série especial

Recife e suas ilhas de calor

No segundo dia da série de reportagens sobre o verde urbano do Recife, o JC mostra a relação entre vegetação e temperatura. Amanhã, no último dia, as ideias para expandir e qualificar as áreas arborizadas da cidade.

Diogo Menezes
Diogo Menezes
Publicado em 19/03/2012 às 7:21
Foto: Arnaldo Carvalho/JC Imagem
No segundo dia da série de reportagens sobre o verde urbano do Recife, o JC mostra a relação entre vegetação e temperatura. Amanhã, no último dia, as ideias para expandir e qualificar as áreas arborizadas da cidade. - FOTO: Foto: Arnaldo Carvalho/JC Imagem
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A ligação é direta. Quanto mais verde, mais ameno o clima. Imagens de satélite utilizadas para medir a temperatura do Recife mostram que a urbanização esquentou a cidade. E criou as ilhas de calor, grandes áreas impermeabilizadas e com pouca cobertura vegetal. Traduzindo: empreendimentos, galpões, extensas avenidas, fábricas, conjuntos residenciais. Nesses locais, a temperatura pode chegar a mais de 30 graus. Associado ao estudo do verde urbano, realizado pela Prefeitura do Recife, o termômetro da cidade revela que uma mesma área pode abrigar lado a lado grandes pontos de calor e, no sentido inverso, ilhas de amenidade. A principal variável? A maior ou menor quantidade de arborização do local.

Para pintar de vermelho as áreas mais quentes do Recife foram usadas seis imagens de alta resolução, já que na hora em que as fotografias foram tiradas não havia nuvens no céu. Um dos pontos que mais chamam a atenção é o Aeroporto Internacional do Recife, no bairro do Ibura, na Zona Sul, sobretudo as pistas de decolagem e aterrissagem de aviões. É a parte mais quente do terminal aéreo, com o termômetro marcando acima de 28 graus e chegando a mais de 37 graus. A temperatura pode ser ainda maior, dependendo da hora em que foi aferida pela imagem de satélite.

A vizinha região de Boa Viagem revela um bairro partido ao meio. São duas áreas bem distintas, quando se leva em consideração a temperatura média. O que vai determinar as diferentes realidades é o padrão de ocupação de cada trecho. Na parte próxima ao Quartel da Aeronáutica, onde predominam prédios mais baixos, a temperatura na parte construída varia de 25 a 28 graus e nas áreas verdes, de 19 a 24 graus. Já na parte mais adensada, com edifícios mais altos, trecho localizado próximo ao Shopping Center Recife, a variação fica entre 26 e 31 graus.

De uma rua para outra e até na mesma avenida a temperatura pode aumentar ou cair vários graus, dependendo do que existe em volta. É o caso da Avenida Caxangá, na Zona Oeste da capital, uma ilha de calor que abriga duas áreas de amenidade: os trechos do Caxangá Golf Club e do Parque de Exposição do Cordeiro. O comerciante Valdomiro Ribeiro, 73 anos, proprietário de uma loja de móveis na via, diz que o calor é ainda maior porque o estabelecimento é coberto com telhas de alumínio. "Passo o dia com o ventilador em cima de mim. Além da quentura, tem a poeira e o barulho produzidos pelos carros. A sensação de calor é grande", comenta.

O professor Ruskin Freitas, do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco, ajuda a explicar porque o trânsito intenso na Caxangá contribui para aumentar a temperatura. "Os carros, além de gerar poluição, refletem o calor. Quando se fala em concentração urbana, não se pode considerar apenas prédios e pessoas, mas todos os elementos e atividades que gerem o aquecimento do ambiente", explica. Ele diz que, no movimento contrário, vento e sombra são dois fatores importantes para diminuir a temperatura. "Nesse sentido, o maior vilão das áreas muito adensadas não é exatamente a verticalização. Mas o fato de os prédios serem colados uns aos outros, formando paredões que impedem a passagem do vento, e terem poucas áreas de solo natural", observa o professor da UFPE.

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