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Conheça a rotina de um clube de tiro do Recife

Clube no bairro da Imbiribeira, Zona Sul do Recife, teve aumento de 30% de inscrições desde a assinatura decreto presidencial que flexibiliza a posse de armas de fogo

Elton Ponce
Elton Ponce
Publicado em 05/05/2019 às 18:32
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Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
Clube no bairro da Imbiribeira, Zona Sul do Recife, teve aumento de 30% de inscrições desde a assinatura decreto presidencial que flexibiliza a posse de armas de fogo - FOTO: Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
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O local mais parece um daqueles salões de beleza para homens. Mesa de sinuca, rock rolando no sistema de som, poltronas confortáveis. Vez por outra, um estampido vindo do andar de cima nos lembra que estamos em um clube de tiro. Nas mesas, esperando pela vez de subir para atirar, gente de diferentes faixas etárias. Muito mais homens, é verdade. Mas, sim, há mulheres. Pessoas que, após a assinatura, no dia 15 de janeiro, do decreto presidencial que flexibiliza a posse de armas de fogo no País, se sentiram atraídas a buscar a sensação de apertar o gatilho. No clube que visitamos, no bairro da Imbiribeira, Zona Sul do Recife, o aumento nas inscrições desde janeiro foi de 30%.

A segurança é total. Para entrar no local, é preciso passar por dois grossos portões de ferro intercalados por um vidro blindado. E não vá pensando que é só chegar, preencher um formulário, carregar uma arma e descarregá-la no alvo. Antes de qualquer contato com armamento, os candidatos passam por uma rigorosa checagem, que inclui antecedentes criminais e teste psicológico.
O rigor é tanto que quem estiver respondendo por uma infração na Operação Lei Seca, por exemplo, está automaticamente desabilitado a participar. “Queremos desmistificar essa ideia de que é um estímulo à violência. Aqui é um lugar para trazer a família, os amigos, para se divertir”, defende Alan Rommel, praticante de tiro esportivo e sócio do clube. Na pista de tiro, tudo remete aos estandes de filmes onde policiais treinam a mira.

Antes de colocar a mão na massa, aulas teóricas. Conversamos com um comerciante de 42 anos que pediu para não ser identificado. Depois de atirar com uma carabina calibre 12, ele alega que pretende ter uma arma legalizada em seu estabelecimento. “O treino é porque quero aprender a manusear com segurança vários tipos de armamento”. Outro homem, um pouco mais jovem, deu seu primeiro tiro naquele dia, na companhia de colegas que já frequentam o clube. Saiu radiante.
Há cada vez mais mulheres desbravando o ainda predominantemente masculino mundo civil do armamento. Duas senhoras que fogem a qualquer estereótipo armamentista – usam salto alto e roupas elegantes – chegam após o expediente de trabalho para treinar. Atiram (bem) com pistola, espingarda, falam com desenvoltura sobre calibres, empunhadura, conferem a performance nos alvos de papel e, cerca de uma hora depois, vão embora.

Administradora, Vanessa Nogueira passaria facilmente por uma modelo hipster. Alta, esguia, bem vestida, brinco no nariz, ela nunca tinha atirado na vida. Após descobrir o hobby, no entanto, já levou amigas e até mesmo a mãe para o estande do clube. “Todas adoraram. Existe uma percepção de que é um universo de violência, mas não é bem por aí. As pessoas vêm, brincam, fazem competição, desestressam”. Ao contrário da maioria, ela não pretende ter uma arma em casa para defesa, mas quer se especializar em competições.

Márcio Henrique é comerciante. Diz que a influência da família – tio comissário de Polícia, parentes militares – pesou no seu gosto por armas, mas que a ideia de procurar especialização, mesmo sendo civil, veio recentemente. “A violência está muito grande por aí. Por enquanto, vou praticando. Mas quero, no futuro, ter minha própria arma e, caso precise usá-la, vai ser apenas para defender a minha vida e a da minha família”. “Não há um perfil definido dos frequentadores. Tem de dançarino a empresário, e as idades também variam muito”, explica Alan.

Registros não aumentaram

O aumento facilmente verificado nas aulas de tiro não se traduziu, necessariamente, na emissão de registros. Em Pernambuco, nos três primeiros meses do ano, foram 172 concessões, o que perfaz um total de 1,8 por grupo de 100 mil pessoas. O Estado é o 20º colocado no Brasil – o primeiro é o Mato Grosso, com uma taxa de 12,7 registros por 100 mil habitantes no primeiro trimestre, seguido de Santa Catarina (12,3) e Rondônia (12,2). Com 0,2 posses para cada grupo de 100 mil habitantes, o Maranhão é a unidade da Federação que menos recorreu à medida.

“Houve uma procura grande no início, mas agora a tendência é de estabilidade. A principal dúvida que a população ainda tem é referente ao porte, que é diferente da posse”, explica o delegado Rodrigo Barros, responsável pelo setor de armamentos na PF em Pernambuco. O mesmo se verificou no mercado de armas. “Na primeira semana após a publicação do decreto, recebíamos cerca de 200 ligações por dia. Atualmente, fica em 20 a 30 ligações diárias. Muita gente percebeu que não é tão fácil nem tão barato. Entre 70% a 80% das pessoas que compram armas são empresários, para defesa de propriedade e comércio. O restante é para praticar tiro. Muitos estão procurando entender o que é o mercado”, explica Thiago Suassuna, que atua como distribuidor para marcas de armamento.

Nos últimos quatro anos, a concessão de registros de arma de fogo no Estado não tem obedecido a qualquer lógica. Entre 2014 e 2015, por exemplo, aconteceu o maior aumento: 169%. Já de 2015 para 2016, houve uma redução de 7%. No ano seguinte – 2016 com relação a 2017 –, novo aumento, de 36%. E em 2018, redução de 36%.

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