Whisky

Checamos: Recife é o maior consumidor de whisky do mundo?

A afirmação é publicizada desde, pelo menos, 2009, quando o título começou a estampar matérias de jornais, posts em blogs e o discurso dos recifenses

Débora Oliveira
Débora Oliveira
Publicado em 30/10/2020 às 11:45
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O Whisky é consumido no Recife misturado à água de coco. - FOTO: Unsplash/Reprodução
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Matéria produzida pelo projeto Confere.ai em parceria com o Jornal do Commercio. - confere.ai

A cultura etílica recifense também não escapou de proposições megalomaníacas. Quem nunca ouviu, numa mesa de bar, que Recife é o maior consumidor de whisky do mundo? Fomos checar essa afirmação que sustenta publicações e argumentos desde, pelo menos, 2009, quando o título começou a estampar matérias de jornais, posts em blogs e o discurso dos recifenses. Existe até uma página no Facebook em homenagem ao “título” da cidade, intitulada Recife: capital nacional do Whisky.

Como checamos

Buscamos por “maior consumidor de whisky do mundo” em alguns dos principais mecanismos de pesquisa: Google, Bing e Firefox. Dentre as publicações que atribuem o título a Recife, todas referenciam a revista inglesa especializada no assunto The Whisky Magazine. Segundo a maioria das publicações, inclusive em jornais, o Recife deteria o maior consumo per capita da bebida em todo o mundo.

O artigo da 78ª edição da The Whisky Magazine, no entanto, apenas cita que Recife é “conhecida por ter o maior consumo per capita de uísque no mundo”, sem nenhuma fonte específica. Além disso, a publicação detalha os números da Scotch Whisky Association (SWA), organização que representa a indústria de uísque escocês, referentes à exportação do uísque blended, o tipo de destilado que pode ser feito com misturas diversas (grãos, malte, etc) em destilarias diferentes. Existem ainda outros tipos, como o single malt, que é destilado em um único local.

 

Reprodução/Whisky Magazine
Print do artigo publicado pela revista inglesa em 2009 - Reprodução/Whisky Magazine

Fomos em busca dos relatórios da SWA. Segundo o ranking de 2019, o Brasil é o 9° maior mercado importador de uísques em volume. O líder mundial é a França, seguido por outros países europeus. Os dados não são discriminados por cidade, no entanto. Não há relatórios públicos da SWA sobre a posição do Brasil em 2009.

Alguns anos à frente, em 2014, uma reportagem da Quartz, com dados da empresa global de pesquisa Euromonitor e do Banco Mundial, atribuem também à França o maior consumo de Whisky no mundo, com 2,1 litros per capita. Ao Confere.ai, a Euromonitor informou que não mensura os dados de cidades brasileiras em sua metodologia de pesquisa, apenas o país como um todo. Os relatórios anuais internacionais das empresas Diageo e Beam Suntory, que detém as principais marcas de whisky vendidas no Brasil, também não discriminam o consumo por cidade. A Diageo informou, também, que não divulga dados de mercado sobre quais cidades brasileiras detém a maior venda de seus produtos. 

Portanto, a informação de que Recife seria o maior consumidor de whisky per capita no mundo não se sustenta por falta de dados públicos que comprovem a afirmação. Ainda que fosse à época da publicação na Whisky Magazine, atualmente, o dado não é divulgado pelas empresas citadas como fontes do artigo, nem metrificado pelas organizações que acompanham o consumo de Whisky a nível mundial. 

O primeiro produtor de Whisky do Nordeste

Sendo ou não o maior consumidor de Whisky do mundo, o recifense pode alegrar-se de ostentar o título de primeiro produtor do destilado no Nordeste. O achado é da tese “Yes, nós temos Coca-Cola: O ideal da fartura Norte-Americana na Mesa do Nordeste (1930 - 1964) ”, conduzida pelo gastrônomo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Frederico Toscano, que também aborda a chegada dos destilados à região.

Segundo o estudo, a primeira produção de Whisky do Nordeste aconteceu em Recife, no bairro do Pina, em um terreno onde hoje funciona o Shopping Riomar. O primeiro produtor foi um ex-combatente porto-riquenho chamado Antonio Navas, que chegou ao Recife na época da Segunda Guerra Mundial e casou com uma local.

“Ele tinha uma casa lá no Pina, onde começou uma fabricação própria de Whisky. Tinha até um nome: Siboney. Talvez tenha sido o primeiro Whisky fabricado efetivamente no Brasil. No Nordeste foi o primeiro. Ele não chegou a industrializar, era coisa de fundo de quintal, entre amigos”, conta o pesquisador.

Cheque você também

Buscar a fonte original de uma afirmação é um passo importante ao checar informações e, agora, você já sabe como fazer. Se quiser verificar a quantidade de características de desinformação em boatos sobre política, saúde e outros temas de relevância para a sociedade, você pode usar o Confere.ai, a primeira ferramenta de checagem automática do Nordeste. Basta copiar e colar um link e jogar no campo de busca da plataforma, que ela te responderá com um medidor de desinformação. Assim, você evitará repassar mentiras por aí. Acesse a ferramenta por este link.

Tutorial Confere

 

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