URBANISMO

Lixo e chuvas, uma mistura de risco

Resíduos descartados pela população nas ruas, rios e canaletas dificultam escoamento da água e contribuem para ocorrência de alagamentos

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 12/04/2018 às 9:35
Foto: Bobby Fabisak /  JC Imagem
Resíduos descartados pela população nas ruas, rios e canaletas dificultam escoamento da água e contribuem para ocorrência de alagamentos - FOTO: Foto: Bobby Fabisak / JC Imagem
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Se no verão ele revela a falta de educação do povo e, muitas vezes, a ineficiência do poder público, o lixo jogado nas ruas, rios e canais é um dos causadores de transtornos no inverno. Os entulhos entopem os já deficientes sistemas de drenagem e dificultam o escoamento da água das chuvas, provocando alagamentos. Na Região Metropolitana do Recife, por exemplo, a situação do Rio Beberibe, que corta bairros da capital pernambucana e de Olinda, é um dos retratos do enorme problema que governantes municipais e estaduais precisam resolver.

“A questão do lixo nos rios começa com a construção irregular de habitações nas margens. A Bacia do Beberibe tem uma das maiores ocupações demográficas por metro quadrado do Brasil. São famílias socialmente vulneráveis. Com pouco acesso à educação e sem preocupação ambiental, jogam lixo de todo tipo no rio, de sofás a garrafas pet”, ressalta o chefe do Núcleo de Revitalização de Bacias Hidrográficas da Secretaria Executiva de Recursos Hídricos de Pernambuco, Antônio Ferreira.

Moradora do bairro de Porto da Madeira, no Recife, vizinho ao Rio Beberibe, Maria Nadreje Barbosa, 44 anos, padeceu esta semana com a água que invadiu sua residência. “Coloquei sofá e outros móveis em cima de tijolos para não perder tudo. Minha geladeira queimou. A água chegou a um metro e meio de altura. Se limpassem o rio não teríamos tanto sofrimento”, diz Nadreje.

Uma equipe da Secretaria de Recursos Hídricos visitou o local anteontem para identificar pontos de estrangulamento no Rio Beberibe e definir onde a limpeza e alargamento da calha poderão ser feitos emergencialmente.

“Para contratar uma empresa precisamos elaborar edital específico. O processo dura entre 60 e 120 dias. Estamos tentando, logo, realocar equipamentos de outros contratos para resolver mais rápido. Mas só será possível fazer a limpeza no lado do Recife. No trecho de Olinda, as máquinas não têm acesso por causa das ocupações”, explica Antônio Ferreira.

Por mês, a Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) recolhe, em média, nas coletas domiciliares, 42 mil toneladas de lixo. Só este ano, o órgão retirou da rede de drenagem (bueiros, galerias e canais) mais de 3.300 toneladas de dejetos. “É uma quantidade exorbitante e muito significativa. O sistema de drenagem não foi projetado para receber sólidos. O lixo impacta diretamente no escoamento da água da chuva”, observa a diretora de Manutenção Urbana da Emlurb, Fernandha Batista.

“Além da falta de consciência da população, que não joga o lixo no lugar certo, tem a demora para o caminhão da coleta passar. Ficamos muitas vezes mais de 15 dias sem ter o lixo recolhido pela prefeitura”, afirma o comerciante Wilson Silva, 50, morador do Alto da Brasileira, em Nova Descoberta, Zona Norte da capital. A Emlurb assegura que a coleta domiciliar no local é realizada diariamente.

COBRANÇA

Em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, a prefeitura retirou, semana passada, 54 toneladas de resíduos do Rio Tejipió. “O descarte irregular de lixo é um problema sério e que custa caro”, comenta o secretário-executivo de Serviços Urbanos e Manutenção, Carlos Alberto Araújo.

Sábado, moradores que vivem às margens do rio (nos bairros de Coqueiral, Curado, Tejipió e Totó, no Recife; e Cavaleiro, em Jaboatão) e membros da sociedade civil farão um ato para reivindicar mais atenção das prefeituras com a limpeza do curso-d’água. A Caminhada Rio Limpo, Cidade Saudável pretende também pedir a adoção de projetos de educação ambiental.

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