Religião

Ateus debatem em Olinda direito de não acreditar em Deus

Encontro Nacional de Ateus acontece no Espaço Ciência

AD Luna
AD Luna
Publicado em 17/02/2013 às 6:01
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Houve um tempo na história do Ocidente em que se afirmar a descrença em Deus poderia custar a vida do ousado cidadão. Atualmente, passados alguns séculos, a violência física contra ateus ficou mais restrita a países que vivem sob forte influência do fundamentalismo islâmico. No entanto, a desconfiança contra pessoas que simplesmente escolheram viver sem precisar acreditar no mesmo que milhões de religiosos acreditam ainda é grande. Foi pensando nisso e na maior integração entre aqueles que vivem e celebram o livre pensamento, o respeito às diferenças, a liberdade de expressão e o direito a não crença em deuses que acontece, neste domingo (17), em várias cidades do País, o segundo Encontro Nacional de Ateus (ENA). Em Pernambuco, o evento ocorre no Espaço Ciência, no Complexo de Salgadinho, em Olinda, a partir das 13h, com entrada franca.

O ENA é promovido nacionalmente pela Sociedade Racionalista e localmente pela Sociedade Livres Pensadores de Pernambuco e Ape (Ateus e Agnósticos de Pernambuco), associação sem fins lucrativos, cuja missão principal é lutar pelo estado laico – o qual se caracteriza pela separação efetiva entre governo e religião. “Em países como o Brasil, onde há predominância de grupos religiosos, é comum haver a ideia básica de que pessoas sem religião não seguem valores morais e éticos. Trata-se, na verdade, de ignorância e preconceito”, critica Pedro Paulo Guimarães, integrante da Ape e um dos organizadores do encontro.

Em Olinda, a programação do ENA terá diversas atividades como sorteio de brindes, depoimentos ao estilo como me tornei ateu e duas palestras baseadas no tema Aspectos Sociopolíticos e Jurídicos do Estado Laico

Para Pedro Paulo, eventos como esse são importantes para que os ateus sejam notados e, acima de tudo, respeitados. “Somos cidadãos. Somos médicos, professores, donas de casa, estudantes, pagamos impostos, sofremos e nos encantamos como qualquer outra pessoa”, explica. “Muitos jovens e adultos têm medo ou vergonha de assumirem-se ateus, pois sabem que sofrerão algum tipo de discriminação na própria família, no trabalho, ou de vizinhos”, complementa.

Em junho de 2008, pesquisa da Fundação Perseu Abramo feita em parceria com a ONG alemã Rosa Luxemburg Stiftung ouviu 2014 pessoas, acima de 16 anos, em 150 municípios de todas as regiões do País. A intenção era levantar informações sobre a intolerância sexual no País. Mas, além dessa questão, os dados colhidos e apresentados em 2009 mostraram uma realidade no mínimo intrigante sobre a visão dos brasileiros em relação aos ateus. 

Perguntados sobre quais as pessoas que menos gostam de encontrar, 35% dos entrevistados responderam que são os usuários de drogas, seguidos pelos ateus (26%) e ex-presidiários (21%). Essa repulsa a pessoas descrentes em deuses é alimentada em boa medida, na visão de Pedro Paulo, pelo discurso de líderes religiosos que associam ateísmo à maldade, como se todos os ateus fossem indivíduos prontos a cometer todo tipo de atrocidade.

“A capacidade de relacionar-se com outras pessoas, mantendo relação de amizade ou afetividade, não depende de crenças religiosas ou da ausência delas. Somos solidários, cultivamos a amizade, o respeito e o amor. Celebramos a vida, a arte, o conhecimento, como qualquer pessoa que professe uma religião”, rebate Guimarães. 

Vlogueiro Paulo Miranda Nascimento (Pirula) comenta a respeito da intolerância contra ateus 


INTIMAÇÃO

No fim do mês passado, a TV Bandeirantes foi intimada pelo juiz federal Paulo Cezar Neves Junior, de São Paulo, a prestar esclarecimentos públicos devido a declarações do apresentador Luiz Datena contra descrentes. No dia 27 de julho de 2010, Datena (que professa a religião católica) responsabilizou os ateus pelos crimes, violência e males do mundo. As acusações foram motivadas pelo assassinato de um garoto. “Um sujeito que é ateu não tem limites e é por isso que a gente vê esses crimes aí”, comentou Datena. 

Durante quase cinquenta minutos, o apresentador e o repórter Márcio Campos fizeram comentários preconceituosos contra os ateus. “Esse é o garoto que foi fuzilado. Então, Márcio Campos, é inadmissível; você também que é muito católico, não é possível, isso é ausência de Deus, porque nada justifica um crime como esse, não Márcio?”, disse Luiz Datena. 

Em 2011, alunos do Curso de Produção em Mídia Audiovisual da Universidade de Santa Cruz do Sul (RS) produziram o documentário Além do ateu e do ateísmo. O filme contém depoimentos de ateus e um religioso a respeito da discriminação a pessoas descrentes em Deus. Assista ao vídeo, abaixo.

Documentário Além do ateu e do ateísmo


FAMOSOS

É bem provável que os religiosos antipáticos a ateus e a agnósticos (gente desinteressada na existência ou inexistência de Deus) não se dêem conta que entre esses há diversas personalidades famosas e certamente queridas por pessoas dos mais variados credos. No Brasil, por exemplo, a lista inclui os atores Selton Melo, Andréa Beltrão, Camila Pitanga, Alinne Moraes, Antônio Fagundes e Lima Duarte; o médico Drauzio Varella; os músicos Nando Reis, Tony Belloto (Titãs), Caetano Veloso e Chico Buarque; os jornalistas Ricardo Boechat e Juca Kfouri, o cineasta Arnaldo Jabor, entre muitos outros.

Leia mais no caderno Cidades deste domingo (17).

 

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