Assassinato

Novo laudo em corpo de Adriano da Nóbrega não aponta tortura

O documento também indica que os tiros que mataram o ex-pm foram dados a mais de 1,5 metros de distância

Estadão Conteúdo
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Publicado em 22/04/2020 às 7:14
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Tiros que mataram Adriano da Nóbrega foram dados a mais de 1,5 m de distância, de acordo com laudo feito no Rio - FOTO: Divulgação
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RIO - Um novo laudo pericial, agora produzido pelo Instituto Médico-Legal (IML) do Rio, no corpo de Adriano da Nóbrega, morto por policiais militares na Bahia em fevereiro, mostra que o ex-PM foi baleado a pelo menos um metro e meio de distância - confirmando a análise do IML baiano - , tinha nas costelas fraturas compatíveis com tiros e não apresentava "lesões violentas" - que poderiam indicar tortura.

Obtido pela Rede Globo, o documento afirma ainda que Adriano, um miliciano foragido do Rio havia mais de um ano, pode ter morrido por ferimentos no coração e pulmão, provocados por dois tiros. Devido ao estado de decomposição do cadáver, é impossível determinar com certeza o que causou a morte, afirmaram os peritos.

Nóbrega era apontado como um dos chefes do Escritório do Crime, uma milícia que domina as comunidades da Muzema e de Rio das Pedras, também especializada em homicídios por encomenda. Ao bando, era ligado Ronnie Lessa, um ex-PM preso sob acusação de ter matado a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, em março de 2018. A mãe de Nóbrega, Raimunda Veras Magalhães, e a ex-mulher Danielle Mendonça da Costa foram assessoras do hoje senador Flavio Bolsonaro (Republicanos-RJ) quando era deputado estadual no Rio. Na época, supostamente funcionava no gabinete do parlamentar o esquema da "rachadinha" - contratação de funcionários para que devolvessem seus salários ao deputado. Flavio nega que isso ocorresse.

Adriano Magalhães da Nóbrega


Ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como líder do grupo miliciano Escritório do Crime Foto: Polícia Civil
Segundo o laudo, um projétil atingiu Nóbrega no tórax à esquerda, de baixo para cima, e voltou a entrar no pescoço, saindo por trás. Outro tiro foi dado de cima para baixo, na região da clavícula direita. Os peritos afirmaram não haver marcas de lesões violentas nem na região sexual, mãos, pés e boca. Os disparos, de acordo com a perícia, eram compatíveis com carabina IA2 calibre 556 e com fuzil 7.62. As armas seriam usadas pela PM baiana. A distãncia dos tiros não caracterizariam disparos à queima-roupa. O corpo apresentava lesão na região frontal (testa) produzida ainda em vida. Alegando desconhecer "a dinâmica do evento", os peritos não puderam confirmar se uma queimadura na região torácica foi provocada pelo cano quente de uma arma de fogo.

Proximidade


Por indicação de Flávio, Nóbrega recebeu a Medalha Tiradentes, mais alta homenagem do Legislativo fluminense, em 2005. Estava na cadeia,acusado de um homicídio, mas acabou solto e livrou-se da acusação. O presidente Bolsonaro, quando deputado federal, defendeu o policial pela morte, afirmando que matara um traficante. Já na Presidência, afirmou que ao ser homenageado por seu filho, Nóbrega era "um herói".

Quando Nóbrega foi morto, Flavio protestou. Afirmou, como o pai, que o ex-PM foi torturado e morto em uma operação de "queima de arquivo", supostamente promovida por um governo do PT, o da Bahia. O governador Rui Costa repudiou as acusações em termos duros. Flávio até exibiu na internet vídeo com imagens de um corpo supostamente de Adriano com o que disse ser marcas de tortura. Mas não era possível dizer com certeza que o corpo era do ex-PM. Os ferimentos não eram compatíveis com os do cadáver do ex-oficial, e o local da filmagem não era o IML da Bahia, segundo autoridades locais.

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