

Outro aliado do presidente é o Irã, que mostrou o seu apoio à Constituinte, ainda que os laços políticos não sejam tão fortes como nos governos de Chávez e Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013).

A União Europeia, por sua vez, anunciou que seus 28 Estados-membros não reconhecerão a Constituinte, após uma reunião em Bruxelas em que não se chegou a um consenso, evitando debater possíveis sanções “seletivas” contra os responsáveis pela crise, promovidas principalmente pela Espanha.


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