racismo

Jovem negro é imobilizado e acusado de furto ao tentar trocar presente em shopping no Rio

Matheus Fernandes foi ao shopping para trocar um relógio que havia comprado para o Dia dos Pais, comemorado no próximo domingo (9). Enquanto aguardava o atendimento em um balcão dentro da Renner, foi abordado por dois homens

Alice Albuquerque Estadão Conteúdo
Alice Albuquerque
Estadão Conteúdo
Publicado em 07/08/2020 às 21:05
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Armados, os dois homens obrigaram o jovem a sair da loja e seguir até uma escadaria, onde ele foi ameaçado e teve que entregar a carteira com documentos - FOTO: REPRODUÇÃO/TWITTER
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O jovem negro Matheus Fernandes, de 18 anos, que trabalha como entregador de comida por aplicativo, foi rendido e ameaçado por dois homens que se identificaram como policiais enquanto aguardava atendimento numa unidade das Lojas Renner, dentro do Ilha Plaza Shopping, na Ilha do Governador (zona norte do Rio), na quinta-feira (6). Armados, os dois homens obrigaram Fernandes a sair da loja e seguir até uma escadaria, onde ele foi ameaçado e teve que entregar a carteira com documentos. Um segurança do shopping presenciou o episódio, mas não interferiu - segundo o shopping, porque os dois rapazes se identificaram como policiais. Após protestos dos clientes do shopping, Fernandes foi libertado e a dupla foi embora - segundo a vítima, levando seu cartão bancário.



Fernandes foi ao shopping para trocar um relógio que havia comprado para o Dia dos Pais, comemorado no próximo domingo (9). Enquanto aguardava o atendimento em um balcão dentro da Renner, foi abordado pela dupla. "Eles tiraram foto minha, e eu senti que tinha alguma coisa errada", contou o entregador em um vídeo divulgado pelas redes sociais. "Eles vieram falar que eu era suspeito de furto, porque estava com um relógio, mesmo tendo a etiqueta e a nota fiscal. Aí disseram que eu sou suspeito de furto, e começaram a me segurar, empurrar, balançar. Quando menos esperei, o rapaz da camiseta vermelha me deu uma banda, sacou a pistola pra cima de mim, botou a pistola aqui (aponta a cabeça), pensei que ele ia me matar. Eu comecei a gritar, para ver se alguém que me conhecia tomava alguma providência".


Imagens do entregador rendido pelos dois rapazes, sob o olhar de um segurança do shopping, foram gravadas e estão circulando pelas redes sociais.
Jovem negro é acusado de roubo ao trocar presente e imobilizado em shopping do Rio.

Em nota, as Lojas Renner afirmaram que "os agressores não integram o nosso quadro de colaboradores ou de prestadores de serviço" e que "estamos tomando as medidas necessárias para esclarecer o fato e buscando contato com o Matheus Fernandes para dar a ele o suporte necessário". A empresa afirmou ainda que pediu esclarecimentos ao shopping Ilha Plaza "para entender o que ocorreu".

A assessoria de imprensa do shopping afirmou que "os agressores não são funcionários do shopping tampouco funcionários da empresa de vigilância do shopping". Segundo a empresa, "o vigilante do Ilha Plaza (que aparece uniformizado no vídeo) atuou de forma a contornar pacificamente a situação a fim de preservar não apenas o cliente, como também todas as pessoas que lá se encontravam". O shopping afirma que, embora os dois agressores tenham se identificado como policiais, eles não foram identificados, e isso caberá à polícia.

O caso está sendo investigado pela 37ª DP (Ilha do Governador), onde a vítima prestaria depoimento ainda nesta sexta-feira. Agentes estão em busca de testemunhas e solicitaram imagens do circuito interno do shopping, para esclarecer o episódio, segundo a Polícia Civil. Outras diligências estão em andamento, diz a polícia.

À TV Globo a mãe de Fernandes afirmou que seu filho foi vítima de racismo: "Foi por causa da cor da pele. Não tem outra explicação. Eu não sou tão negra, então eu posso ir ao shopping, mexer em todas as roupas, posso provar as coisas de graça. Se ele está sozinho, ele não pode fazer nada disso. Foi o que aconteceu. Ele sozinho não pode? Ele vai ter que sempre estar com alguém do lado? Alguém branco?", questionou Alice Fernandes Bione.
Também à emissora, Fernandes afirmou que chorou muito após o episódio: "Acontece, mas não era para acontecer. Não era para acontecer. Eu chorei muito, muito".

Motoboy sofre ofensas racistas em condomínio de luxo

Mais um caso de racismo foi exposto nas redes sociais nessa quinta (6) e sexta-feira (7). Um vídeo feito no dia 31 de julho registrou o momento em que o morador de um condomínio de luxo em Valinhos, São Paulo, humilhou o motoboy negro. O morador do condomínio, que está de camisa azul, chamou o motoboy de "semianalfabeto" e "lixo".

No vídeo, o morador do condomínio, que é branco, alega que o motoboy não tem onde morar. "Você tem inveja disso aqui. Eu pedi para ele (o motoboy) sair fora daqui, e não saiu fora. Moleque, moleque, escuta aqui, você tem inveja disso aqui, rapaz. Você tem inveja dessas famílias aqui", diz, apontando para as casas e depois para o antebraço, mostrando a sua cor.

O entregador que estava usando máscara, diferente do morador do condomínio, respondeu com calma que pode ter a mesma coisa "que o senhor". "Quem te deu isso aqui? Foi seu pai?". Em seguida, o homem rebate: "Você nunca vai ter". Depois que o motoboy afirma que eles têm o mesmo nome, o morador do condomínio diz "você é um analfabeto, véio" e o chama de mentiroso.

A mãe do entregador publicou um desabafo no Facebook, "ninguém é melhor do que ninguém por ser rico ou ser branco". "Isso é racismo e é crime e esse entregador é meu filho um trabalhador honesto e que não precisa sentir inveja de um escroto como esse pois ele não é. Mesmo tendo dinheiro para comprar tudo o que quiser, jamais comprará a educação, o respeito, pois vem de berço e dinheiro não compra jamais".

Legislação

De acordo com o artigo 20 lei federal 7716/89, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou cor, "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional", a pena é de reclusão de dois a cinco anos.

De acordo com o parágrafo 3 artigo 140 do Decreto Lei nº 2.848 de 7 de dezembro de 1940, consiste em "Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro", o parágrafo 3 diz que "Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência", a pena é de reclusão de um a três anos e multa.

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