VIOLÊNCIA

Política sobre drogas será objeto de debate

Nova secretaria quer reunir setores da sociedade que lidam com o tema

JC Online
JC Online
Publicado em 03/01/2019 às 10:33
Divulgação
Nova secretaria quer reunir setores da sociedade que lidam com o tema - FOTO: Divulgação
Leitura:

Não há um consenso inicial sobre como será a nova gestão de prevenção ao uso de drogas em Pernambuco. Por isso, a política será formatada após debates com setores da sociedade ligados ao tema. Durante a posse do novo secretariado estadual, ontem, no Palácio do Campo das Princesas, Centro do Recife, o titular da pasta, Cloves Benevides, ex-secretário de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (desde novembro de 2017), no primeiro governo de Paulo Câmara (PSB), afirmou já ter pronto o modelo das discussões, faltando apenas a aprovação do governador. “Após esse sinal verde, nas próximas semanas pretendemos cair em campo e conversar com as demais secretarias e segmentos da sociedade, como conselhos e entidades ligadas à questão”, explicou Benevides.

A pressa tem motivo. Dados da Secretaria de Defesa Social (SDS) dão conta de que cerca de 70% dos assassinatos registrados no Estado têm alguma relação com o universo das drogas – principalmente o crack. Aplicando a regra aos 5.426 homicídios que aconteceram em Pernambuco em 2017, seriam 3.798 mortes ligadas a consumo ou tráfico do entorpecente.

POLÊMICA

Por trás do processo de debate sobre a nova política de drogas, no entanto, está uma velha celeuma que o governo espera contornar. Há uma ala de profissionais ligados ao segmento – mais à esquerda do espectro político – que defende a política de redução de danos. Do outro lado, setores religiosos (mais ligados às igrejas evangélicas) apostam nas internações em comunidades terapêuticas. O secretário garante que não há espaço para a ideologização do tema. “A política tem que ser plural e focada em resultados. Não pode violar direitos.” Cloves Benevides tem larga experiência no setor – foi da Secretaria Nacional de Políticas de Drogas (Senad), do governo federal, e coordenou o segmento em gestões estaduais de Minas Gerais e Alagoas. Mas, dentro do governo de Pernambuco, faz parte do quinhão do Partido Progressista (PP), que tem líderes evangélicos ligados às comunidades terapêuticas, como o deputado estadual Cleiton Collins e a esposa dele, a vereadora Michele Collins.

Polêmicas à parte, uma coisa é certa: o Projeto Atitude, carro-chefe da política sobre drogas no Estado, será reforçado. Atualmente são quatro unidades, no Recife, Jaboatão dos Guararapes e Cabo de Santo Agostinho (RMR) e em Caruaru (Agreste). São realizados 30 atendimentos diários de pessoas com algum envolvimento com drogas. “Vamos reafirmar o Atitude, e ainda formatar novas ideias”, promete Benevides. O secretário descarta políticas mais agressivas, como a que foi utilizada pelo então prefeito de São Paulo, hoje governador do Estado, João Doria (PSDB). “São realidades diferentes. A cena de uso de crack lá é infinitamente maior que a nossa.”

A nova secretaria também vai fazer parceria com a SDS, inclusive para obter recursos com a alienação de bens do tráfico. No discurso de posse, ontem, em Brasília, o novo ministro da Justiça, Sérgio Moro, afirmou que a Senad deve atuar nesse sentido. “Nós concordamos. É preciso reverter bens apreendidos com traficantes, como carros, imóveis e contas, em recursos para o Estado”, explicou o secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua, também durante a cerimônia em Palácio.

Para a psicóloga do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) Rossana Rameh, o momento é de observar os passos da recém-criada secretaria. “Mas não anima ver que a perspectiva religiosa está, de alguma forma, no centro da política. Também não se pode partir para uma prevenção terrorista do uso. O Estado avançou muito com a redução de danos e o Projeto Atitude”, observa.

Últimas notícias