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Levantamento aponta que 63% dos brasileiros se sentem felizes; média caiu 14 pontos percentuais em 10 anos

O Brasil ocupa atualmente a 14ª posição no ranking dos mais felizes entre os 27 países que participaram da pesquisa

Mayra Cavalcanti
Mayra Cavalcanti
Publicado em 17/10/2020 às 10:00
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Realizado neste ano, já durante a pandemia do novo coronavírus, o levantamento mostra que o grau de felicidade dos entrevistados brasileiros reflete exatamente a média global, que é de 63% - FOTO: Foto: Pixabay
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A cirurgiã dentista Jéssica Ventura, de 28 anos, considera que felicidade tem a ver com equilíbrio, alimentação saudável, saúde física, mental e emocional. Está relacionada à "simplicidade da vida", e a direcionar o "olhar mais para dentro", como ela define. Jéssica faz parte do grupo de 63% dos brasileiros que se consideram felizes, dado do levantamento "Global Happiness 2020", realizado pela Ipsos, que apontou que o Brasil ocupa atualmente a 14ª posição no ranking dos mais felizes entre os 27 países que participaram da pesquisa.

Realizado neste ano, já durante a pandemia do novo coronavírus, o levantamento mostra que o grau de felicidade dos entrevistados brasileiros reflete exatamente a média global, que é de 63%. No País, 14% disseram se considerar "muito felizes", enquanto 49% responderam que são "razoavelmente felizes". A pesquisa também questionou sobre os motivos da felicidade. Os cinco principais apontados pelos brasileiros foram: minha saúde/bem-estar físico (68%), sentir que minha vida tem significado (62%), ter um bom emprego (61%), ter controle sobre minha vida (60%) e minha proteção e segurança pessoais (59%).

O professor da disciplina de "Felicidade" da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Bruno Severo Gomes, explica que a felicidade possui várias definições, e engloba diversos sentimentos, que vão desde um simples contentamento a uma alegria profunda. "Freud dizia que a felicidade é um problema individual, cada um deve buscar a sua. Se a gente for fazer uma releitura, pode até trocar o termo 'problema' por 'desafio'. A felicidade é um desafio individual e cada um deve buscar a sua. Porque o que é felicidade para mim, pode não ser para você", comenta.

Bruno Severo diz que o sentimento está também ligado à saúde integral e que muitas pessoas o confundem com sucesso, como se ele fosse um pré-requisito para que a pessoa se sinta feliz. "O primeiro passo rumo à felicidade é tomar uma decisão consciente de ser feliz. Praticar a gratidão e a solidariedade ajudam muito. Escolher-se uma pessoa otimista". No entanto, o professor alerta que é normal sentir tristeza ou raiva, por exemplo. "Ficamos esperando a felicidade, mas isso não quer dizer que você vai ser feliz o tempo todo. Ninguém vai ser. Para ser humano, precisamos viver todas as emoções. Ser humano tem raiva, fica triste, tem medo e sente nojo", acrescenta.

Segundo dados do levantamento "Global Happiness 2020", entre os anos de 2011 e 2020, o Brasil diminuiu 14 pontos percentuais na taxa de felicidade. Em 2011, 77% se declaravam felizes, chegando a 63% em 2020. Questionado sobre a queda, Bruno afirma que, durante os últimos anos, diversos fatores abalaram a saúde emocional, social, profissional e espiritual do brasileiro. "As pessoas vão percebendo que o que fazia elas felizes deixou de acontecer, deixou de estar presente. A felicidade está relacionada ao bem-estar".

Jéssica Ventura acredita que a felicidade está nas coisas simples, como ter o poder de se reinventar e ver as coisas em uma perspectiva diferente. "Temos dias bons e ruins, mas a felicidade é possível porque sempre vai haver algo que vai fazer você se sentir bem. O que me faz feliz e segura é meu relacionamento com Deus", conta. Para a jovem, é importante encontrar o equilíbrio. "Eu acho que a pandemia intensificou os sentimentos, tanto os positivos quanto os negativos, fazendo com que eu valorizasse os pequenos momentos. Na correria do dia a dia, a gente não conseguia perceber de fato como a gente se sentia", acrescenta.

Para o professor da UFPE, o isolamento social gerado pela pandemia do novo coronavírus deu a oportunidade de as pessoas desenvolverem o autoconhecimento. "Antes, quando não se aguentava, íamos bater perna na rua, para a praia, festas, casa dos amigos. Quando voltávamos para casa, pensávamos que tínhamos resposta para tudo aquilo que incomodava. Na realidade, estávamos fugindo de nós mesmos. Agora, na pandemia, sou 'obrigado' a conversar comigo mesmo", afirma. Bruno fala que a felicidade é o caminho, não o ponto final. "Não espere para ser feliz só quando você conseguir algo. Também não coloque a felicidade em pessoas e coisas. A felicidade é o caminho e está dentro de você".

A pesquisa da Ipsos mostra que os países com mais altos índices de felicidade em 2020 são a China (93%), Holanda (87%), Arábia Saudita (80%), França (78%) e Canadá (78%). Do outro lado, os países que aparecem entre os que têm o índice de felicidade mais baixo são Peru (32%), Chile (35%), Espanha (38%), Argentina (43%) e México (46%).

Uma experiência no Butão, país onde foi criada a Felicidade Interna Bruta (FIB)

A jornalista e escritora Natália Fontes Garcia lança, ainda neste mês de outubro, o livro "Sete dias no Butão - o que aprendi sobre felicidade", um relato da viagem que ela fez em 2019 para o lugar considerado o "país da felicidade". Segundo ela, existem diferenças profundas entre a forma que os brasileiros e butaneses enxergam o sentimento. Enquanto no Butão a felicidade possui uma dimensão individual, mas também coletiva e sistêmica, no Brasil, existe a busca pelo que ela chama de metas "plastificadas".

"A grande dificuldade de alcançar a felicidade é porque, o que a gente chama de felicidade, no fundo, não nos faz felizes. Corremos atrás de um sonho externo, de uma projeção. Mas a felicidade acontece, segundo o Butão, quando a gente tem um encaixe interno, se sente encaixado com quem somos", afirma Natália. A felicidade é algo tão valorizado no país asiático que lá existe o conceito da Felicidade Interna Bruta (FIB), índice criado como uma alternativa para o Produto Interno Bruto (PIB). "O FIB, ao invés de usar uma única dimensão, que é a do crescimento econômico, como acontece com o PIB, utiliza nove dimensões para falar do bem-estar", acrescenta.

Estas dimensões são: saúde, educação, bem-estar psicológico, vitalidade comunitária, bom uso do tempo, cultura, meio ambiente, governança, padrão de vida. "A primeira coisa é a coragem de quebrar um pouco do que vem formatado como felicidade. A segunda e entender que a felicidade tem muitas dimensões. Talvez não necessariamente as do FIB, mas as pessoas podem procurar as suas. Quando compreendemos que a vida tem essa complexidade, e a dividir o tempo para dar conta da diversidade da vida, eu acredito que isso vai criando uma condição de cultivar felicidade", declara Natália.

Saiba quando é a hora de procurar ajuda

Nem sempre é possível estar ou sentir-se feliz, mas como saber identificar quando a tristeza é patológica? A quem pedir ajuda nestes casos? A psicóloga Renata Nascimento comenta que felicidade e tristeza são sensações temporárias, que se intercalam de acordo com os momentos que vivemos. "Elas se revezam e são importantes esses contrapontos. Só temos noção de felicidade porque vivenciamos a tristeza. Então, é normal, em situações de perda ou de luto, por exemplo, demonstrarmos esta tristeza", declara.

Ela alerta, no entanto, para quando a tristeza perpassa os dias, muitas vezes sem uma motivação específica, como a morte de um ente querido. "As atividades que davam prazer não despertam mais tanto interesse. Essa tristeza vai mexer no ciclo de alimentação, de sono, das atividades de trabalho e de lazer, trazendo uma sensação de desesperança. Neste momento de tristeza permanente é a hora de ligar o alerta para reconhecer uma possível situação patológica e buscar ajuda", explica.

De acordo com a psicóloga, perdas, mudanças e a insegurança podem motivar o surgimento da tristeza. "A pandemia da covid-19 é um grande cenário de como a tristeza pode estar presente na vida das pessoas", completa. Renata aconselha que, caso a pessoa sinta alguns dos sinais de uma tristeza mais duradoura, com alterações dos padrões de sono e alimentação, procure ajuda de um profissional de saúde. No SUS, é possível buscar atendimentos nos postos de saúde e no Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

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