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Soro contaminado: 'ferida está aberta', afirma irmão de vítima

Caso aconteceu em 1997. Esta terça (6) o STJ isentou o Hospital Memorial São José da responsabilidade pelas mortes e sequelas

Amanda Tavares
Amanda Tavares
Publicado em 07/03/2018 às 6:22
Divulgação
Caso aconteceu em 1997. Esta terça (6) o STJ isentou o Hospital Memorial São José da responsabilidade pelas mortes e sequelas - FOTO: Divulgação
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No dia 8 de setembro de 1997 a família de Antonio Medeiros Filho, 43 anos, uma das vítimas do caso do soro ringer lactato, recebeu a notícia da morte dele. O irmão, o cantor Daniel Bueno, havia falado com Antonio na noite anterior e o paciente, internado no Hospital Santa Joana, estava aparentemente bem. Em conversa com o JC, na noite desta terça (6) Daniel contou que, passados 20 anos, ainda tem sido difícil aceitar o que ocorreu e concorda que o laboratório é que deve responder sobre as mortes e sequelas provocadas.

Confira a entrevista: 

JORNAL DO COMMERCIO – Por que o seu irmão precisou tomar soro?
DANIEL BUENO – Ele sofreu um acidente de carro e imediatamente foi levado para o Hospital da Restauração, no Derby. De lá, transferido para o Santa Joana, no mesmo bairro. A pancada atingiu o peitoral e ele aguardava cirurgia. Por isso entrou no soro.

JC – Como você ficou sabendo da morte?
DANIEL BUENO – Falei com meu irmão no dia 7 de setembro de 1997, à noite. Estava tudo sob controle. No dia 8, eu estava no trabalho e minha irmã chegou lá, avisando da morte. Fiquei sem querer acreditar. O choque foi muito grande. Na noite anterior ele estava bem, falando comigo! É difícil de aceitar um acontecimento como esse. Um familiar seu entra num hospital e, poucas horas depois de tomar soro, morre. Assim como ele, foram muitas outras vítimas. E muitas famílias sequeladas, que até hoje sofrem as consequências. 

JC – Vinte anos depois do ocorrido, como está a sua família?
DANIEL BUENO – Olha, cada vez que lemos ou ouvimos uma notícia sobre o assunto, a ferida reabre. É muito doloroso. Hoje (ontem), eu li no JC Online sobre essa última decisão da Justiça (a de isentar o Hospital Memorial São José de culpa) e ia publicar um desabafo no Facebook. Lembrei que minha mãe sempre acessa as redes sociais. Ela tem 95 anos e sofre muito cada vez que lembra de tudo o que aconteceu. Desisti de escrever.

JC – E quanto ao trabalho da Justiça, vocês acompanham?
DANIEL BUENO – Sempre estamos atentos às novidades sobre o caso. Infelizmente nos deparamos com essa morosidade da Justiça. O laboratório, que se chamava Endomed, já mudou de nome (hoje é Fresenius Kabi Brasil LTDA) e nada foi resolvido. Na verdade não sabemos, sequer, ao certo, o que provocou a morte. Suspeitamos do soro porque quem tomou daquele lote, ou morreu ou ficou com sequelas. Mas nunca tivemos uma resposta sobre o que ocorreu de fato. Vinte anos se passaram e ainda não temos uma resposta definitiva.

JC - O que vocês esperam que seja decidido?
DANIEL BUENO – No momento em que tudo aconteceu, as famílias das vítimas ficaram muito confusas. Fora as quase 40 pessoas mortas, teve muita gente com sequelas. Seria justo que alguém respondesse por isso. E algumas famílias chegaram a achar que os hospitais tinham culpa. Mas, passado o tempo, vemos que a empresa responsável pela fabricação do soro é que deve assumir a responsabilidade. Os hospitais compraram o produto, que, inclusive, já usavam há algum tempo nas duas unidades de saúde e nunca tinham se deparado com problemas. O soro estava dentro do prazo de validade. Como saber que havia contaminação no produto? Isso realmente não era possível de se detectar antes de usar. Só o laboratório tem como saber o que aconteceu e por isso deve responder sobre essas mortes/sequelas que abalaram tantas famílias.

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