Violência

Morte de jovem em operação policial no Pina gera dor e revolta

Esdras Henrique, 19 anos, foi morto com um tiro na cabeça, durante ação da Radiopatrulha na comunidade

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 17/06/2017 às 7:36
Foto: Bobby Fabisack/JC Imagem
Esdras Henrique, 19 anos, foi morto com um tiro na cabeça, durante ação da Radiopatrulha na comunidade - FOTO: Foto: Bobby Fabisack/JC Imagem
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A manhã seguinte à morte do jovem Esdras Henrique da Silva Teles, 19 anos, foi de revolta, e uma certa anestesia, na Comunidade do Bode, bairro do Pina, Zona Sul do Recife. “Queremos justiça. Eles mataram um inocente”, gritavam vozes, em coro. “De que adianta lutar? Não será o primeiro jovem nem o último a morrer na mão de um policial injustamente”, argumentavam outros. O medo unia a todos. Na noite da última quinta-feira (15), por volta das 21h, uma ação de policiais militares da Radiopatrulha terminou com o corpo de Esdras estendido na rua, coberto com um lençol, a poucos metros de casa.


Segundo relato de moradores, os PMs, “mais de 20”, chegaram à comunidade já atirando. “Foi rajada de balas. Muitos se trancaram em casa, e outros saíram correndo. Esdras foi um deles. Os policiais foram atrás pelos becos até que ele entrou na maré. Mas, como ele não sabia nadar, ficou agarrado numa estaca. Pediu para não morrer. Mas deram um tiro na cabeça dele”, contou um dos vizinhos.

O corpo de Esdras só foi retirado da água depois que os policiais foram embora. “Saíram dizendo ‘tem um morto e um ferido lá dentro’. Ficamos com medo de mexer, mas podia ser que a maré levasse, aí nem o corpo a mãe ia ter para enterrar. Trouxemos o coitado para a rua e cobrimos com um lençol”, conta um dos rapazes que ajudaram a tirar o jovem da água.

LAMENTO

A tia de Esdras, a vendedora Jane Maria da Silva, 42, confessou ter poucas esperanças de que a morte do sobrinho seja investigada e os responsáveis, punidos. “Quando é policial que atira a gente sabe o que acontece. Fica por isso mesmo. É assim que eles trabalham na periferia. Tratam todo mundo como se fossem bandidos. Agora minha irmã ficou sem o filho. Vai carregar esse sofrimento para o resto da vida”, lamentou a vendedora. Os moradores não souberam informar sobre a outra pessoa que teria ficado ferida.

Em nota enviada à imprensa, a assessoria de comunicação da Polícia Militar não fez sequer referência à morte do jovem. “Policiais militares da Radiopatrulha estiveram na Comunidade do Bode, no bairro do Pina, para prender suspeitos de terem cometido o assassinato de um sargento da corporação, na última quarta-feira (14), em Olinda”, disse o comunicado, em referência à ação que resultou na morte do sargento Ricardo Sales dos Santos e deixou outro policial em estado grave.

A nota afirma que “a PM foi recebida com vários disparos de arma de fogo, a qual respondeu injusta agressão. Eles conseguiram fugir, mas deixaram para trás um revólver calibre 38 com três munições deflagradas”. Os moradores do Bode, no entanto, negam que tenha havido troca de tiros.

Diante da insistência da reportagem em pedir mais esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte de Esdras Henrique, a assessoria informou apenas que o caso será investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Nenhuma informação foi dada sobre se os policiais serão afastados das operações de rua ou se será aberta sindicância interna para investigar o caso.

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