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O medo de volta à BR-232

Três assaltos em janeiro, com 40 vítimas em duas ações simultâneas, ressuscitaram o pânico e mudou hábitos de quem trafega no local

Adriana Nolasco e Jorge Cavalcanti
Adriana Nolasco e Jorge Cavalcanti
Publicado em 07/02/2014 às 7:19
Três assaltos em janeiro, com 40 vítimas em duas ações simultâneas, ressuscitaram o pânico e mudou hábitos de quem trafega no local FOTO:
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A sensação de insegurança trafega pela rodovia federal e principal ligação da capital do Estado aos municípios do Agreste e Sertão pernambucanos. Depois de um hiato sem registros frequentes de assaltos, o medo voltou à BR-232 e alterou, inclusive, a rotina de policiais que trabalham no interior. Cientes do perigo, alguns evitam viajar de madrugada e nos fins de semana. É neste período que os chamados “veículos desgarrados” – expressão usadas por policiais rodoviários federais para definir aqueles que seguem sozinhos, e não em comboios – se tornam alvos fáceis. Atraídos pela movimentação de dinheiro em espécie na estrada, impulsionada pela Feira da Sulanca de Caruaru, bandidos montam armadilhas em trechos da rodovia. No mês de janeiro, três assaltos foram consumados na BR-232. 

No último dia 20, uma ação ousada fez 40 vítimas, em dois ataques simultâneos. Por volta das 4h, uma van com 12 passageiros deixou o município de Goiana, na Mata Norte, em direção ao Agreste. Em Bezerros, já no Agreste, um veículo de passeio fez a ultrapassagem e um dos bandidos disparou em direção à van, forçando a parada. Dinheiro e pertences pessoais foram levados. Na abordagem, uma mulher foi baleada no tórax e levada ao Hospital Regional do Agreste. Por sorte, escapou com vida.

Menos de uma hora depois, um ônibus com 28 passageiros foi o alvo da mesma estratégia de abordagem: o carro da quadrilha acelera, fica lado a lado do veículo e um dos bandidos ordena a parada, com a arma empunhada. As vítimas eram todas de Sapé, na Paraíba, e seguiam em direção à Sulanca. Amedrontadas, retornaram sem dinheiro e sem as roupas que seriam compradas para a revenda. A polícia acredita que o mesmo bando tenha praticado os dois assaltos. Mas até a última sexta-feira nenhum suspeito havia sido detido.

Um dia depois, integrantes da banda pernambucana Reny e a Galera foram submetidos a momentos de terror. A van do grupo retornava pela BR-232 de uma turnê por cidades do Agreste. Quatro homens armados, num carro de passeio Sedan, fizeram a interceptação. O motorista foi obrigado a dirigir até uma estrada de barro. Lá, acuados por ameaças de morte e sob a mira de armas, os músicos foram obrigados a entregar todos os pertences. Restou apenas o trauma.

[INTERTITULO2]COMBOIOS

[/INTERTITULO2]Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o trecho entre o Recife e Caruaru é o mais perigoso, principalmente à noite e nos dois dias que antecedem a Sulanca, realizada às segundas-feiras. Nos 135 quilômetros que separam as duas cidades, há três postos da PRF (Moreno, Serra das Russas e São Caetano). Mas são insuficientes para evitar risco de assaltos na estrada. Sem alternativas, a forma mais segura de trafegar pela rodovia ainda é em comboio. 

Posicionadas de forma estratégica à frente do grupo e por último, viaturas acompanham carros, vans e ônibus até o destino final. O método de viajar em grupo é praticado há cerca de dez anos, segundo o inspetor Eder Rommel. “Não há registro de investida contra os comboios. Só aos veículos desgarrados”, avisa.

Até meados de 2004, quando a PRF não fazia a escolta, os sulanqueiros bancavam um esquema de segurança privada ilegal, para eliminar o risco. Nos dias de folga, policiais militares e civis de Pernambuco e Estados vizinhos, principalmente Alagoas, seguiam o grupo dentro e fora dos ônibus, com a ajuda de rádios transmissores. 

Nos pontos de maior incidência de assalto, os seguranças desciam e ficavam posicionados em pontos estratégicos. De costas para a rodovia, apontavam as armas para o meio do matagal. Só depois da passagem de todos os ônibus continuavam a viagem. Eles também abordavam carros considerados suspeitos. A cada parada, o clima era tenso. E o medo, constante.

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