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Rio+20: ONGs exibem tanque de guerra feito com pães no Santa Marta

Manifestação teve como intuito realizar um chamado simbólico para combater a violência, a pobreza e a fome

Allan Nascimento
Allan Nascimento
Publicado em 19/06/2012 às 18:33
Christophe Simon / AFP
Manifestação teve como intuito realizar um chamado simbólico para combater a violência, a pobreza e a fome - Christophe Simon / AFP
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Um tanque de guerra de tamanho real construído com centenas de pães apareceu nesta terça-feira (19) no morro Santa Marta, no Rio, em um chamado simbólico de ONGs e personalidades como o filósofo Noam Chomsky à cúpula Rio+20 para combater a violência, a pobreza e a fome.

"O pão é um símbolo de tudo o que as pessoas precisam: educação, justiça, meio ambiente", disse a jornalistas Holger Güssefeld, artista idealizador do projeto e presidente da organização alemã World Future Council, que juntamente à ONG Viva Rio e a Prefeitos pela Paz, exibiu o tanque na entrada da comunidade da zona sul do Rio, em frente a uma escola e a pequenos estabelecimentos comerciais da área.

O ato simbólico teve como objetivo exigir dos governantes que participam da Rio+20 a redução de 10% dos gastos militares para investimentos em saneamento básico, educação e para a erradicação da pobreza. Um abaixo-assinado, assinado por cerca de 30 personalidades internacionais, entre elas o filósofo norte-americano Noam Chomsky, foi apresentado à comunidade.

Os pães que formavam o tanque foram distribuídos aos moradores. "Os governos gastam muito em armamento. A gente já viu muita arma aqui, não precisamos de mais", afirmou a guia de turismo Verônica Moura, 28 anos, moradora do Santa Marta.

Para José Mário, 51 anos, presidente da Associação de Moradores da favela, é necessário mostrar aos governantes que existem coisas mais importantes do que material bélico. "Temos fome de educação, cultura lazer e moradia", disse.

Segundo ele, o saneamento básico do morro - o primeiro "reocupado" pela polícia, em 2008 - ainda está longe do ideal. "Há valas a céu aberto. Mas estamos caminhando. Diria que 65% da comunidade têm saneamento básico", disse.

O rapper Fiel fez uma breve apresentação cantando músicas sobre "a real do Santa Marta", momento que atraiu mais moradores. "Não queremos sair daqui, queremos melhorias", disse, em referência a um projeto do governo estadual de remover moradores de cerca de 50 casas em local de risco no topo do morro.

Tião Santos, coordenador da área de comunicação da ONG Viva Rio, declarou que o objetivo da iniciativa também é alertar os participantes da Rio+20 para o tráfico ilegal de armas no Brasil.

"O país movimenta 15 milhões de armas. Metade delas é ilegal, e a maioria está nas mãos de pessoas indevidas. São as armas leves que matam, dizimam jovens, principalmente das nossas comunidades", alertou. "Não existe sustentabilidade sem paz", completou, ao destruir simbolicamente um revólver com um martelo.

Gilson Fumaça, 34 anos, guia de turismo e morador do Santa Marta, ajudou a colocar os pães no tanque, às 4 da manhã desta terça-feira. "O motor é de carrinho de kart", explicou. Feito também com material reciclado, a obra será deslocada pela cidade, para eventos na Cúpula dos Povos e no Riocentro, zona oeste da cidade, onde ocorre a Rio+20.

"A indústria bélica tem grande poder sobre os governos. Para mim, isso é um problema moral, pois são mercadores da morte", declarou à AFP o belga Pol Heanna DHuyvetter, diretor da organização Prefeitos pela Paz, que representa 5 mil cidades do mundo todo.

Em meio à Rio+20, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) já havia alertado na semana passada que as armas de fogo e as munições não detonadas abandonadas nos conflitos são um dos aspectos mais violentos e pouco conhecidos da contaminação do planeta.

Em 2011, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), os gastos militares mundiais somaram 1,74 trilhão de dólares, quase o mesmo patamar atingido em 2010, uma estabilização atribuída à crise econômica.

Atualmente, os Estados Unidos lideram os gastos militares, seguidos pelos demais membros do Conselho de Segurança da ONU: China, França, Rússia, Reino Unido, que também são grandes produtores e exportadores de armas, segundo DHuyvetter.

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