Saúde pública

Bebê morre após peregrinar por unidades de saúde da RMR

Via-crúcis teve início sábado (21) e só foi terminar na noite de terça-feira (24)

Rafael Carvalheira
Rafael Carvalheira
Publicado em 25/05/2011 às 21:55
Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Uma família do Recife enfrentou um drama durante quatro dias para conseguir que o filho nascesse e tentar mantê-lo vivo. Todo o sofrimento foi em vão. Na noite de terça-feira (24), com menos de três dias de vida, Lázaro Rosendo Gomes Clemente da Silva, filho do auxiliar de serviços Ronaldo Clemente da Silva e da secretária Joelma Gomes, ambos de 37 anos, morreu devido a problemas cardíacos. A peregrinação do bebê envolveu duas unidades de saúde, uma estadual e outra municipal e é um retrato da saúde pública.

A via-crúcis teve início sábado (21), no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), no bairro dos Coelhos, área central do Recife. Com nove meses de gestação e sentindo fortes dores, Joelma foi com o marido até a unidade, onde havia feito todos os exames do pré-natal, o que deveria lhe garantir leito para o parto. “Os médicos do Imip disseram que minha mulher não estava pronta para ter o bebê. A doutora Alessandra Coelho falou que ela estava com infecção urinária, deveria fazer um exame de urina e voltar na segunda-feira para confirmar o diagnóstico”, contou Ronaldo, mostrando papéis do hospital.

Confira vídeo feito pelo pai do bebê no Imip:

“Como a médica falou que não havia dilatação nenhuma, voltamos para casa, mas Joelma não estava aguentando de dor e fomos para a Maternidade Bandeira Filho (unidade municipal, em Afogados, Zona Oeste). Chegamos lá por volta das 23h e os médicos foram muito solícitos. Disseram que ela estava com uns dez centímetros de dilatação. O bebê nasceu pouco depois da meia-noite”, explicou Ronaldo.

Os dias seguintes foram de angústia. Dor agravada pela lembrança do outro filho, morto no ano passado com apenas um mês e dez dias de vida, devido a uma cardiopatia. Na terça-feira, médicos da Bandeira Filho também identificaram problemas cardíacos no recém-nascido, mas a maternidade só tem estrutura para atender a gestantes de baixo risco.

SEM VAGA - “Me informaram que tinham conseguido vagas para a UTI neonatal no Imip. Colocaram meu filho em uma ambulância bem equipada, mas quando chegamos lá, levaram para a emergência normal. Eu reclamei, disse que ia denunciar ao Ministério Público (MPPE) e aí levaram para o quarto andar, onde nem existe ventilação. Não tinha vaga na UTI e eles mandaram o bebê de volta para a Bandeira Filho, em uma ambulância precária, sem sirene. Ele levou chuva e a viatura ficou presa em um engarrafamento. Voltou muito pior”, lembra.

Às 22h, o bebê morreu. As informações não foram confirmadas pelas secretarias responsáveis pelas duas unidades. Parte do procedimento no Imip foi filmado pelo pai.

A necropsia, prevista para a noite de quarta-feira (25), só será feita na manhã desta quinta (26), no Serviço de Verificação de Óbito do Hospital das Clínicas, na Cidade Universitária, Zona Oeste. O sepultamento deve ocorrer nesta quinta-feira (26), no Cemitério do Barro, Zona Oeste. Ronaldo promete denunciar o Imip por negligência.

Leia mais na edição desta quinta-feira (26) do JC

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