Patrimônio

Recifenses lamentam falta de zelo com o patrimônio histórico da cidade

Críticas marcam o Dia Nacional do Patrimônio Histórico, data criada em 1998 pelo Iphan

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 17/08/2016 às 8:08
Foto: Guga Matos/JC Imagem
FOTO: Foto: Guga Matos/JC Imagem
Leitura:

Hoje, 17 de agosto, é o Dia Nacional do Patrimônio Histórico. A data pode até ser desconhecida dos recifenses, mas nas ruas do Centro não passa despercebida da população a falta de cuidados com o patrimônio da cidade. Péssimo, um horror e abandonado são termos usados para classificar prédios, praças e monumentos.

Morador da área histórica da Boa Vista há 50 anos, o gazeteiro aposentado Almir Pereira chama a atenção para os restos da fachada de um prédio que desabou parcialmente na Rua da Glória e nunca foram recolhidos. O acidente aconteceu em maio deste ano e até agora a calçada continua interditada para os pedestres. O entulho de construção está virando lixão.

“Isso é um absurdo, liguei para a prefeitura várias vezes e ninguém faz nada. Pediram para botar o material num papa-metralha. Não sei mais a quem apelar. Para completar, a falta de educação é grande e há vizinhos botando sacos de lixo doméstico em cima dos entulhos”, destaca Almir Pereira. “Não sabia dessa data (Dia Nacional do Patrimônio Histórico) e classifico como péssima a situação do nosso patrimônio. Um lugar tão bonito e não é valorizado”, completa.

Os comentários não são diferentes no bairro da Soledade, endereço de um casarão do século 19 onde nasceu Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. A casa, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1968, é a sede do Conselho Estadual de Cultura e teve a fachada pichada no fim de março do ano passado.

“Nosso patrimônio está um horror, muito destruído”, diz Cleone Mariana Silva diante do imóvel pichado na Soledade. “Não há zelo por parte da sociedade e o governo não faz a sua parte”, acrescenta Edla Rodrigues. “Uma parede com grafite fica bacana, bonita e colorida. Mas a pichação descaracteriza, parece prédio abandonado”, continua Talita Lima. As três jovens são estudantes de recursos humanos.

Foto: Guga Matos/JC Imagem
Prédio 189 da Rua da Glória, Boa Vista, desabou parcialmente e teve de ser demolido pela prefeitura - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Na Rua da Glória (Boa Vista), restos de imóvel que desabou ocupam a calçada desde maio de 2016 - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Sede do Conselho Estadual de Cultura, bairro da Soledade, teve a fachada pichada em março de 2015 - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Conselho Estadual de Cultura funciona num casarão do século 19, no estilo arquitetônico neoclássico - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
No casarão da Soledade, em 1867, nasceu o escritor Manuel de Oliveira Lima, um dos fundadores da ABL - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
A decadência de uma área tombada pelo Iphan na Travessa Tuiuti, no histórico Bairro do Recife - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Mato na fachada, marquise aos pedaços e pichação em prédios do Bairro do Recife, na Travessa Tuiuti - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Edificação na Rua Mariz e Barros, no Bairro do Recife, caindo aos pedaços e cercada por tapumes - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Árvore crescendo na fachada e risco de desabamento de imóvel na Rua Mariz e Barros, Bairro do Recife - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Com risco de desabamento, imóvel no Bairro do Recife é tapumado e os pedestres ficam sem a calçada - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
No Dia Nacional do Patrimônio Histórico, 17 de agosto, recifenses lamentam situações como essa - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
No Dia Nacional do Patrimônio Histórico, 17 de agosto, recifenses lamentam situações como essa - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
O Bairro do Recife, com seu casario precário, é tombado como patrimônio histórico nacional - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
A Igreja de São José do Ribamar, uma das mais antigas de São José, está parcialmente interditada - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Construção do século 18, a Igreja de São José do Ribamar, no bairro de São José, precisa de reparos - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Celebrações de missas estão suspensas na Igreja de São José do Ribamar, por causa das avarias - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Lixo acumulado nos canteiros de plantas da Praça Dezessete, na Rua do Imperador, em Santo Antônio - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Bancos sem assento espantam a população da Praça Dezessete, bairro de Santo Antônio, no Recife - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Bancos sem assento espantam a população da Praça Dezessete, bairro de Santo Antônio, no Recife - Foto: Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Monumento aos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral na Praça Dezessete, no Recife - Foto: Guga Matos/JC Imagem

 

No bairro de São José, a Igreja de São José do Ribamar acumula tantas avarias que teve de ser parcialmente interditada. Por segurança, a celebração de missas foi suspensa, diz o bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, dom Antônio Tourinho Neto. O prédio abre apenas para os fiéis rezarem. Construída no século 18, é uma das edificações mais antigas do bairro.

Em Santo Antônio, as comerciárias Vanessa Silva e Anne Arruda criticam a sujeira e a depredação na Praça Dezessete, onde repousa um monumento em homenagem aos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral que fizeram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul em 1922, com passagem pelo Recife. Bancos sem assento, lixo e cheiro de fezes espantam possíveis frequentadores da praça.

“Ninguém cuida, a praça está abandonada. Não importa se a área tem ou não tombamento, é a nossa história. Além disso, é bem localizada, com sombra e vento. Infelizmente, não tem conservação”, reforça Vanessa. “O vento traz muito lixo para os canteiros e como ninguém varre, fica tudo acumulado”, diz Anne Arruda, ao explicar a sujeira.

As mesmas observações são lançadas para um edifício caindo aos pedaços no Bairro do Recife, na esquina da Avenida Marquês de Olinda com a Rua Mariz e Barros. “É um atentado à segurança da gente. Eu mesma deixei de estacionar perto dele”, afirma Márcia Lira, funcionária pública.

Ela trabalha no Bairro do Recife e acompanha a deterioração do imóvel dia a dia. “A única intervenção, até agora, é essa cerca de proteção em volta da fachada. Como o tapume cobre a calçada, há uma disputa de espaço na rua entre carro, moto e pedestre, em especial na hora do almoço, mesmo com a velocidade reduzida para veículos”, observa. “Um bairro com potencial turístico como esse precisa de uma política local de preservação do patrimônio”, resume Márcia Lira.

PREMIAÇÃO

A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) informa que a pintura da fachada da sede do Conselho Estadual de Cultura terá início na próxima segunda-feira. A instituição celebra o Dia Nacional do Patrimônio Histórico, nesta quarta-feira (17), com a entrega do Prêmio Ayrton de Almeida Carvalho de Preservação do Patrimônio Cultural, às 10h, no Teatro de Santa Isabel.

Em seguida, haverá a diplomação dos Patrimônios Vivos. A atividade faz parte da 9ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco (veja programação), promovida pela Fundarpe. O Dia Nacional do Patrimônio Histórico foi criado em 1998 em homenagem ao centenário de nascimento do fundador do Iphan, Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Sobre os entulhos na Rua da Glória, a Defesa Civil do Recife disse que o material estava cercado por tapumes, que também isolavam a calçada, para segurança do pedestre. Os tapumes, alega, foram arrancados. O serviço de demolição do sobrado, condenado pela Defesa Civil, ainda não foi concluído.

Últimas notícias