Saúde

Substância contra o câncer não foi testada clinicamente e causa polêmica

USP diz que fosfoetanolamina não é medicamento

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 17/10/2015 às 9:44
Divulgação/USP Imagens
USP diz que fosfoetanolamina não é medicamento - FOTO: Divulgação/USP Imagens
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Nos últimos dias, uma substância química chamada fosfoetanolamina tem atraído a atenção dos brasileiros, especialmente daqueles que convivem com algum tipo de câncer. O interesse em conhecer o composto despontou depois que pacientes entraram na justiça para conseguir cápsulas da fosfoetanolamina, produzida pelo Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC/USP) e anunciada como cura para diversos tipos de tumores. A questão é que a substância, estudada desde o início da década de 1990, não é considerada medicamento, segundo comunicado divulgado nesta semana pela própria universidade. “Ela foi estudada na USP como um produto químico e não existe demonstração cabal de que tenha ação efetiva contra a doença”, afirma a instituição, em nota. 

A USP também deixa claro que não desenvolveu estudos clínicos controlados em humanos e que está verificando o possível envolvimento de docentes ou funcionários na difusão desse tipo de informação incorreta. A universidade ainda acrescenta que estuda a possibilidade de denunciar, ao Ministério Público, os profissionais que estão se beneficiando do desespero e da fragilidade das famílias e dos pacientes. 

De fato, não há registro e autorização de uso da fosfoetanolamina pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que também se posicionou sobre a polêmica ao alegar que tem recebido dezenas de questionamentos relacionados ao composto. Segundo a agência, nenhum processo de registro de medicamento foi apresentado para que a fosfoetanolamina possa ser considerada um medicamento. Uma nota técnica publicada pela Anvisa também reforça que não há nenhum protocolo de pesquisa sobre o produto – etapa que antecede o registro de qualquer medicamento. 

Em nota, a USP informa que a produção da fosfoetanolamina, por ser artesanal, não atende aos requisitos nacionais e internacionais para a fabricação de medicamentos.

“Essa molécula foi testada, in vitro, no nosso banco de linhagem de células tumorais que segue padrões americanos. Percebemos que, sozinha, a molécula tem boa atividade para matar as células tumorais in vitro”, diz a farmacêutica Maíra Pitta, uma das líderes do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica (Nupit) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela frisa que, antes de ser usada por humanos, qualquer substância precisa passar por ensaios clínicos capazes de avaliar a segurança e a toxicidade, o que ainda não aconteceu com a fosfoetanolamina. 

Também líder do Nupit, o professor do departamento de bioquímica da UFPE Moacyr Rêgo explica que a avaliação da toxicidade da molécula é necessária porque a substância também pode ser capaz de danificar células saudáveis, também presentes em pessoas com câncer. “Há casos em que ficamos esperançosos durante um estudo in vitro, realizado em laboratórios. Quando a pesquisa passa a ser feita com humanos, a realidade pode mudar se a substância não apresentar o resultado esperado.” 

Moacyr acrescenta que entende a expectativa das pessoas com câncer e seus familiares diante das notícias sobre a fosfoetanolamina. “Mas não podemos incentivar a administração de substâncias sem segurança e eficácia comprovadas. Há casos em que um composto pode oferecer efeito a curto prazo e não ser bom a longo prazo. Por isso, os ensaios clínicos são importantes”, conclui Moacyr. 

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Cápsulas de fosfoetanolamina. Reprodução do Youtube

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