EDUCAÇÃO

Cursinhos pré-vestibulares ajudam jovens a ingressar na universidade

Três pernambucanos contam suas histórias. Todos passaram por cursinhos gratuitos voltados para jovens de baixa renda

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 25/03/2018 às 7:34
Foto: Bobby Fabisak/  JC Imagem
Três pernambucanos contam suas histórias. Todos passaram por cursinhos gratuitos voltados para jovens de baixa renda - FOTO: Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
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Cursinhos pré-vestibulares ajudam jovens carentes a realizar o sonho de obter um diploma. Foi assim com a vereadora Marielle Franco, assassinada no dia 14, no Rio de Janeiro. Ela participou de um projeto na Maré, periferia carioca. No Recife, conheça a história de Érika, Ewerton e Douglas, que participaram de projetos semelhantes.

Sobrevivente das ruas

Érika Karine Farias, 37 anos, deu um olé na vida. Era forte candidata a virar estatística. Abandonou a escola no ensino fundamental. Fugiu de casa na adolescência para livrar-se da violência doméstica. Foi mãe solteira aos 14 anos. Morou na rua, cheirou cola, teve overdose, participou de “galeras”. Mas nunca abandonou o amor pelos livros. Hoje tem graduação e mestrado em história, é professora concursada da rede municipal de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, e cursa o 5º período de direito na Faculdade de Direito do Recife, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

“Fiz um esforço sobre-humano para sobreviver. É como o trecho daquela música de Cidade Negra, ‘Você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui’. Usei todo tipo de drogas, sofri estupro, roubei, me defendi na mão e na bala. Mas me considero uma privilegiada pois tive muita gente pra me ajudar”, afirma Érika.

O Vestibular Cidadão, projeto de extensão da UFPE que existe há duas décadas, foi uma das ‘salvações’ de Érika. O cursinho pré-vestibular oferece aulas para jovens carentes egressos de escolas públicas. Funciona na Faculdade de Direito do Recife, na Boa Vista, área central da capital, com professores voluntários. Mais de 3 mil jovens já passaram pelo programa. Hoje está prevista uma seleção com 1,5 mil candidatos para 150 vagas.

“Quando meu filho tinha quatro anos e me vi no espelho com 47 quilos, decidi que iria terminar os estudos. Trabalhei como garçonete e empregada doméstica, vendi esmalte na Rua Tobias Barreto (Centro do Recife) e salgadinho na praia para pagar as provas do supletivo. Voltei a morar com meus pais”, relembra Érika. “Mesmo quando morei na rua, nunca deixei de ter um livro comigo. Quando não havia a lombra da droga, tinha dos livros”, conta a professora, que leu Dostoiévski e Karl Marx a partir de exemplares encontrados no lixo.

Foram três anos, de 2002 a 2004, tentando ingressar na universidade. Frequentou as aulas do Vestibular Cidadão e de mais outros dois projetos semelhantes da UFPE, o Portal e o Professores do Terceiro Milênio. Conseguiu aprovação na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), onde ingressou em 2005. “Fiquei entre os primeiros lugares de história. E fui laureada juntamente com outra colega de turma”, orgulha-se Érika.

O ingresso em direito ocorreu por acaso. Para estimular o marido e o filho, participou do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) dois anos atrás. Com média superior a 700, ganhou uma das vagas de cotistas da UFPE. “Uma vez, estava cheirando cola com amigos da rua. Fomos brincar na estátua de Castro Alves, no jardim da Faculdade de Direito. Acabamos expulsos pelos seguranças. Quase 20 anos depois, voltei, mas desta vez como aluna”, relata Érika.

Para o futuro, quando conquistar o segundo diploma, planeja trabalhar com causas indígenas, fundiárias e de direitos humanos. “Se precisar entrar numa guerra, entrarei. Não tenho medo de morrer. Vou lutar pelos povos indígenas e pelas pessoas da periferia”, garante a neta de índios Fulni-ô e Potiguar e que agora está organizando uma campanha para arrecadar livros para a escola que leciona em Jaboatão.

Emprego em multinacional

Ewerton de Oliveira, 25 anos, é analista de comunicação de uma multinacional. Conquistou o emprego dois anos depois de formar-se em gestão em marketing numa faculdade particular do Recife. Morador do bairro de Brasília Teimosa, na Zona Sul do Recife, estudou em escola pública estadual e sofreu com a constante falta de professores. No ensino superior, só obteve o diploma porque causa de uma bolsa do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), do governo federal.

As lacunas de aprendizado no ensino médio foram preenchidas no cursinho pré-universitário oferecido pelo Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM), localizado no Pina. Ewerton foi um dos alunos da turma de 2012, no primeiro ano da iniciativa. Em seis anos (2012 a 2017), o cursinho já atendeu cerca de 400 jovens do Pina e de Brasília Teimosa. Desses, aproximadamente 300 participaram de processos seletivos para ingressar em faculdades. Setenta e seis (25%) conseguiram.

“A precariedade do ensino na escola pública infelizmente ainda é grande. Há muita defasagem. Eu não tinha aulas de física, matemática. O pré-universitário do IJCPM foi muito importante, me deu a oportunidade que não tive na escola. Além de aprender conteúdos que não estudei no colégio, o cursinho ampliou minha visão de mundo. Me fez acreditar que sou capaz de conquistar meus objetivos”, relata Ewerton. “Não teria condições de pagar um preparatório para o Enem pois no ano que fiz as provas coincidiu que meus pais ficaram desempregados”, relembra.

Enquanto cursava a faculdade, Ewerton trabalhou no Shopping RioMar. Começou como Jovem Aprendiz. Lá permaneceu até 2016. Ano passado passou por outras firmas até ser contratado pelo Grupo Moura. “Planejei minha carreira e sei onde quero chegar. Estou feliz em hoje trabalhar numa grande empresa”, destaca.

Em Brasília Teimosa, ele participa de um grupo de teatro ligado à Igreja Católica. O objetivo é ajudar jovens em situação de vulnerabilidade social. “Tenho orgulho do lugar em que vivo e quero sempre melhorá-lo. Por meio do grupo de teatro buscamos resgatar jovens da rua. Muito do que aprendi no pré-universitário coloco em prática com os amigos do teatro”, relata Ewerton.

Em busca de trabalho para pagar faculdade

José Douglas Andrade Gomes, 17 anos, sonha em ser desembargador. Morador do bairro de Nova Descoberta, na Zona Norte do Recife, ele sabe que para chegar lá não será fácil. O primeiro desafio a vencer é ter dinheiro para pagar a faculdade. Está em busca de um emprego para que possa custear a graduação. Ele conseguiu uma bolsa de 80% numa instituição privada. Mesmo assim, não há como pagar os R$ 200 da mensalidade com apertado orçamento da família.

“Desde pequeno tenho vontade de ser desembargador. Gosto de assistir à TV Senado, de ver ministros falando nos noticiários. Meu pai ganhou uns livros de direito e trouxe pra casa. Fico lendo, estudando. Quero muito cursar direito”, conta o adolescente, que mora com a mãe e um casal de irmãos mais novos. O pai está preso há pouco mais de um ano. A mãe, desempregada, planeja vender bolos no Cotel, em Abreu e Lima, no Grande Recife, durante as visitas de fim de semana ao marido, para juntar uns trocados e, assim ajudar o primogênito.

Douglas foi um dos 20 alunos do cursinho Pré-Enem oferecido entidade Amor e Esperança, fundada há 15 anos pela cabeleireira Nadjane Cristina Vieira. “Vi uma notícia na televisão dizendo que o bairro de Nova Descoberta era um dos que mais se matava adolescentes e jovens. Fiquei impressionada e achei que deveria fazer alguma coisa pra ajudar a mudar essa realidade. Comecei com contação de histórias para oito crianças no terraço da minha casa”, conta Nadjane.

“Passamos a dar aula de reforço, preparação para o Enem, cursos para idosos e aulas de música, tudo de graça e feito por voluntários”, diz. Ano passado, cerca de cem moradores do bairro, entre crianças e adultos, foram beneficiados. Os custos eram bancados por um pastor. Este ano não há verba prevista. “Necessito de cerca de R$ 2 mil por mês para pagar o aluguel da casa, lanches, água, energia e material. Vamos começar sem nada, mas espero conseguir doações”, afirma Nadjane.

Ex-aluno de escola pública estadual, Douglas aprendeu no cursinho assuntos que deveriam ter sido ministrados no colégio. “Pelo menos uma vez por semana largava mais cedo porque não tinha merenda ou algum professor faltava. Por isso o Pré-Enem foi muito importante”, destaca o adolescente. “As drogas estão na nossa porta. Basta ir comprar pão que um filho seja aliciado. A dificuldade agora é Douglas arrumar um trabalho. Ele pediu em vários lugares do bairro. Tenho fé em Deus que vai conseguir”, afirma a mãe do rapaz, Emannuele Cristine Batista, 34.

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