URBANISMO

Patrimônio histórico se deteriora na Boa Vista

Sobrados do século XIX estão interditados e correm risco de desabar

Do JC Online
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Publicado em 24/02/2016 às 7:30
Fernando da Hora/JC Imagem
Sobrados do século XIX estão interditados e correm risco de desabar - FOTO: Fernando da Hora/JC Imagem
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Mesmo protegida por lei contra a especulação imobiliária, uma das áreas mais emblemáticas do Recife se deteriora a olhos vistos. Um trecho de aproximadamente 430 mil metros quadrados no bairro da Boa Vista, Centro da cidade, é, desde o final de 2014, uma Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (Zeph), instituída pela prefeitura. Mas a falta de políticas de estímulo à recuperação da área, aliada a entraves burocráticos com os proprietários dos imóveis, fazem com que edificações do século XIX estejam, literalmente, caindo.

Na esquina das Ruas Velha e Matriz, um exemplo do descaso. Um velho sobrado de três pavimentos, construído numa área de 143 metros quadrados, está descaracterizado, vive fechado e serve como depósito de ferro-velho. A poucos metros, na Rua da Glória, a casa de número 189, com dois andares, dá a impressão de que vai desabar a qualquer momento. Rachaduras enormes cortam o imóvel de cima abaixo. O local foi interditado pela prefeitura em 2011, por risco de desmoronamento, e até os tapumes que cercam o imóveis já foram derrubados.

Na Rua da Matriz, os casarões de números 68 e 78, ambos datados do século XIX, também agonizam sem manutenção. Outro exemplo de má conservação do patrimônio histórico pode ser visto na Rua Barão de São Borja, onde até mesmo uma árvore nasceu entre as paredes de um sobrado abandonado, causando risco de derrubar parte da construção.

Pouco após instituir a Zeph 8 (Boa Vista), a prefeitura classificou como Imóveis Especiais de Preservação (IEP) 96 edificações do local. A maior parte do bairro, no entanto, ainda é dividida entre Setor de Preservação Ambiental (SPA) e Setor de Preservação Rigorosa (SPR). O primeiro tem parâmetros definidos para eventuais intervenções. A segunda última classificação, no entanto, prevê que cada imóvel seja alvo de uma análise específica da prefeitura no que diz respeito a reformas. As Ruas Velha, Matriz, Glória e trecho da Barão de São Borja se encaixam no segundo caso.

“Vamos reformar, pois há risco de desabamento na área. Mas é muito complicado, pois é preciso encomendar azulejos que não são achados facilmente nas lojas, janelas especiais, entre outras coisas. Além disso, não há estímulo por parte da prefeitura”, diz o empresário Marcelo Fernandes, proprietário de um dos casarões abandonados da Barão de São Borja.

[INTERTITULO2]SEM APOIO

[/INTERTITULO2]Especialistas em urbanismo e história endossam a tese da falta de apoio oficial. “O processo de abandono da Boa Vista pelo poder público ao longo dos anos é o mesmo verificado no bairro de São José. Não existe qualquer plano para a recuperação dos imóveis”, afirma o arquiteto e professor José Luiz Mota Menezes. “Falta uma decisão política para dar uma nova feição à Boa Vista, com uso habitacional e comercial”, explica o professor de História da Arte Antônio Alves, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Para a Prefeitura do Recife, a lei que instituiu a Zona Especial de Preservação é o primeiro passo no sentido de recuperar o Sítio Histórico do bairro. O caminho para a revitalização, no entanto, promete ser árduo. “O poder público pode realizar intervenções de mobilidade em calçadas, criar um novo mobiliário urbano e até embutir a fiação aérea no bairro. A recuperação dos imóveis tombados depende dos proprietários. Seria preciso um estímulo, seja em forma de isenção de impostos ou de financiamentos facilitados, para que essas edificações sejam reformadas dentro do que prevê a lei”, explica a Diretora de Preservação do Patrimônio Cultural da Secretaria municipal de Planejamento Urbano, Lorena Veloso. 

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