ADOÇÃO

Menina transgênero de Jaboatão é adotada por família com mãe trans

Casal de Mairiporã (SP) e a criança se encontraram através do trabalho da Coordenadoria da Infância e Juventude do Estado (CIJ) e da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) de Pernambuco, através do programa 'Busca Ativa'

Talita Barbosa
Talita Barbosa
Publicado em 21/03/2017 às 16:04
Foto: Free Images
Casal de Mairiporã (SP) e a criança se encontraram através do trabalho da Coordenadoria da Infância e Juventude do Estado (CIJ) e da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) de Pernambuco, através do programa 'Busca Ativa' - Foto: Free Images
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Alice é uma menina recifense de dez anos que conquistou o que toda criança merece: um lar com amor, carinho e acolhimento. Além disso, a criança ganhou também o direito de ser quem quiser, a partir da compreensão do seu sentimento de inadequação em relação ao gênero.

A história do encontro entre ela e os pais adotivos, Alexya Lycas Evangelista e Roberto Salvador Junior, ganha contornos ainda mais especiais pelo fato de Alice ser uma menina trans de Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, adotada por um casal paulista composto por uma mulher também trans.

A adoção foi concedida pela juíza Christiana Caribé, da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão. A sentença também autorizou a mudança do prenome masculino para o feminino no documento de certidão de nascimento. Alexya e Roberto, os pais, comemoram a decisão.

“Para nós, é um momento de alegria, porque se concretiza um sonho. Ainda mais por ela poder ter uma nova certidão com o prenome retificado e a identidade de gênero também. Saber que ela nunca vai passar pelo o que eu passo, pois meu prenome de registro civil ainda é masculino. Ela nunca vai sofrer transfobia nesse sentido”, ressaltou Alexya.

A criança vivia no Lar de Maria, uma casa de acolhimento no município. Antes de ser adotada, Alice vestia-se como um menino, mas sempre se identificou como menina.

O estágio de convivência entre ela e a nova família começou em setembro de 2016, quando a criança embarcou com os pais para Mairiporã, em São Paulo. Antes disso, Alice viveu por um ano e meio no Lar de Maria, em Jaboatão. O primeiro encontro presencial foi na casa de acolhimento de Jaboatão, no dia 22 de setembro do ano passado.

Antes disso, a aproximação foi feita por meio de ligações telefônicas, troca de mensagens e vídeos por meios eletrônicos (WhatsApp), o que contribuiu para aproximar a criança do casal. “O nosso encontro foi emocionante, algo de Deus. Num primeiro momento, a convivência foi bem desafiadora. 

"Ela não tinha referência de família, de respeito, de compromisso com a escola. Mas agora, quase cinco meses depois, é outra criança”, contou Alexya.

A mudança teve como base o acompanhamento por psicólogos. “Não foi uma decisão simples. Foi a primeira vez que atuei em um caso desses, mas tenho a certeza de que fizemos o necessário para atender aos interesses da criança. Para isso, tive o amparo de relatórios da equipe psicossocial da Justiça de São Paulo e de um Centro de Referência LGBT do mesmo Estado, além do parecer favorável do Ministério Público”, destacou a juíza Christiana Caribé.

A nova mãe de Alice, Alexya, já havia adotado outra criança em São Paulo, um menino de onze anos, mas relata que sonhava também adotar uma criança trans. Ela, que também é militante dos direitos LGBT, costureira e pastora da Igreja da Comunidade Metropolitana - que aceita pessoas trans - afirmou que pretende ainda adotar outro filho.

“A juíza Christiana Caribé soube do meu sonho de adotar uma criança trans e encontrou, com o apoio da doutora Mônica Lobato, do Rio de Janeiro, e da Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas. Agora, nosso objetivo é ajudar a nossa filha a se enxergar. Sei que a minha história vai ajudá-la a não ter os medos que tive. Sei o que é ser discriminada”, disse.

'Busca Ativa'

O processo de encontro entre Alice e a nova família foi concretizado graças ao trabalho da Coordenadoria da Infância e Juventude do Estado (CIJ) e da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) de Pernambuco, através do programa de Busca Ativa. O objetivo do projeto é viabilizar a inserção de crianças fora do perfil mais procurado por pretendentes em família substituta. O foco são meninos e meninas com mais de sete anos, crianças com doenças graves, com deficiências física ou mental e grupos de irmãos.

Através do programa, as equipes das varas da Infância e Juventude do país trocam informações para facilitar os encontros. Em 2016, foram adotadas, em Pernambuco, 103 crianças segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Os resultados levaram o Estado a ficar entre os cinco que mais concluíram adoções no país no ano passado.

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