Jaboatão

Pai de crianças abandonadas vai responder por estupro

Ele tinha 23 anos quando engravidou uma menina de 10 anos, com quem teve cinco filhos

Margarette Andrea
Margarette Andrea
Publicado em 06/10/2018 às 8:17
Leo Mota/JC Imagem
Ele tinha 23 anos quando engravidou uma menina de 10 anos, com quem teve cinco filhos - FOTO: Leo Mota/JC Imagem
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Já se passaram nove anos desde a primeira gravidez de Júlia. Mas somente agora, com o recolhimento de seus cinco filhos para um abrigo, o histórico de abusos e abandono que ela mesma sofreu saiu da invisibilidade e não deixa dúvida: mesmo tendo mantido vida de casada com o pai das crianças, ele a estuprou. Jorge (ambos são nomes fictícios) tinha 23 anos quando manteve relações sexuais com a trapezista de apenas 10 anos. “Ela relatou o fato e ele confirmou, então vou indiciá-lo não só por abandono de incapaz, mas também por estupro de vulnerável, no mesmo inquérito. O crime só prescreve com vinte anos”, declara a delegada Vilaneida Aguiar, responsável pelas investigações.

Um dos conselheiros tutelares que acompanham o caso, Jason Clemente, diz que Júlia receberá todo o apoio da Rede de Atendimento à Infância de Jaboatão, pois também teve sua infância violada. “Mesmo com as condições de abandono em que seus filhos foram encontrados, o que a gente percebe é que essa mãe também é vítima do pai das crianças e ela vai ser acompanhada por psicólogos”, diz. A superintende da Secretaria de Ação Social e Direitos Humanos do município, Juliana Santos, informa que, se Júlia quiser, também terá ajuda nas áreas de saúde, educação e assistência social.

“As crianças abandonadas estão abrigadas. Mas o ideal é que voltem para a família e, junto com a Vara da Infância, vamos procurar se há algum parente (avós, tios...) que possa e queira ficar com elas. Mesmo a mãe tendo interesse em recuperar a guarda, não é um processo simples, ela precisa passar por um trabalho de superação, precisa progredir”, esclarece a gestora. “Veremos se ela quer estudar, se precisa retirar documentos, fazer a inscrição no Bolsa Família, o que pudermos. Ela já deveria ter tido esse tipo de assistência antes. Uma gravidez aos 10 anos é de risco e é estupro, deveria ter sido aberto um inquérito”.

CICLO VICIOSO

A oficial de desenvolvimento e participação de adolescente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Luiza Leitão, observa que Júlia sofreu violações sistemáticas dos seus direitos e, aos 19 anos, “vive num cárcere, que não é físico”, dependente dos pais de seus filhos. “A gravidez foi resultado de uma série de fatores, como o abandono, a pobreza, a falta de estudo e o próprio abuso sexual. É um ciclo que não se rompe. E faltam políticas públicas para combater isso”, analisa. “É comum a gravidez nessa faixa etária ser fruto de estupro. Em 2016, 24.135 meninas de 10 a 14 anos tiveram filhos, no Brasil. Em Pernambuco, foram 1.298. É um dado preocupante”.

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